Hoje falamos do nosso concurso de blogocontos, de blogues e do seu universo.
Encerrámos a recepção ontem à meia-noite e recebemos mais de 40 trabalhos, vindos de colaboradores e de visitantes. Para primeira experiência não parece ser um mau resultado. Falamos apenas da quantidade, pois sobre a qualidade será o júri a pronunciar-se.
O conceito de blogoconto, de blogonovela, de artigos adequados a este meio que ainda mal completou a primeira década, vai demorar tempo. Os colaboradores transportam para os blogues e sítios os hábitos que trazem da sua prática de escrita noutros contextos – jornalísticos, literários, académicos… Medem a extensão da sua escrita em páginas, sabendo-se que «página» não é um conceito objectivo, pois depende do tipo e do corpo de letra utilizados, do espaço entre linhas.
Novos meios, novos suportes, exigem novas formas de escrever. Sabemos que este meio não terá a duração de outros que o antecederam, pois novas tecnologias em breve tornarão blogues e sítios em peças de museu. Um jornalista brasileiro dizia há pouco tempo que «os blogues e redes sociais, são coisas de velhos». Talvez tenha razão. Mas deve ser um jovem que ainda não se apercebeu de que da juventude à velhice vai um pequeno passo. E esse passo está a ser dado com os blogues continuando a crescer à meteórica velocidade.
Embora o conceito tenha sido criado em 1997 – weblog o que abreviado deu blog e aportuguesado blogue, só em 2000, com a introdução do permalink (ligação permanente), permitindo a cada blogue uma localização permanente, URL. Actualmente, a maioria dos blogs é compatível com o recurso de inserção de imagens, vídeos, áudio nos artigos. Outra inovação deste meio é o de permitir uma interacção do visitante, opinando sobre os artigos publicados. Os comentários são ideias em movimento (quando veiculam ideias, claro).
O conteúdo dos blogues está sujeito às mesmas regras legais de outros meios, incluindo a protecção do direito do autor. No entanto, a blogosfera transformou-se numa selva. O escritor e jurista Luiz Francisco Rebello, falecido há dias, encabeçava uma equipa que preparava legislação específica para este meio. Alguém deve continuar esse trabalho, pois as «liberdades» são as piores inimigas da Liberdade.
O nosso concurso de blogocontos foi um êxito. O júri começa hoje a análise dos textos. Ao Manuel Simões, António Gomes Marques, António Baptista Lopes e Hélder Costa desejamos um bom trabalho.


Opinião divergente: não há blogocontos, ou artigos adequados a “novos suportes”. A menos que aceitemos que a simplificação da escrita, reduzida a um vocabulário de abreviaturas só compreensíveis, na totalidade, pelo grupo (por muito extenso que seja) que as usa no interior de um círculo inexoravelmente fechado, representa uma nova forma de escrita. Não representa. Não passa de um tipo de “calão”, em cuja definição encaixa que nem luva. Quando muito, representa uma forma de comunicação adequada ao encurtamento do horizonte intelectual dos seus utilizadores, podendo, isso sim, apressar a decadência de uma língua, enquanto incrementa o empobrecimento estético e o encolhimento do seu (deles) vocabulário…Uma forma literária ou é ou não é (tendo em conta que as definições, no que toca à prosa, serão sempre referências instáveis – mas sempre o foram). As categorias básicas aplicadas a este tipo de escrita hão-de servir, por muito mais tempo do alguns se possam sentir tentados a calcular (talvez por toda a duração da Humanidade), para classificar, com maior ou menor aproximação ou ambiguidade (já há, desde há séculos, “objectos inclassificáveis”) o que quer que se escreva. Quando uma obra literária nos obriga a procurar um enquadramento novo (não raro, desnecessário) ela chama-se “Ullysses”, “La vuelta al día en 80 mundos” ou “Rayuela”, “Oppiano Licário”, “Tres tistes tigres”… e os autores chamam-se Joyce, Cortázar, Lezama Lima, Cabrera Infante,… Mas, ainda aqui, o que se procura é um alargamento de definições já utilizadas ou o reconhecimento, no “objecto inclassificável”, da acumulação de formas literárias que o constroem.Há uma “linguagem televisiva”, por exemplo? Há – infelizmente! Não existiria, se a cultura do seus “inventores”, dos seus utilizadores e dos que “inventaram” a necessidade da sua invenção fosse mais vasta e sólida. Tal como os novos “suportes”, vieram ao encontro de um crescendo de ignorância global e originaram uma “cultura de massas” que arrasou (o mesmo é dizer que desbastou até ao seu raso nível) a variedade das riquíssimas “culturas populares” e as complexidades da “cultura erudita”. Já na rádio se impôs a busca de um estilo que tivesse em conta que o ouvinte “não pode voltar atrás”, rever a “página que já leu”. Ainda que, para um público mais conhecedor, qualquer leitura seja possível, não será através da rádio que alguém se proporá estudar os “Lusíadas”…Não me parece pertinente transpor para a análise literária uma expressão muito usada em relação à pintura e ao desenho (mas não ao conjunto das Artes Plásticas), em que o termo “suporte” tem um sentido bem definido, que se ajusta ao que se pretende analisar e tem de atrair a atenção de quem “faz”. Quando é a palavra que está em causa, parecer-me-ia mais correcto falar de “meios de transmissão”: eu não altero a minha linguagem por falar na rádio ou na TV, escrever em papel ou num blogue; altero-a, sem dúvida, em função dos destinatários da minha “mensagem”, se e quando essa diferenciação se pode estabelecer – o que ainda pode ser avaliado na radiodifusão, numa assembleia, num comunicado ou artigo.Mas o mesmo não acontece na “internet”, onde os destinatários e seus diversos graus de conhecimentos e de entendimento do que lhes é transmitido não se podem circunscrever; onde nada me guia. Aí só funciona a exclusão; o que noutros “meios” poderia conduzir-me, p.e., a uma simplificação da linguagem, não se aplica: não vou “adaptar” a minha mensagem, sem saber a quem me dirijo.
Os meus vícios de economia editorial, levam-me sempre a lamentar que os comentários de Paulo Rato não sejam posts, ou artigos, autónomos. Do mesmo modo que não aprecio os comentários ocos, parece-me que os demasiados recheados e extensos, como é o caso dos que o Paulo escreve, constituem um desperdício. Vou, por isso, tentar arranjar tempo para lhe responder num post. Na verdade, discordo do Paulo no essencial. O essencial é a afirmação que faz de que não existem formas de escrever adequadas a cada “suporte”. A contestação que faz do termo “suporte” também se me afigura desnecessária. É a designação técnica adoptada e parece-me tão boa como qualquer outra. Todas as profissões têm o seu jargão próprio e uma análise etimológica (por exemplo) de alguns termos da Medicina, da Arquitectura ou da Engenharia, conduziria à conclusão de que não são os mais correctos. Chamemos-lhe suporte ou qualquer outra coisa, reconheçamos que uma folha de papiro, uma tabuinha de argila ou um computador são receptores/difusores de escrita diferentes. Tão diferentes que, na minha opinião, pressupõem maneiras diferentes de escrever e de ler. Mas já escrevi um comentário demasiado extenso. O resto direi no tal post.
Cá fico à espera, caríssimo.Para já, apenas uma observação: pelo menos na rádio e em TV, há que fazer a distinção entre “suporte” e “meio de transmissão”. Quanto ao “suporte”, não haveria eu de o saber, que estive directamente envolvido na “migração” (termo técnico) entre suportes (por ordem inversa: CD-R, DAT, vinil, fita magnética e outros, contemporâneos de alguns destes ou mais antigos, tendo-se já entrado – na TV, que a rádio é o parente pobre…- numa nova fase, decorrente da disponibilização de suportes “virtuais”), obrigatória no processo de preservação de documentos áudio, no chamado Arquivo Histórico?Portanto, parece que, entre outros elementos que afectem as nossas opiniões, estarão percursos profissionais diversos, com “jargões” diferentes, impostos pela especificidade dos meios e materiais usados.A questão da linguagem e sua adequação é, creio, de outro género: será que a viagem da escrita pela tabuinha de argila, o papiro, o pergaminho, os diversíssimos tipos de papel, que foram evoluindo, teve influência no modo como se ia escrevendo? O “meio de trasmissão” tem… em alguns casos, incluindo, eventualmente, a invenção da imprensa, se a quisermos considerar como tal – apesar de alterar, fundamentalmente, o “alcance” da difusão dos textos, a multiplicação de saberes e influências pode pressupor consequências mais complexas, ao nível da escrita…; em relação à rádio, já o referi. Que dizem sobre isto os especialistas, se os há, credenciados? Conheces algum que, por mim falo, possa orientar a minha avaliação do tema? Porque me limitei a expressar o que penso, sem referências exteriores que – a existirem – acaso, com uma certa sistematização “académica” bem aplicada, pudessem ajudar-me a formar uma opinião – idêntica ou diversa – melhor fundamentada.
Tentarei responder amanhã. Os suportes, ou meios de transmissão (se preferires) têm sempre influência no modo como se vai escrevendo. Há especialistas credenciados e cadeiras específicas (História do Livro e da Escrita ou Sociologia do Livro e da Leitura…).. Talvez possa fornecer-te bibliografia. Mas o mais importante é discorrermos sobre o tema. Não te parece?