UM CAFÉ NA INTERNET – Ensaiando Partidas, por Astrid Cabral

(1936 – )

Um Café na Internet

 

 

 

 

 

Cadeiras de balanço mastigavam os soalhos
ensaiando partidas, embalando fundas ânsias
contra bojos de navios trancados a âncoras.
Caolhos os rádios acendiam as mágicas pupilas
de gato e vozes espetrais sem apoio de bocas
e rostos chegavam, de que mundo, de que mapa?
Ventiladores giravam as corolas metálicas
no chão invertido dos tetos criando brisas
que não se aventuravam pelas ruas polidas
de sol nem ousavam soprar a fuga de velas.
Na praça São Sebastião galeras de bronze
destinavam-se a longínquos continentes mas
imóveis não singravam ondas de lusas pedras
deixavam-se estar molhadas tão só de chuvas
proas frustradas de horizontes e azuis.
Que estranha calmaria as conjurara, quilhas
vacinadas contra a vertigem dos ventos?
Ou estariam desde sempre fundeadas nas
invisíveis correntes d’água dos séculos?
Dobravam os sinos abafando os frenéticos
pianos a planger nos salões dos sobrados
mas o que sempre se ouvia, pouco importa
se baixo e rouco, era o gargarejar do rio
a vocação de foz e mar drenando fragmentos
de terra, arrastando de roldão os corações.

Astrid Cabral é natural de Manaus. Para além de poetisa, é contista, tradutora (traduziu Walden, de Thoreau), professora universitária e trabalhou em várias embaixadas. O argonauta Sílvio Castro, no seu livro Dedicatória Autógrafa de Autor, Kelps, Goiânia, 2011, diz-nos que Astrid Cabral “… desde a sua estréia com um livro de prosa-ficção demonstrara que surgia um autor com invulgar capacidade de fazer da prosa e da poesia um só sistema expressivo. Desde então , a sutil capacidade de observação do mundo, trazida pela jovem escritora, demonstrava que nela era presente igualmente o poeta. O que vem demonstrado por poemas como aqueles que compõem o volume Ponto de Cruz, …, depositários , a um só tempo de uma viva tradição e vibrante modernidade. Tudo sob a égide da linguagem mais criadora. …”. A primeira obra de Astrid Cabral foi Alameda, de 1963. Ponto de Cruz, de 1979. Seguiram-se muitos outros trabalhos, e mais virão.

A Astrid Cabral enviamos os nossos respeitosos cumprimentos. Ao Jornal de Poesia, da Agulha Revista de Cultura (www.revista.agulha.nom.br), onde encontramos o poema acima, muito obrigado.

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