CHARLES KOECHLIN (1867-1950)
“Será necessário, para o escutar, um público que não tenha pressa”
Gabriel Fauré
Por muito tempo negligenciada, a obra imensa de CHARLES KOECHLIN impõe-se hoje como uma das mais
importantes da música francesa do início do século passado.
Há mesmo quem o considere “um dos pais da música do século XX”.
Humanista no pleno sentido do termo, KOECHLIN não foi apenas compositor, teórico e professor: a literatura, as matemáticas e a astronomia, o cinema, a fotografia, as viagens, a curiosidade por países longínquos, foram outros tantos polos de interesse, cuja diversidade se reflecte na obra do músico e contribui para a riqueza da mensagem que nela nos deixou.
Ferozmente cioso da sua liberdade e independência, manteve-se afastado dos cenáculos e salões onde se forjam as “carreiras”, o que explica, em parte, o esquecimento em que foi mantido, mesmo em vida.
Mas as razões desta exclusão terão a ver com os preconceitos dos seus contemporâneos, quer de ordem artística, quer decorrentes do nacionalismo exacerbado que a I Guerra desencadeou e que excluía os que considerava inimigos da nação em guerra, por serem estrangeiros, judeus, protestantes ou com tendências políticas de esquerda.
No entanto, nomes como Poulenc, Sauguet ou Milhaud invocam a importância dos seus ensinamentos.
A própria notoriedade da sua obra teórica terá contribuído para relegar o trabalho do compositor para segundo plano: tinha um profundo conhecimento musical, que ia dos mestres da Renascença até aos contemporâneos como Schönberg ou Stravinsky; e os seus tratados de harmonia e de orquestração revelam uma ciência prodigiosa, que nada deixava na sombra e que presidiu à elaboração de uma obra de grande complexidade e refinamento. Tratados que continuam hoje a ter ampla utilização.
KOECHLIN surge, mesmo, como pioneiro, nas suas experiências de politonalidade e atonalidade, contemporâneas das investigações de Stravinsky e Schönberg.
A recente biografia de Robert Orledge e uma discografia em contínuo crescimento, nos últimos anos, quebraram o silêncio e revelaram uma personalidade notável e uma obra que inclui partituras excepcionais.
Filho de pais alsacianos, nasceu em Paris a 27 de Novembro de 1867. Ainda se inscreveu na Escola Politécnica da capital, em 1887, mas dois anos depois abandonou-a, para se consagrar inteiramente à música.
De 1890 a 1898 foi aluno do Conservatório de Paris, onde estudou harmonia, contraponto, fuga e composição. Foi aluno de Gabriel Fauré, Ravel, Roger-Ducasse, Ladmirault e outros.
As primeiras composições de Koechlin datam de 1900.
Em 1909 funda, com Florent Schmitt, Roger-Ducasse e Ravel, a Société Musicale Indépendante, que se proclamava aberta a toda as tendências da música moderna, em rotura com a Société Nationale, dominada pelos “scholistes”, discípulos de Vincent D’Indy, em oposição aos “debussystes”.
Mas, não dispondo de recursos próprios que lhe permitissem cingir-se à actividade criadora, Koechlin resolve, depois de 1914, dedicar-se ao ensino. Esse tempo de professorado, segundo revela o próprio músico, foi-lhe muito útil.
Entre 1918 e 1920 integra o grupo “Les Nouveaux Jeunes” com Satie, Roussel e Milhaud.
Possuía grande facilidade para compor e uma extraordinária capacidade de trabalho. Ao mesmo tempo que compunha, escrevia artigos de crítica ou sobre a história de música, sempre excelentes obras, ricas de ensinamentos. Escreveu também vários livros sobre música e compositores, de que avulta a biografia de Gabriel Fauré, uma obra-prima de penetração psicológica e estética.
Em 1918 viaja para os Estados Unidos, onde realiza uma série de conferências. Retorna a esse país, com o mesmo objectivo, em 1929 e depois em 1937. Aí foi também professor, nas Universidades de Berkeley e de San Diego. Entre os seus alunos, conta-se Fernando Lopes-Graça.
Escreveu também para o cinema, tendo composto, em 1933, a Seven Stars’ Symphony, dedicada a sete actores, o último dos quais Charlie Chaplin.
“Fala-se das regras comuns, do respeito pelo “estilo da época”. Mas os estilos sofrem continuamente modificações. (…) Porque senão, a estagnação, a imobilidade, é a morte.
O essencial é permanecer livre. Sem nenhuma revolta (…). O “Fay ce que veulx” do Abade de Thélème é um lema cheio de razão: a da obediência à sedução musical e à intuição criadora. O dever é aqui, muito simplesmente, o de ceder à tentação.”
“…no entardecer da vida, dou-me conta de que a realização dos meus sonhos de artista, por incompleta que seja, me deu a satisfação íntima de não ter perdido o tempo que passei na terra.”
Charles Kœchlin
Aqui ficam três exemplos da sua obra :
Duas peças da 2.ª Parte do 1.º livro de Paysages et marines, Op. 63;
V. Soir d’été (d’après la lithographie d’Henri Rivière)
VI. Ceux qui s’en vont pêcher au large, dans la nuit
pela pianista Deborah Richards.
“Épiphanie”, última das Trois mélodies op. 17
pela soprano Juliane Banse, com a Radio-Sinfonieorchester Stuttgart des SWR, dirigida por
Heinz Holliger
http://www.youtube.com/watch?v=EuQOk9gXw14&feature=related
E o 3.º andamento – Greta Garbo, da referida The Seven Stars’ Symphony
pela Deutsches Symphonie – Orchester Berlin, conduzida por James Judd
http://www.youtube.com/watch?v=soyHjQXcKwQ&feature=related


