Um dos problemas mais graves com que os jovens portugueses se deparam hoje em dia é o do emprego. Dirão, não é um problema novo, o que é verdade. Mas não é exagerado dizer que está muito agravado. Números recentes, aceites pelo Eurostat, dizem que o desemprego em Portugal se aproxima dos 13 %, mas que o dos jovens, abaixo dos 25 anos rondará os 30 %. Na União Europeia (EU) os mesmos números são de 9,8 % e de cerca de 20 %. Repare-se que em Espanha os números são 22,8 % e, pasme-se, 48, 9%.
Entretanto, o jornal El País de domingo passado, 18 de Dezembro, mostrava-nos um aspecto ainda mais aterrador, o dos jovens que não estudam nem trabalham. Citando também o Eurostat, informava que 800 000 cidadãos de idade entre os 18 e os 24 anos, 22,4 % do total da população compreendida neste escalão etário, estão nesta situação. Em 2007 o peso no total era de 13,8 por cento, o que aponta para um rápido agravamento de situação. Os mesmos números para a UE são 14,9 (2007) e 16,5 (2011), havendo situações bastantes diversas entre os vários países. Por exemplo, na Alemanha e no Luxemburgo os valores diminuíram ligeiramente. Para Portugal são 13,6 (2007) e 14,8 (2011). Piores que a Espanha estão Bulgária, Itália, Irlanda e Letónia.
Sem dúvida que é complexo analisar estes números. Mas é claro que é cada vez mais difícil a relação entre o mundo do trabalho e o resto da sociedade. Melhor dito, entre o mundo económico e o resto da sociedade. É evidente que os empregadores de trabalho precário, a economia clandestina, recorrem muito a esta camada de jovens, que por vezes conseguirão uma ocupação informal. Por outro lado, refere ainda El País, um professor da Universidade de Valência divide esta camada de jovens (os ni-ni, ni estudiantes, ni trabalan) em dois grandes grupos: os que fracassaram nos estudos e não encontram trabalho, e os do tipo sabático, que estão a fazer um intervalo antes de começarem a trabalhar. Óbvio que o caso mais complicado é os do primeiro grupo, cujo número deve ser o que mais contribui para as estatísticas acima mencionadas. Contudo, pelo menos em Portugal, parece que os jovens com estudos também não estão com a vida fácil.
Fala-se muito em mais formação e em formação mais adequado (línguas, tecnologias). Mas põe-se a questão de se não estaremos perante um problema estrutural. A evolução da estrutura produtiva e as políticas de contracção do sector público têm feito diminuir a oferta de trabalho, e combinadas com a pressão para reduzir o custo do trabalho, tendem a impor um crivo mais apertado à criação de emprego. A financeirização da economia, combinada com a mundialização, levou à contracção dos sectores económicos tradicionais, e os sectores mais modernos não se revelam como capazes de criarem postos de trabalho em número suficiente para compensar os que desapareceram.
Parece estar a criar-se um fosso entre as pessoas e as entidades com capacidades de criarem empregos. E esse fosso afecta os jovens de maneira particular. Não só os com pouca preparação, como também os que tiraram um curso. Há muito que se fala em preparar os jovens para o trabalho, na ligação entre o mundo empresarial e as universidades, mas os resultados não estão a ser brilhantes.
E há que pôr mais outra questão, de se não estaremos perante um enfraquecimento da própria coesão social? O investimento na economia procura reduzir cada vez mais a parte da remuneração que cabe ao trabalho. Por outro lado, a precariedade no trabalho, o enfraquecimento das carreiras profissionais, que parecem ser um grande objectivo a prazo das entidades patronais, e que tende também a dominar o sector público, não levarão a um enfraquecimento da produção num futuro não muito longínquo? São grandes questões, para que são necessárias respostas mais completas que as actualmente mais aceites.

