A propósito do Acordo Ortográfico – autor desconhecido

 

 

Enviado por Joaquim Magalhães dos Santos

 

 

 

 

(Adão Cruz)

 

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Quando eu escrevo a palavra acção, por magia

ou pirraça, o computador retira automaticamente

o C na pretensão de me ensinar a nova grafia.

De forma que, aos poucos, sem precisar de ajuda,

eu próprio vou tirando as consoantes que, ao que

parece, estavam a mais na língua portuguesa.

Custa-me despedir-me daquelas letras que tanto

fizeram por mim.

São muitos anos de convívio.

Lembro-me da forma discreta e silenciosa como

todos estes CCC’s e PPP’s me acompanharam em

tantos textos e livros desde a infância.

Na primária, por vezes gritavam ofendidos na

caneta vermelha da professora:  – não te esqueças

de mim!

Com o tempo, fui-me habituando à sua existência

muda, como quem diz, sei que não falas, mas

ainda bem que estás aí.

E agora as palavras já nem parecem as mesmas.

O que é ser proativo?

Custa-me admitir que, de um dia para o outro,

passei a trabalhar numa redação, que há
espetadores nos espetáculos e alguns também nos

frangos, que os atores atuam e que, ao segundo

ato, eu ato os meus sapatos.

Depois há os intrusos, sobretudo o R, que tornou

algumas palavras arrevesadas e arranhadas,

como neorrealismo ou autorretrato.

Caíram hifenes e entraram RRR’s que andavam errantes

 

É uma união de facto, e  para não errar tenho a

obrigação de os acolher como se fossem família.

Em ‘há de’ há um divórcio, não vale a pena criar

uma linha entre eles, porque já não se entendem.

Em veem e leem, por uma questão de
fraternidade, os EEE’s passaram a ser gémeos,

nenhum usa (^^^) chapéu.

E os meses perderam importância e dignidade;

não havia motivo para terem privilégios. Assim,

temos  janeiro, fevereiro, março, são tão

importantes como peixe, flor, avião.

Não sei se estou a ser suscetível, mas sem P,

algumas palavras são uma autêntica deceção,

mas por outro lado é ótimo que já não tenham.

As palavras transformam-nos.

Como um menino que muda de escola, sei que

vou ter saudades, mas é tempo de crescer e

encontrar novos amigos.

Sei que tudo vai correr bem, espero que a

ausência do C não me faça perder a direção, nem

me fracione, e nem quero tropeçar em algum
objeto. 

 

Porque, verdade seja dita, hoje em dia, não se

pode ser atual nem atuante com um C a
atrapalhar.

Só não percebo porque é que temos que ser NÓS

a alterar a escrita, se a LÍNGUA É NOSSA …? ! ? ! ?

 

Os ingleses não o fizeram, os franceses desde

1700 que não mexem na sua língua e porquê nós?

 

Ou atão deichemos que os 35 por cento de anal

fabetos afroamaricanos fassão com que a nova

ortografia imponha se bué depréça ! .

   

 

6 Comments

  1. Embora creia que boa parte do conteúdo deste texto já tenha sido abordado por mim (só não tenho a certeza, porque estou farto de escrever sobre esta imbecilidade, a que chamo – recordo – Aborto Ortofágico, em diversos meios de comunicação e sítios informáticos), aplaudo esta manifestação de resistência.Só não aplaudo o que parece ser (ou entendi mal?), a certo trecho, uma manifestação de desistência. Comigo, também o corrector insiste, mas eu reponho a grafia correcta.Proponho ao anónimo autor o seguinte exercício: ler, de acordo com as regras antigas (se for em público, então, é óptimo) os textos escritos ao (des)abrigo do Aborto Ortofágico – “ao desabrigo”, porque as pobres criaturas que tentam utilizá-lo, de “moto próprio” ou porque a tal foram constrangidas por superiores hierárquicos imbecis, como convém a esta espécie, não conseguem tal desiderato, dada a desorientação prevalecente no próprio documento, que leva os infelizes a escreverem “em desacordo” (!) até com o que o Aborto preconiza, como o caso do “espetador”, que me serve sempre de exemplo, que usam por errada derivação do malfadado “espetáculo” (leia-se fechando o 2º “e”). Ora exemplifiquemos essa leitura, com excertos do próprio texto (usando aproximações para representar os sons, pois poucos conhecem o Alfabeto Fonético Internacional, com excepção do “a” e “e” mudos, em que utilizo a letra de pernas para o ar – “ɐ”, “ə”, ficando o acento circunflexo para indicar as vogais fechadas: “O que é ser pruâtivo?”; “trabalhar numa red ɐ ção”; “esp ə tadores num esp ə táculo” (ver acima); âtores; “ao 2.º âtu eu âtuxsapatos… “; “há – pausa! – desser” (o hífen estava lá por alguma coisa!); v əêm; l əêm”; susc ətível; dec əção; dir əção; frâssione; objêto.Enquanto não renascer a vontade política de emendar uma alteração que foi política e não científica, podemos, ao menos, divertir-nos com o Aborto. Aliás, lembrei-me agora: não quererá o Helder Costa organizar um esp ətáculo com estas “leituras”. Eu, que, como ex-locutor, domino bem as pronúncias e faço a leitura que quero, ofereço-me já para colaborar.Finalmente, um último reparo: mesmo no caso de algumas palavras que soam da mesma maneira, sem as consoantes (ou com outras alterações “abortivas”), em Lisboa e noutras regiões, tal não acontece em todo o país, onde as pronúncias regionais – saliento as da região do Porto e, em geral, do Norte, pelo número de falantes – têm a mesma dignidade e valor linguístico. E, por lá, diz-se, p.e., “átuar”…Os símbolos invertidos que arranjei introduzem um espaço incómodo em relação às letras anteriores, mas penso que se percebe…

  2. Eu tal como o Ricardo Araújo vou continuar a escrever como sempre escrevi e lamento que depois de um belíssimo texto este autor anónimo desista. O meu computador também é muito democrata, Augusta C.Como sempre o comentário cheio de força do ilustre sr. Paulo Rato que me dá enorme prazer ler. Abraços

  3. Não sou linguista ou filólogo e não me sinto habilitado para julgar do AO do ponto de vista da linguística.Não sei se era mesmo necessário um AO e, a sê-lo, possivelmente poder-se-ia ter feito melhor.Há alterações que me desagradam, a outras sou indiferente.Não sou, pois, um activista pró-acordo mas não vejo razão para ser militante contra.O “post” tem uma graça relativa – há-os melhores na oposição ao AO.Desagrada-me mais o uso de pró-activo ou proactivo (agora utilizado a torto e direito, sobretudo no meio empresarial e na psicologia) que o o fim dalguns ccc e ppp. Como se pró-activo fosse melhor que proativo. O que é ser pró-activo? (a favor do activo!?) Não basta ser activo, ter iniciativa?Mas o pior é o final do “post”. O último parágrafo – extensão do precedente “nós…a língua é nossa…” (subentendendo-se dos portugueses e apenas destes e excluindo as outras variantes internacionais da língua portuguesa) – é um naco de prosa colonial-racista sem piada nenhuma.

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