DIÁRIO DE BORDO, 1 de Janeiro de 2012


 

Ontem, na televisão, durante uma reportagem sobre os festejos do ano novo, deram a palavra a um grupo de senhoras, com ar de gente modesta, que ia ver o fogo de artifício na Expo. Enquanto uma manifestou a sua satisfação por estar ali, outra fez votos para 2012, e manifestou o desejo de ver o problema da dívida resolvido, acrescentando: nós não temos nada a ver com isso. O ar decidido com que o disse deu a entender que ela tem ideias claras sobre o assunto. Não será com certeza a única. É positivo constatar que existem pessoas com ideias

 

Aderindo ao costume popular nesta época do ano, Diário de Bordo também faz votos sobre a dívida portuguesa no ano que vem. Fundamentalmente para que se compreenda como ela apareceu. Não foi com certeza porque os portugueses quiseram ter casa, automóveis e electrodomésticos, como quaisquer outros cidadãos do mundo. Isto será o ponto de partida para que ela deixe de ser o pretexto para manter os portuguesesem sujeição. Estáà vista (de quem quiser ver, claro) de que a dívida é incontrolável pelos processos que estão a ser usados pelos poderes que nos governam, mesmo que emigremos todos ou morramos de fome. Por isso, para podermos escapar aos seus tentáculos, vamos ter de usar outros processos. A Iniciativa Cidadã para Auditoria da Dívida será um deles. Esclarecer cabalmente o papel dos jogos financeiros, da banca e de como o Estado é utilizado para o serviço de pessoas e grupos restritos será possível uma vez que se compreenda como se formou a dívida.

 

As comissões de luta contra as portagens serão outro caminho a seguir por quem pretenda ajudar a salvaguardar a vida e o funcionamento do nosso país. As portagens tendem a cobrir todo o país, posicionadas em todas as auto-estradas, com ou sem movimento, enquanto que as estradas secundárias tendem a degradar-se, porque não se gasta dinheiro com a sua manutenção, por causa da dívida. Curioso, é que pouco se fala do Instituto de Estradas. Será de temer que, neste campo, um dia destes apareçam mais notícias más, relacionadas com prejuízos. Para já, o objectivo principal das políticas governamentais no campo dos transportes, para além das portagens, parece ser a privatização dos caminhos de ferro, com a consequente redução do papel que representam na vida do país.

 

O estrangular da circulação no país será o efeito inevitável das políticas actuais. E desse estrangulamento resultarão dificuldades acrescidas para quem tem de ir trabalhar todos os dias, e para a circulação de mercadorias, com resultados nefastos para o que resta da economia. Outro resultado vai ser o agravar das diferenças entre o litoral e o interior, para além de questões como as dificuldades criadas à vida no Algarve. Assim, Portugal está a ser encaminhado para uma espécie de regresso à Idade Média, com um governo fraco, por opção, e baronias, que são os grupos económicos, cada vez com mais poderes e maior participação de entidades de outros países, públicas e privadas.

 

Para uma visão global, importante tendo em conta a sujeição em que nos puseram em relação à chamada União Europeia, e ao capitalismo internacional, propomos a leitura do texto publicado neste blogue na passada sexta-feira, dia 30 de Dezembro, às 13 horas, de James K. Galbraith e Aurora Lacq, Salvem os cidadãos antes dos bancos, seleccionado pelo argonauta Júlio Marques Mota. Dá uma ideia clara sobre as coordenadas políticas em que estamos. E propomos também que leiam Um telegrama a Passos não telegrafado, igualmente do argonauta Júlio Marques Mota, saído no mesmo dia às 15.30. Ficam com uma ideia do que acontece ao dinheiroem Portugal. Uma ideia do caminho dado ao imposto sobre os subsídios de Natal dos funcionários públicos e dos reformados. E percebem que tinha sido melhor para a economia portuguesa que esse imposto não tivesse existido. Sempre tinha sido gasto cá em Portugal.

Leave a Reply