No dia 1 de Janeiro de 1962, através da rádio e dos jornais, o país foi abalado pela notícia, de que nessa noite tinha havido uma tentativa falhada para derrubar a ditadura!
Nessa madrugada, dezenas de civis e militares tinham tomado de assalto o quartel do Regimento de Infantaria 3 de Beja e, no decurso da operação tinha sido morto um membro do governo.
O ano de 1962 começava com mais um forte abalo do regime, na sequência do que já se passara em 1961: assalto em pleno oceano do paquete “Santa Maria”, levantamento nacionalista em Angola e início da guerra colonial; desvio do avião da TAP; invasão de Goa pelo exército indiano e rendição das tropas portuguesas aí estacionadas.
Na verdade, naquela madrugada, pelas 2 horas, um grupo de seis militares, sob o comando do então capitão Varela Gomes, entraram no quartel, seguidos pouco depois, por dezenas de civis sob a direcção de Manuel Serra, ex-dirigente da Juventude Operária Católica. Já com o quartel controlado, com a conivência passiva dos seus defensores, Varela Gomes, ao tentar prender o segundo comandante, major Calapez, foi ferido gravemente devendo ser evacuado imediatamente para o hospital.
Com a saída de Varela Gomes perdiam-se todos os contactos com as várias unidades militares que deviam entrar na fase imediata da revolta – Alfeite, GNR-Cabeço de Bola e Academia Militar, Vendas Novas, Estremoz, Santa Margarida, Açores, Faro.
Tratava-se de algo que não fora previsto e os demais oficiais – capitães Vasconcelos Pestana, Eugénio de Oliveira e Pedrosos Marques, tenentes A. Hipólito dos Santos e Carvalho da Silva – ficaram desorientados com a falta do seu chefe.xcxx Os chefes civis, Manuel Serra, Edmundo Pedro e outros, não conhecendo o quartel lançaram-se na tentativa de neutralizar Calapez que se esgueirava no meio da terrível escuridão daquela noite de tempestade e que ainda abateu três assaltantes, antes de fugir do quartel para ir buscar reforços à cidade de Beja.
O quartel só foi retomado efectivamente pelas forças do regime cerca das 8 h da manhã, ao mesmo tempo que lançava em todo o país uma vaga repressiva para prender os participantes e seus aliados. Foram feitas centenas de prisões com uso de violência e tortura generalizada, a demissão imediata dos oficias militares e sua entrega à PIDE.
A PIDE não fora capaz de detectar a organização da Revolta, apesar das duas tentativas de assalto ao quartel, no início de Dezembro, só com civis; como não foi capaz de impedir a entrada, pelo posto fronteiriço de Viva Verde de Ficalho, de Humberto Delgado e a sua posterior fuga, também por um posto da PIDE, Barca d’Alva. O General estava em Beja para participar na Revolta, que soubera algumas horas ir realizar-se naquela noite, mas sem ter sido possível entrar em contacto com Manuel Serra ou Varela Gomes. Ironia do destino, o seu carro cruzou-se na estrada com o carro que levava Varela Gomes para o Hospital de Beja.
O general só devia entrar para assumir o comando da revolta quando esta tivesse conseguido alargar-se, um dia ou dois depois. Mas ele viera, impaciente, sem saber exactamente a data e onde devia eclodir.
A revolta, integrada no projecto IKARO, que ele elaborara no Brasil em conjunto com Manuel Serra, previa a eclosão dum movimento revolucionário num quartel do Sul, integrando militares e civis, e que se devia propagar, com grande apoio popular, por todo o Alentejo e Algarve, levando à adesão de novas unidades militares e ao colapso do regime. A revolta devia estender-se rapidamente a Lisboa e Margem Sul, com paralisação do sistema de transportes e do fornecimento de energia eléctrica parando as fábricas e alargando a agitação.
O esquema mais abaixo mostra a amplitude que a revolta teria tomado.
O regime tremeu, como também a própria Espanha franquista. Na altura o regime português estava preso por fios e Franco tinha medo que, caído Salazar, Portugal servisse de base para tentativas revolucionárias em Espanha. Não só a Marinha espanhola colaborou no patrulhamento das costas do Algarve, por onde se temia que chegassem os revolucionários de Humberto Delgado e Manuel Serra, como na madrugada do dia 1 uma divisão de blindados esteve preparada para entrar em Portugal.
O Estado Novo estava agonizante, podia ter caído com o povo na rua, mas ainda levou 12 anos.


