Novas ofertas de livros, novos problemas de onde os arrumar… E fui parar à prateleira dos meus próprios livros de infância. Se bem que nem todos sejam o que hoje se chama “literatura infantil”. Mas livros que li em pequena, de que gostei, e guardei.

  

E lá estava a Salta-Pocinhas, saída da cabeça de Aquilino Ribeiro (1885-1963), edição antiga, com páginas a cair, cantos rebentados, páginas com desenhos de criança, a demonstrar muitas leituras (de  toda a família). Adorava a safada da raposa, o ar matreiro com que foi desenhada.

Tive pena que esta circunstância não tivesse acontecido uns dias antes, por altura do Natal. É que este livro é dedicado pelo autor a seu filho, no Natal de 1924. E diz ele: “ As aventuras maravilhosas da salta-pocinhas – raposeta pintalagreta, senhora de muita trata – contei-tas, sentado tu nos meus joelhos. Contando-as, veio-me a ideia de as escrever. Além de inspirador, colaboraste com teus silêncios, perguntas e interrupções na frágil meada”.

O site “Vidas Lusófonas” diz-nos que foi publicado em 1924, noutros locais aparece a 1ª edição em 1959. A minha diz que é a 3ª mas não tem data. Foi reeditado recentemente, depois de publicado no Círculo de Leitores, e de ter tido edições a preto e branco.

As ilustrações são de Benjamim Rabier (1864-1939) que Aquilino terá conhecido aquando das suas estadias por Paris. Ilustrador  e teatrólogo, fiquei espantada por saber que é o autor da “vaca que ri”, assim como do célebre Tintin…

 Neste Romance conta-se a vida aventurosa de uma raposa chamada Salta-Pocinhas. Começa assim:

   «Havia três dias e três noites que a Salta-Pocinhas – raposeta matreira, fagueira, lambisqueira – corria os bosques, farejando, batendo mato, sem conseguir deitar a unha a outra caça além de uns míseros gafanhotos, nem atinar com abrigo em que pudesse dormir um sonhinho descansado. Desesperada de tão pouca sorte, vinham-lhe tentações de tornar para casa dos pais, onde, embora subterrânea, a cama era mais quente e segura que em castelo de rei, e onde nunca faltava galinha, quando não fosse fresca, de conserva, ou então coelho bravo, acabado de degolar.»

Em 1988, o Romance da Raposa foi adaptado para uma série de televisão, de 13 episódios de 13 minutos cada, numa produção da RTP, com diálogos e letras escritas por Maria Alberta Menéres, o que é uma garantia de qualidade. Confesso que andava distraída e não dei por nada. Mas agora vendo alguns bocadinhos que aparecem na net, fico desiludida. Nada se compara com os desenhos de Barbier…

 

 

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