COMPOSITORES DESCONHECIDOS – Heitor Villa-Lobos – por Paulo Rato

HEITOR VILLA-LOBOS (1887-1959)

 

“O músico mais importante de toda a América” – Arthur Rubinstein

 

“Não escrevo dissonante para ser moderno. (…) O que escrevo é conseqüência cósmica dos estudos que fiz, da síntese a que cheguei para espelhar uma natureza como a do Brasil. Quando procurei formar a minha cultura, guiado pelo meu próprio instinto e tirocínio, verifiquei que só poderia chegar a uma conclusão de saber consciente, pesquisando, estudando obras que, à primeira vista, nada tinham de musicais. Assim, o meu primeiro livro foi o mapa do Brasil, o Brasil que eu palmilhei, cidade por cidade, estado por estado, floresta por floresta, perscrutando a alma de uma terra. Depois, o caráter dos homens dessa terra. Depois, as maravilhas naturais dessa terra. Prossegui, confrontando esses meus estudos com obras estrangeiras, e procurei um ponto de apoio para firmar o personalismo e a inalterabilidade das minhas idéias”.

Heitor Villa-Lobos

 

  

Fala-se muito nos “nossos irmãos brasileiros”. Mas, que conhecimento real temos da sua cultura, sobretudo da não-literária. No que toca à música erudita, conhece-se Villa-Lobos… Mas, interrogo-me, conhece-se ou “ouve-se falar”? Porque, por experiência profissional, a segunda resposta me parece mais adequada à triste realidade, escolhi falar hoje, um pouco, deste compositor, cuja importância escapa a muitos melómanos.

 

Talvez, mais tarde, tenha oportunidade de focar outros “quase desconhecidos”, como Mozart Camargo Guarnieri.

 

Heitor Villa-Lobos nasceu no Rio de Janeiro, a 5 de Março de 1887.

 

O pai era funcionário da Biblioteca Nacional e músico amador.

 

Todos os sábados, na casa dos Villa-Lobos, nomes respeitados da época reuniam-se para tocar até altas horas da madrugada. Esse hábito influiu decisivamente na formação musical do pequeno Heitor que, aos seis anos de idade, aprendeu a tocar violoncelo com o pai, numa viola especialmente adaptada.

 

Viveu também em cidades do interior do Estado e em Minas Gerais, entrando em contacto com a música popular brasileira, que tanto o iria influenciar.

 

De regresso ao Rio encontrou um outro estilo popular: o “choro”, composto e executado pelos “chorões”, músicos que tocavam por prazer em festas e no carnaval. O interesse por esta música levou-o a estudar violão, às escondidas dos pais, e mais tarde daria origem a um celebérrimo ciclo de 14 obras, para as mais diversas formações, os “Choros”.

 

Em 1905 iniciou uma série de viagens pelo Brasil, pesquisando o seu variadíssimo folclore, recolhendo temas que utilizaria posteriormente nas suas composições.

 

Não é certo que tenha conhecido a Amazónia, que marcou também profundamente a sua obra.

 

1915 marca  a apresentação oficial de Villa-Lobos como compositor, com uma série de concertos no Rio de Janeiro. Casado, na época, com a pianista Lucília Guimarães, ganhava a vida tocando violoncelo nas orquestras de teatros e cinemas.

 

A modernidade da sua música foi inicialmente mal recebida pela crítica.

 

Em 1922, participou na Semana de Arte Moderna, em S. Paulo, apresentando, entre outras obras, as “Danças Características Africanas”.

 

Em 1923 fez a sua primeira viagem à Europa, a Paris, onde rapidamente se tornou conhecido, com o apoio do pianista Artur Rubinstein, que já conhecia, e da soprano Vera Janacópulus.

 

Aí voltou, em 1927, para organizar concertos e publicar várias obras, tendo, a partir de então, ganho enorme prestígio internacional, apresentando composições suas e regendo orquestras nas principais capitais europeias.

 

 

Villa-Lobos – concerto em Paris

 

Regressando ao Brasil em 1930, iniciou um vasto trabalho de desenvolvimento da educação musical, introduzindo o ensino da música e do canto coral nas escolas e acabando por criar o Conservatório Nacional de Canto Orfeónico.

 

A crítica, entretanto (não é só cá…) tinha “evoluído”…

 

Era a época da ditadura de Getúlio Vargas, com quem manteve uma curiosa relação que, segundo alguns investigadores, não correspondia á sujeição habitual neste tipo de regimes, mas a uma espécie de relação de negócios ou de trocas, que o enorme prestígio do compositor conseguia impor.

 

A partir de 1944, onde aceitou realizar uma primeira digressão a convite do maestro Werner Janssen, com o apoio de Leopold Spokowski, de quem se tornara amigo em Paris, passou a deslocar-se com frequência aos estados Unidos, onde regeu e gravou obras suas, recebeu homenagens e encomendas de novas partituras e estabeleceu importantes contactos no meio musical, consolidando o reconhecimento internacional do valor da sua obra.

 

Morreu, de cancro, a 17 de Novembro de 1959, no Rio de Janeiro,

 

Quem o viu um dia comandando o coro de 40 000 mil vozes adolescentes, no estádio do Vasco da Gama, não pode esquecê-lo nunca. Era a fúria organizando-se em ritmo, tornando-se melodia e criando a comunhão mais generosa, ardente e purificadora que seria possível conceber“.

Carlos Drummond de Andrade

 

Talvez a mais famoso trecho de Villa-Lobos, um bom começa para esta nossa pequena visita à sua música será a “Ária (Cantilena)”, das “Bachianas Brasileiras n.º 5”, por uma das mais notáveis cantoras brasileiras, MARIA LÚCIA GODOY:

 

 

Segue-se esta pequena maravilha de música de câmara, numa excelente interpretação ao vivo Anatoli Krastev (violoncelo)  e  Yovcho Krushev (piano)?

 

 

 

Na música de câmara de Villa-lobos avultam os seus Quartetos de cordas. Mas proferimos, nesta sequência, terminar com uma pequena amostra da sua importantíssima obra sinfónica, em que as referências à música popular brasileira são uma característica quase sempre presente.

 

Fiquemos, então, com o empolgante segundo andamento dos Chôros nº10, para Coro e Orquestra,
pela Sinfónica de la Juventud Venezolana (Orquestra e Coro), com regência de Isaac Karabatchevsky:

 

 

1 Comment

  1. Não percebo como, no caminho para a caixa postal do Carlos Loures, se registaram alterações, nos parágrafos finais, que não encontro no meu original. Embora se entenda o que quero dizer, aí vão os trechos, corrigidos:1) “…o mais famoso trecho de Villa-Lobos, um bom começo…”2) O ponto de interrogação no final está a mais: os intérpretes são mesmo aqueles… 3) è evidente que é “preferimos” e não “proferimos” (e o “o” nem sequer está junto ao “e” no teclado…)

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