DIÁRIO DE BORDO, 7 de Janeiro de 2012


 

Portugal, como os outros países, para sobreviver tem de usar uma lógica nacional. Esta frase, dita assim, parece uma banalidade. Mas o facto é que Portugal deixou de usar uma lógica nacional há muito, talvez até nunca a tenha usado. Há séculos que vive em função dos interesses das suas classes dominantes, embora muita gente se recuse a admiti-lo. A chegada da democracia trouxe uma esperança a quem pretendia ver alterado este estado de coisas, contudo a chamada globalização permitiu aos grupos económicos que controlam a vida nacional ir recuperando as suas posições de domínio. O caso da sociedade Francisco Manuel dos Santos SGPS, que vendeu os seus activos à sua subsidiária na Holanda é apenas um caso. Um caso de peso sem dúvida, dada a sua importância económica, e dadas também as intervenções televisivas do seu líder Alexandre Soares dos Santos, pregando trabalho e resignação aos portugueses comuns, e defendendo os privilégios dos mais ricos perante o sistema fiscal.

 

É interessante ler os comentários sobre este caso. Na sua coluna de opinião no Público, ontem sexta-feira, Vasco Pulido Valente, considera a decisão lógica e prudente, e recorda que 19 dos 20 grupos maiores do PSI-20 (como a GALP, MOTA-ENGIL, BES) fizeram o mesmo anteriormente. José Manuel Fernandes vai pelas mesmas águas e remata recomendando que Portugal se preocupe em ser como a Holanda, afirmando que está a perder a corrida desde o século XVI. No Sol, na coluna Sol & Sombra, José António Lima condena a operação financeira dos donos do Pingo Doce, dizendo ironicamente que deve ser uma nova faceta da tão apregoada filantropia cívica empresarial. A Visão, num texto intitulado Emigrar para a Holanda, recorda uma declaração de Alexandre Soares dos Santos, em Fevereiro de 2011, dizendo que não gostaria de mudar a sede para a Polónia por ser português, mas que a Polónia iria ser o centro da actividade da Jerónimo Martins.

 

Para o capitalismo as coisas mudam depressa, e não há pátria nem solidariedade. Já Jean Jacques Servan-Schreiber (1924-2006), no seu livro O Desafio Americano (1967), preconizava, para que a Europa pudesse competir com os EUA, que as empresas europeias imitassem as americanas, pondo os considerandos relacionados com as curvas de lucros e perdas à frente de todos os outros. Parece que as empresas europeias e portuguesas, a começar pelas grandes empresas, têm seguido esse conselho. Contudo a Europa, exceptuando talvez nalguns aspectos a Alemanha, e muito menos Portugal, não estão a melhorar as suas posições, nada que se pareça. E as populações, sobretudo a portuguesa, estão a ser duramente castigadas. Não é por este caminho que Portugal vai ficar mais perto da Holanda. Tem que ser com outro sistema político e económico. Se não, dentro de alguns anos, será um país muito envelhecido, muito empobrecido e a despovoar-se. Ao fim e ao cabo, já nos indicam o caminho da emigração. Aí, um dos problemas é que, para os mais pobres, também é mais difícil emigrar. Também é mais difícil ficar, é verdade. 

1 Comment

  1. Pobres dos executivos, que só anseiam por poder fumar umas ganzas. A deslocalização das empresas para a Holanda fica a dever-se à decisão de passar a permitir apenas aos residentes a frequência dos coffee shops de Amsterdão.

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