Do livro “Cartas de autores portugueses”, editado pelos Correios e Telecomunicações de Lisboa, coligidas por José Ribeiro da Fonte, podemos apreciar extractos de cartas de grandes autores portugueses, divididos em: A Carta, Do amor, Da viagem, Da política, Da vida e do mundo e Da arte e do artista.
Aí encontrei algumas de Fernando Pessoa para Armando Côrtes-Rodrigues. Por também ter em minha posse uma carta deste último (para minha mãe Maria Cecília Correia) onde fala sobre a forma como conheceu Fernando Pessoa, achei interessante partilhar estas passagens.
28-6-1914
Irmão em Além!
Eu vos saúdo e vos peço que amanhã, entre o soar duplo das duas e o soar simples das duas e mais metade de uma hora, surjais com a vossa apresença carnal – sem prolongamento gesticulante de bengala agressiva – à vil cova ou jazigo de utilidades e propósitos que dá pelo nome de “Brasileira do Rossio”. Da vossa tese vos falarei, insciente ainda se então pronta, mas pronta de certo, se não a essa, ora marcada, hora, ao cair lento e morno do crepúsculo de amanhã. Não vos aflijais ! Os deuses têm tempo para tudo. E no dia 30 entregareis a vossa tese se antes o Destino a não dactilografar antes. Guarde-nos Deus; e que a futura Divindade Tutelar das Estranhezas irritantes vos assente à sua mão direita.
Fernando Pessoa.
Meu caro Côrtes-Rodrigues
Felizmente para mim tenho tido bastante que fazer. Sobra-me tempo apenas, portanto, para estas linhas. Escrevo-lhe para lhe dizer que lhe não posso escrever: é mais um paradoxo do
Muito e sempre seu
Fernando Pessoa
19-9-1915
Lisboa, 19 de Janeiro de 1915
Meu querido Amigo:
(…) “Eu ando há muito tempo – desde que lhe prometi esta carta – com vontade de lhe falar intimamente e fraternalmente do meu “caso”, da natureza da crise psíquica que há tempos venho atravessando. Apesar da minha reserva, eu sinto a necessidade de falar nisto a alguém, e não pode ser a outro senão a você – isto porque só você, de entre todos quantos eu conheço, possui de mim uma noção precisamente ao nível da minha realidade espiritual. Dá-se esta sua capacidade para me compreender porque você é, como eu, fundamentalmente um espírito religioso; e, dos que de perto literariamente me cercam, você sabe bem que (por superiores que sejam como artistas) como almas, propriamente, não contam, não tendo nenhum deles a consciência (que em mim é quotidiana) da terrível importância da Vida, essa consciência que nos impossibilita de fazer arte meramente pela arte, e sem a consciência de um dever a cumprir para com nós próprios e para com a humanidade.” (…)
Fernando Pessoa
(…) “Como conheci o Fernando Pessoa ? Já não sei quem apresentou-me certo dia no Chiado como um poeta as ilhas. Isto era em 1910. Tinha eu chegado há pouco a Lisboa e desde esse dia nunca deixámos de nos encontrar sempre que isso era possível. O Fernando Pessoa a par de tudo isso que vem e se adivinha nas Páginas da doutrina estética era ainda mais estranho em outras coisas. Era teósofo e muitos livros de teosofia correm em Portugal traduzidos por ele – sabia ler nas mãos como poucos. A mim anunciou ele coisas que hoje se realizaram e que foram previstas por ele em 1914. Imagine que outro dia apareceu aqui na ilha com o Ministro do Interior o Poeta Carlos Queiroz (vem uma Arte Poética dele no número do Atlântico a que se refere) que eu não conhecia pessoalmente. Caímos nos braços um do outro e falámos como se nos tivéssemos despedido na véspera. Ele publicou um opúsculo cheio de todo o interesse sobre o Fernando Pessoa e num aspecto absolutamente inédito para todos – o Fernando Pessoa amoroso. As cartas de amor foram dirigidas a uma tia do Carlos Queiroz e foram expurgadas de todas as frases ternas para não parecerem ridículas. Porque nesse ponto de ternura, o poeta era tão piegas como qualquer burguês sentimental (nas expressões, é claro). Conhece esse trabalho? É bem certo que o amor transfigura os homens. Daqui a meses devem aparecer no mercado as cartas de amor de Teófilo Braga. É a sua melhor obra. Por ali se vê como aquele cerebral era no fundo um sentimental. Até a prosa pesada e dura se aligeira nestas cartas que vão sair em edição do Instituto Cultural daqui.”(…)
Armando Côrtes-Rodrigues – 15 Janeiro de 1949



