4. De Ricardo a Stuart Mill, ainda outra aula para um ministro de ignorante disfarçado
(Continuação)
Num mundo neoliberal na qual nos vendem a ideia, nas Universidades, de que o comércio internacional é estabelecido na base de preços relativos e de balanças comerciais equilibradas, ou a tender para isso, não haverá problemas em nos desindustrializarmos porque venderemos outros bens e serviços como contrapartida e o equilíbrio será alcançado. Tese de muita gente até bem mais sensata que os neoliberais, como em tempos, Robert Reich, a defender a produção dos iPad na Foxconn, na China porque a maioria do valor acrescentado ficaria, esse, na América. Mas, estamos a falar de um valor acrescentado líquido, os lucros, gerados na circulação sobre produtos realizados nessa fábrica, a Foxconn, de 300 mil empregados em que os dormitórios estavam cercados de redes para que os jovens não se suicidassem, para que estas os protegessem quando estes se atiravam pelas janelas! O lado de lá, as baixas condições de trabalho e salariais do Sudeste Asiático a marcar o ritmo das más condições laborais e salariais, agora do lado de cá, por efeito exactamente da globalização.
Mas um estudante saído da Universidade Nova e na boa lógica neoliberal leria a minha aula dirigida ao Álvaro da economia, por ele ministro a ser assim exigido que seja tratado, e dirá que a demonstração de Ricardo está feita, há sempre vantagens em comércio internacional, em entrar na barca da globalização, não na dos Argonautas em viagem, claro, blog a que este texto também é destinado. Esse nosso estudante, estudante da classe média deste país e que, pelo seu estatuto, está mais interessado em defender um capitalismo gerado ou gerido a partir de Bruxelas ou de Pequim, este estudante não percebeu nada do texto-aula para o senhor ministro criada nem dos textos de Henri Bourguinat porque moldado no pensamento dominante, não consegue ler e entender para além dele. Dê-se-lhe pois uma pequena ajuda.
De igual modo um estudante muito mais à esquerda, habituado a ler Marx, habituado a ler os seus Grundrisse[1], obra indispensável ainda hoje, e pasmo se esse estudante hoje não existe só na minha cabeça tal a lavagem ao cérebro a que a nossa juventude tem sido submetida, e este dir-me-ia que a aula também não tem sentido porque aí na base dos preços relativos está pressuposta a troca directa e esta nada tem a ver com o capitalismo moderno, troca de país para país, de Portugal contra a Inglaterra, da China contra o Resto do Mundo. Uma das críticas de Marx, aliás. Dê-se-lhe também uma ajuda, embora bem diferente da anterior.
O grande drama de tudo isto é que, na verdade, num mundo global as trocas são determinadas não na base dos preços relativos, mas sim na base dos preços absolutos. Num mercado global vende quem produzir a custo mais baixo. Mas, o modelo de Ricardo é passível de assim ser visto uma vez que com a balança comercial equilibrada, e preservando absurdamente todas as restantes hipóteses, o modelo de Ricardo mantêm-se com a análise em termos de preços absolutos e o mercado, pasme-se, tem a função de ”revelar” as vantagens comparadas que ninguém à partida conhece, e o mercado muito menos!
Esclareçamos esta questão, com o exemplo de Portugal e a Inglaterra da nossa aula para o ministro publicada. Tomemos então o exemplo numérico aí apresentado com os custos em horas de trabalho nacional de cada país e por cada unidade produzida, vinho e tecido, produtos agrícolas e produtos industriais:
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Vinho |
Tecido |
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Portugal |
100 h |
120 h |
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Inglaterra |
90 h |
80 h |
A Inglaterra produz a unidade tecido com 80 h ao salário indiferenciado, à Ricardo, como diz Samuelson, expresso por SI e o custo salarial por unidade de tecido vem SI 80 libras, salário este expresso em libras. De igual modo para o vinho que teria um custo de 90 SI. Em Portugal, o vinho custaria 100 horas e os custos salariais seriam de 100 SP, onde SP representa o salário horário em Portugal enquanto o tecido custaria então 120 SP, sendo ambos os valores emeuros.
Aqui nada é comparável, pois temos preços em euros em Portugal, temos preços em libras na Inglaterra. Precisamos da taxa de câmbio para exprimir todos os preços na mesma moeda. Admitamos a hipótese que uma libra vale um euro e que quer esta taxa de câmbio (R), a expressar a quantidade de euros por libra, quer os salários em vigor que aqui se considera, estão fixos. Portugal, por hipótese, à taxa de câmbio e de salários considerados produz tudo a preço mais alto que a Inglaterra e não haveria equilíbrio nas trocas internacionais ou até, não haveria mesmo trocas. Neste caso temos 90 SI R <100 SP e assegura-se assim que também o vinho é mais barato na Inglaterra do que em Portugal e na mesma moeda, em euros. Teremos igualmente 80 SI R < 120 SP. Destas duas desigualdades tiramos (SI R/ SP) < (100/90) e igualmente (SI R/ SP) < (120/80), ou ainda, (SI R/ SP) < (10/9) < (12/8). Na base dos preços absolutos, aqui expressos, a Inglaterra vendia tudo e Portugal comprava tudo. Tínhamos reservas cambiais ou melhor, tínhamos euros, e íamos gastando.
Entretanto, acaba-se essa possibilidade. Saída? Portugal procura libras e para isso está a vender euros. A pressão no mercado acentua-se e a libra sobe de valor quando expressa em euros com tudo o resto constante. Fá-lo-á primeiramente até que nível? Até ao nível em que o preço do vinho se torna igual nos dois países. Teríamos assim 90 SI R = 100 SP =. Do lado esquerdo desta igualdade temos o preço do vinho na Inglaterra expresso em euros. Como o salário inglês está em libras, então 90 SI representa o custo em libras e este multiplicado por R representa o custo do mesmo vinho agora expresso em euros. Do nosso lado direito, 100 SP, dá-nos o preço do vinho em euros. Teríamos então o valor de R = (10/9) (SP/SI). Mas um problema se levanta aqui: a esta taxa de câmbio, o preço do vinho é igual nos dois países e, portanto, não é internacionalmente trocado. Mas, a esta taxa de câmbio, em que a libra passa a valer (10/9) euros, quando antes valia 1 euro, verificamos ainda, com a igualdade anterior, que o tecido é obrigatoriamente mais barato na Inglaterra que em Portugal, pois tem-se SI R/ SP = (10/9) < (12/8) ou seja,. 120 SP> 80 SI R, garantido pela desigualdade anterior.
A esta taxa de câmbio, R = (10/9) (SP/SI), o preço do vinho é igual nos dois países e, portanto, não é internacionalmente trocado. Mas, a esta taxa de câmbio, em que a libra passa a valer (10/9) euros, quando antes valia 1 euro, o tecido é mais barato na Inglaterra e a Inglaterra continua a exportar tecido. O preço da libra terá então de subir novamente e a partir daí o vinho fica mais barato em Portugal. Mas, o valor da libra pode subir até que limite? Até ao nível em que o preço do tecido se torna igual nos dois países. Teríamos assim 120 SP = 80 SI R. Do lado direito desta igualdade temos o preço do tecido na Inglaterra em euros. Como o salário inglês está em libras, então 80 SI representa o custo em libras e este multiplicado por R representa o custo do mesmo tecido agora expresso em euros. Do nosso lado esquerdo 120 SP dá-nos o preço do tecido em euros. Teríamos então o valor de R expresso por (12/8) (SP/SI). Com a taxa de câmbio a ser (12/8=3/2) da relação dos salários, o preço do tecido é igual nos dois países e o vinho é mais barato em Portugal. Neste caso, e com esta igualdade, o tecido não é exportado por ninguém, mas um problema semelhante, mas em sentido inverso se levanta aqui. A Inglaterra perdia a exportação do tecido e mantinha a importação do vinho, situação que não se poderia manter tal como a situação anterior em que Portugal importava tudo. Conclusão, a taxa de câmbio teria então de descer para um valor inferior a (3/2) (SP/SI), mas sempre superior ao valor de (10/9) (SP/SI). A sequência, nesta história é que partindo dos preços absolutos o mercado estabeleceu as trocas internacionais de acordo com as vantagens comparadas de Ricardo (8/12) < (9/10) <1 e, segundo estas vantagens comparadas, a Inglaterra especializa-se em tecido e Portugal em vinho. O mercado funcionaria aqui como uma espécie de Deux ex-machina ou de mão invisível que tudo regula. Mas a crítica ao estudante marxista é assim imediata: Marx não entendeu Ricardo quanto a esta matéria, pois as trocas deram-se no mercado expressas em termos de preços absolutos e não em termos de trocas directas. O estudante da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa ainda tenta argumentar com a lógica dos câmbios fixos, mas aqui a demonstração é imparável. Não meu caro, responder-lhe-ia eu, nestas condições o mercado vai mais longe na sua “revelação do que os homens não conseguem saber”, estabelece o intervalo de variação possível para a taxa de câmbio num mercado cambial completamente flexível e R ficaria assim determinada por (10/9) (SP/SI) <R < (12/8) (SP/SI). Mais ainda, se (10/9) (SP/SI) < (12/8) (SP/SI) < R, então a Inglaterra venderia todos os bens a preço absoluto mais alto, à taxa considerada, deixava então de os produzir devido à concorrência exercida pelos portugueses e passava a importá-los[2]. Nesta situação, Portugal produziria todos os bens a preço absoluto mais baixo e passaria a exportá-los. No caso oposto, se tivéssemos R<(10/9) (SP/SI) < (12/8) (SP/SI) seria a Inglaterra a ter os preços absolutos mais baixos e a exportá-los, seria Portugal a ter os preços absolutos mais altos e deixaria de os produzir, passando a importá-los, devido ao facto de que os seus produtores nacionais teriam sido batidos na concorrência pelos produtores ingleses. E com esta resposta o estudante da Universidade Nova, silencioso teria ficado à espera de me ver pelo estudante bem mais à sua esquerda atacada. E este não se faria esperar: isto só prova que a lógica de mercado capitalista é uma espécie de montanha a parir um rato, diria este. Não, seria aqui a minha resposta, o problema não pode ser posto assim, o nosso mercado aqui em análise é, por definição, uma representação, definida a partir de um conjunto de hipóteses, e se de absurdo queremos falar, é então das hipóteses que estão a servir de suporte a essa representação, acrescente-se. A grande diferença entre a posição aqui defendida e a dos professores que ensinam na Universidade do seu colega, a Universidade Nova, é que para nós as hipóteses têm de ser deduzidas ou construídas a partir do real, devem estar em conformidade com este, a partir do qual se analisam as relações entre as variáveis escolhidas num modelo, contrariamente ao ensino dominante do equilíbrio geral em que exclusivamente se utiliza o método hipotético-dedutivo e em que se adopta como critério de verdade a coerência lógica entre as hipóteses e entre estas e as conclusões. Como expressão mais pura do modelo neoliberal e dos comportamentos que este traduz, aqui me lembro de um colega meu que em tempos me escreveu, face aos textos por mim editados e em particular um texto de François Morin sobre a crise, sobre os CDS: “a minha mensagem resulta de uma apreciação diferente da sua sobre a realidade. Política e económica. Não se trata de uma discussão académica: apenas não aprecio o debate politizado de certas questões sem uma factual documentação estatística, não a conformidade com a realidade. Talvez seja puritanismo, mas aprecio o debate académico mais estilizado, sem julgamentos de valor e intenções políticas. Será irreal? Poderá ser. Mas na sociedade livre em que ambos queremos viver, peço-lhe que respeite esta minha posição”. Tudo bem claro, o direito à irrealidade, pretendido pelo meu colega e por mim reconhecido e milimetricamente respeitado, mesmo que essa irrealidade possam ser os milhões de desempregados estatisticamente por justificar, porque os modelos neoliberais, os tais factos bem estilizados, aqui não chegam e como se houvesse construções teóricas despidas de juízos de valor, despidas de uma visão, de uma concepção do mundo. Hegel contra Marx, Hegel a afirmar que quando a teoria não está de acordo com a realidade, tanto pior para a realidade, Marx a dizer que Hegel punha ao mundo a andar de cabeça para baixo. E nada pior do que estar passivamente a ver a Europa como espaço civilizacional claramente a ser destruída, como outrora Roma, como outrora Paris, e estarmos silenciados à espera de um modelo estilizado capaz de interpretar esta sanha destruidora que está a varrer toda a Europa.
[1] Marx, Fondements de la critique de l’économie politique, Tomo I e II. Editions Anthropos, Paris, 1968.
[2] Este modelo é ultra-simplificado. Podíamos ter dois países e n produtos e, neste caso, com a mesma manipulação da taxa de câmbio poderia haver trocas entre os países e com excedente para um deles. O raciocínio, a conclusão é a mesma, evitamos assim estar a sobrecarregar o texto.
