UM CAFÉ NA INTERNET – TARECO (2). Por Fernando Correia da Silva

 

 

 

 

2. ALFABETIZAÇÃO 

 

 

 

             Não consigo ser um bom professor de fonética, o meu jeito de falar ora aos repelões, ora arrastado, à moda de Alfama, atrapalha tudo, o Tareco já não sabe de que terra é. Eu a rir com os desatinos do zingarelho falante, mas a Dolores a meter travão às quatro rodas:

 

            – Isto assim não pode ser! Vou convidar o Prof. Pena Cunha para nos dar uma ajuda.


            Convida e aí vem o linguista, também gramático afamado. E o dinheiro dos japoneses a correr, sempre a correr…

 

         O Pena Cunha fica dias e dias a conversar com a Dolores e o Samurai. Ele a badalar, o Samurai a dedilhar o teclado e a Dolores a traçar símbolos cabalísticos. Depois resolvem chamar-me. Querem que o Tareco tenha minha voz. Eu vou. Desconfiado, mas vou. Outra vez frente ao gravador eu leio as cábulas:

 

            Á como em gato, como em pá

            Â como em cama, cana, fazer

            É como em pé, como em ferro

            E como em sede, corre, regar

            Ó como em cola, como em pó

            Ô como em força, morro

            I como em vir, como em bico

            I como em pai, feito

            U como em bambu, como em azul, como em sul

            U como em correr, como em morar

            U como em pau, como em água

            B como em branco, como em ambos

 

e por ai fora até

 

            Z como em azar, como em casa.

 

           Depois a Dolores convida um outro gajo barbudo e gorducho. Tanto, que os seus alunos até o chamam de Barriga de Bicho. É o Dr. Luís Lebre, está sempre a aparecer na televisão, e o seu apelido anuncia a agilidade que não tem e nunca teve, ao que suspeito.

 

          Encosto o ouvido à porta do barracão e apanho as filigranas do Dr. Sabão:fonema, sintagma, código, mensagem, signo, símbolo, rema, glossemática, referente, ícone, índice, semiofania, entropia, metalinguística.

 

            A Dolores acaba por lhe dar uma corrida em pelo, a miúda tem alergia ao verbo que puxa ao complexo. Do que ela precisa é de ideias e palavras que de imediato possam agir ou interferir sobre coisas concretas.

 

            – Sua ignorante! (diz, como despedida, o Barriga de Bicho, enquanto empina a pança).

 

         Ainda estive para lhe acertar umas lambadas mas deixo passar em branca núvem, para não turvar os ambientes.

 

          Está a ser muito difícil a alfabetização do Tareco. O Pena Cunha é que tem uma paciência de Job e eu com ele. Sob a sua orientação, fico quatro meses a ler verbetes para o Tareco. E um dia a Dolores diz-me: 

               

        – Pai, o Tareco já tem a tua voz. Já a vou enquadrando na estrutura da nossa língua. Já leu todo o Cândido deFigueiredo, o Moraes e outros calhamaços mas ainda não consegue relacionar o nome com o nomeado. Conhecimentos tem ele, e muitos. Mas a falar é como se fosse um garoto de 3 para 4 anos. Chegou a tua vez, Pai. Faz de conta que ele é teu neto. Fala com ele, tem paciência. O Tareco precisa ouvir a tua voz, para corrigir a dele, que também é a tua. Faço-me entender? Tem calma que ele aprende depressa. Está programado para aprender depressa.

 

           Eu em brasas para ver no que ia dar a geringonça. De mansinho, aí vem o Tareco.

 

           – Bom dia, Vô.

           – Vai mas é chamar avô ao camandro!

           – Camandro não consta na minha memória. Eu pedo explicação.

           – Eu pedo, sua besta? Eu peço, eu peço… Não podes falarmelhor?

           – Eu podo.

         – Podas o quê? A rama dos teus cornos? Eu posso, eu sei, sua lata ferrugenta. Nãofazes melhor do que isso?

           – Eu tomo atenção, eu fazerei melhor.

           – Valha-nos a Senhora da Agrela, não há santa como ela.

           – Agrela não consta na memória. Peço explicação.

           – Pedes explicação? Mas que tom imperativo… Não sabes pedir por favor?

           – Por favor, eu peço explicação.

           – Bravo, Tareco. Não é fazerei, é farei.

          – Entrada satisfatória. Estou a recapitular os verbos irregulares. Não é fazerei, é farei.

           – Isso mesmo. E como é que de repente soubeste o que era certo?

           – Eu sube porque registo tudo.

        – Mas que grande calisto, é só bacoradas. Raios de te partam, não é sube é soube. Sabes que mais, Tareco? Vai dar uma curva!

 

         Pôs-se em movimento. Percorreu um alongado ziguezague pelo quintal eoutra vez se colocou à minha frente.

 

           – Eu já dei.

           – O quê?

           – Uma curva. Vossa Excelência gostou?

 

          Falar, o emplastro até já fala, parece um papagaio. E pensar? Será que alguma vez ele vai dar uma para a caixa?

 

 

 

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