LIÇÕES DE ETNO PSICOLOGIA DA INFÂNCIA – 14 – por Raúl Iturra

(Continuação)

 

Na sua obra, Miller analisa o saber dos mais novos em diferentes idades, como tinham feito Freud, Klein, Bion, entre outros e vamos ver mais à frente. No seu livro de 1977[5], a autora – polaca de nascimento, refugiada na Suíça, terapeuta da Infância e Pedopsicóloga estuda a infelicidade da vida infantil dos pais de crianças que ela analisa mais tarde. Estuda especialmente o caso das mães a sofrerem todo o tipo de violência doméstica, como a vida a três do pai – a mãe da criança, a sua amiga por turnos e os comentários que deve ouvir por parte da mulher que se sente abandonado e mora, no entanto, na denominada casa familiar. O começo do texto é dramático na nossa cultura: a mãe e o pai não estão ajudar a “talhar” o lugar social na cultura do mais novo, até o título do primeiro Capítulo define uma relação invertida: é o filho bem dotado que deve ouvir a mãe nos seus prantos, angústias e depressões.

 

Ora, esses três sentimentos, como Klein diz no seu texto Inveja e Gratidão[6], fazem parte da defesa dos pequenos perante esse falar descontrolado de um adulto cuja epistemologia não entende, ou não são mutuamente entendidas. O título de Miller é El drama del niño dotado y como nos hicimos terapeutas, para estudar em 50 páginas a vida de uma infância reprimida que a criança deve fazer falando de tudo, excepto da verdade e viver de ilusões do que não existe e não é: esse lar calmo, sereno, estudado, sabido, fiel. É o que, ao longo do texto, denomina ilusões de infância, a danificar a vida adulta. Como aconteceu com esses pais, rebentos de pais desleais, dotados com a capacidade de ouvir, para passar a ser o próximo mais novo a ouvir. Determinados pela história dos pais com os seus avós, a infância foge da realidade e esconde a falta de amor na solidão e no abandono infantil, na leitura, no encerramento nos seus aposentos, que passam a ser dele, com a grande proibição de aí entrar todo e qualquer maior que traga as suas tristezas ante uma mente capaz de entender o mundo, excluindo a sua família. Sentimentos materializados em actividades que fazem dele uma criança dotada. “La represión del sufrimiento infantil no solo determina la vida del individuo, sino también los tabúes de la sociedad[7].

 

A solidão e o abandono infantil são motivos de profundo transtorno das pessoas dotadas: nascem da ausência do prazer e do carinho na infância. Alice Miller apenas estudara vida de Sakespeare, Joan Crawford, Charles Chaplin, Mozart, Beethoven e Einstein, para sabermos a base da sua genialidade. Ou Sartre, Bouvoir, Bourdieu, Godelier…a falta de infâncias douradas….

 

Típico do caso de Maurice Godelier. A segunda parte do título desta sua primeira grande obra define a ilusão do amor e a ilusão de ser pai…

 

Mas, e a criança, como Freud, Klein, Dolto, analisam? Não há razão da parte delas para essa infelicidade? Para a infelicidade que não conhecemos, que não sabemos por falta de observação e de aprendizagem especializada? Mas, que elas no seu agir, palavras e comportamentos individuais e em grupo, nos ensinam quase sem palavras? Porque não há apenas o silêncio do saber proscrito e a infelicidade adulta do pequeno dotado. Há também uma realidade que nasce da própria realidade, enquanto a criança, cuja idade muda e situação social é “retalhada”, o ter uma percepção do real, que Wilfred Bion denominaria entender que há um infinito ao qual pertencemos, como seres finitos que somos e que essa finitude deve entender a relação para não entrar na omnipotência que define parte psicótica do nosso ser[8].

 

Essa criança passa por diferentes estádios enquanto repara que a base da sua vida – a alimentação –, vem de um corpo estranho[9]. Estas idades podem-se apreciar na seguinte tábua:

 

cours de psychologie

Grossesse

Naissance

Petite enfance

Latence

Adolescence

Age adulte

Couple

Travail

Vieillesse

Agonie

 

 

 

Hoje em dia sabemos que a relação adulto/criança começa bem antes do nascimento da mesma, como tinha já indicado na loção anterior ao comentar textos de Eduardo Sá. O facto de recentemente se ter descoberto do papel que joga o líquido amniótico entre o corpo da mãe e o mundo exterior – um ouvido que amplifica o que acontece fora do ventre materno, faz com que os sons passem a ser naturais, costumeiros, ou desagradáveis e pouco simpáticos. Ou se ouve Mozart e se fica habituado à melodia calmante, ou podem ouvir-se debates e mas palavras. Relações simpáticas ou antipáticas, estudadas pelos nossos analistas e a sua influência no futuro adulto. Não esqueço o bebé que chorava ao ser amamentado: faltava-lhe a viola com Granados a ser tocado, enquanto a mãe brincava com a viola no colo[10].

 

A análise da função do líquido amniótico, é já antiga, faz mais de 50 anos que médicos, pediatras e terapeutas, procuram uma relação com a capacidade de autonomia da criança ou com a capacidade de comandar os outros, que vários autores analisam, a ditadura da Infância. Anos de estudo e o saber vai-se acumulando, até chegarmos hoje em dia à procura da genética do genoma humano. “O córtex é soberano e, ao mesmo tempo, deixa-se suplantar docilmente pelo reptiliano. O carácter não se sente ameaçado e por isso cede, derrete-se docemente, permitindo que o cerne fique exposto, pulsante, vibrante. “É a necessidade “libertar-se” da actividade mental, com o intuito de reencontrar a unidade psicossomática”, como diz Winnicott”[11].

 

 

(Continua)


[5] Miller, Alice, 1979: Das Drama dês begabten Kinder und die Suche nach dem wahren Selbst. Versão Castelhana: 1985 e 1998: El drama del niño dotado y la búsqueda del verdadero yo, Tusquets, Barcelons. Há versão inglesa, Virago, Londres, 1988. Website http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Alice+Miller+El+drama+del+ni%C3%B1o+dotado&btnG=Pesquisar&meta=

[6] Klein, Melanie, 1957, Envy and gratitude, Tavistock, Londres. Versão Lusa Imago, 1991: Inveja e Gratidão, Rio de Janeiro. Texto escrito em inglês no exílio britânico da autora. Página Web:

http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Melanie+Klein+Envy+and+Gratitude&btnG=Pesquisar&meta=

[7] Miller, 1977, páginas 18 a 19, que acrescente que “las vivencias traumáticas de toda infancia permanecen en la oscuridad. Ocultas en esas tinieblas permanecen asimismo las claves para la comprensión de toda la vida ulterior”

[8] Bion, Winifred, 1967: Learning from experience, Tavistock, Londres. Reeditado Karnac, Londres,1984 a 2004. Website para debate, mais informação e síntese de obras:

http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Winifred+Bion+Learning+from+Experience&btnG=Pesquisar&meta=lr%3Dlang_pt

[9] Klein, obra citada e, especialemnete 1932: Die psychanalyse des Kindes, Vienna, Internationaler Psychoanalysticher Verlag. Versão inglesa, 1932, Hoggart Press. A obra que uso é La psychanalyse des enfants, PUF, Paris, 1959.

[10] O recém-nascido precisa de um ambiente tranquilo. Ele acaba de passar por uma situação stressante – o nascimento – e ainda não assimilou muito bem que já não está no interior do útero materno. Nesse momento, o pequenino necessita de todo o aconchego do mundo.
Ele ouve muito bem A audição é um dos sentidos mais desenvolvidos durante a vida intra-uterina. Estudos demonstram que um feto no quinto mês já responde a várias modalidades de sons e alguns pesquisadores acreditam que a gestante que pratica música durante a gravidez predispõe o filho para uma sensibilidade natural ao ritmo. É só observar: o recém-nado está atento e responde aos ruídos do ambiente. Quando escuta um barulho mais forte respira em ritmo mais acelerado, ou então sinaliza com o Reflexo de Moro, esticando e encolhendo os braços e as pernas. E tem a sua preferência.
A intensidade e os tipos de ruídos que não atrapalham dependem, em parte, dos sons que o bebé se habituou a ouvir antes de nascer e também do seu temperamento. Contudo, os pais devem observar o comportamento do filho: se a criança se mostra sensível a algum tipo de som, é melhor evitá-lo, pelo menos, por enquanto. Retirado da Revista Pais e Filhos (Bloch Editores)
Setembro de 1996 Website http://www.infonet.com.br/meubebe/obebe01.htm Para informação mais detalhada:

http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=l%C3%ADquido+amni%C3%B3tico+sons+beb%C3%A9&btnG=Pesquisar&meta=

[11] Análise feita por Maria de Melo Azevedo no seu texto Terapia de uma condição Intra-uterina. Invoca os estudos do pediatria psicanalista Donald Woods Winnicott, que já nos seus textos de 1969, especialmente De la pédiatrie à la psychanalyse, Petite Bibliotheque Payot nº 253 e L’enfant et le monde extérieurr, mesma editora, nº 205, importava-se, como Melanie Klein, da liberdade da criança desde o seu começo, ou, por outras palavras, desde que parecia ser possível a autonomia da infância, facto pouco conhecido ainda nos nossos dias. A autora do artigo, até invoca a música de Mozart para o seu exemplo da liberdade da criança ou da capacidade de liberdade. Website para debate:

http://ceor.fastlane.com.br/art_nascer_de_novo.htm . Ou ceor.fastlane.com.br/art_nascer_de_novo.htm. Para a Revista Pai e Filhos ou Viver Psicologia on line: ver Website http://www.google.com/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Revista+Pais+e+Filhos&btnG=Pesquisar&lr= ou: www.revistaviverpsicologia.com.br/ site2/detalhe.php?edicao2=124&pag_id=254 –

Para Winnicott: http://www.google.com/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Donald+Woods+Winnicott&btnG=Pesquisar&lr= ou http://www.doctissimo.fr/html/psychologie/ grands_auteurs/ps_1330_donald_winnicott.htm –

 

 

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