Tudo leva a pensar que a política económica do governo actual não se manterá até Maio: esta será arrastada pelo rápido agravamento da crise económica.
Eis-nos pois no centro do ciclone e numa conjunção de duas crises:
-uma crise estrutural de desemprego, devido, desde há anos, ao encerramentos de fábricas e de deslocalizações saídas da invasão de produtos asiáticos nos nossos mercados, crise não tratada pelo G-20.
Neste contexto, o discurso “produzir francês” ou “comprar francês” não é mais do que puro encantamento.
-uma crise conjuntural da dívida soberana que poderia ter sido resolvida no início do alerta grega, o que não foi e que, portanto, se transformou numa segunda crise estrutural, financeira. Esta propagou-se para a economia real pela redução do apoio orçamental, pelo aumento das taxas de juro, pelo credito crunch (“redução drástica do crédito”) sobre as pequenas e médias empresas.
A nível mundial, acabamos de entrar no círculo vicioso fatal: as exportações chinesas estão a cair, embora eles continuem a aumentar a sua quota de mercado, porque este mercado global diminuiu: perdemos nossos empregos e os chineses perdem os seus clientes. Estamos na situação perfeita de “perdedor-perdedor”.
A França, encontra-se assim, neste final do ano, numa espiral muito perigosa: enquanto o desemprego aumentou, enfraqueceu o poder de compra, o consumo e o crescimento tendo como pano de fundo o défice externo agravado, o crescimento zero ou mesmo negativo que daí resulta aumenta o défice do orçamento ao mesmo tempo em que nós iremos pedir emprestado a taxas mais elevadas mostrando que, de facto, perdemos a nossa classificação AAA.
A economia francesa não sobreviverá a este círculo vicioso sem reformas drásticas no primeiro trimestre de 2012. “Não há nenhum terceiro plano de rigor”, disse o governo? É claro. Redução e maquilhagem não podem continuar a ser as tetas da França. É necessário, como hoje se diz, “mudar de software”.
François Fillon tem eminentes qualidades pessoais, mas não tem a menor margem de manobra política, a quatro meses das eleições presidenciais, para fazer face aos problemas reais: as despesas do Estado, as 35 horas, o imposto sobre a riqueza e todos os nichos de impostos, a partilha de despesas de saúde entre as famílias e o Estado, o controle de despesas das comunidades territoriais, o IVA, a redução do nosso défice externo, para citar apenas as áreas onde dezenas de milhares de milhões de euros estão em jogo.
Ele também não tem a autonomia do Presidente da República, que não se soube rodear, como Barack Obama, de um Conselho de conselheiros económicos (Agência de consultores económicos) em vez dos inspectores das finanças tendo como único horizonte um AAA que nem sequer souberam defender.
Daí uma G20 falhada (quem pode citar uma só decisão que seja?), e não apenas por causa do referendo de Georges Papandreou que semeou a bagunça. Nestas condições, não serve de nada “jogar a contra- relógio”, pensando que tudo isto se irá bem realizar até Maio. Não, isto não poderá ser, é necessário agir ou reagir, antes.
Então eu penso que o Presidente será bem inspirado – ou mesmo forçado – a uma mudança de governo no início do ano e, enquanto ele irá centrar na sua campanha presidencial, a deixar um novo primeiro-ministro “fazer a limpeza e colocar em ordem” a economia francesa. Isto implica que deve ser alguém de grande competência económica e de credibilidade internacional reconhecida e alguém que não tenha que se preocupar com datas e cadernos eleitorais e seja capaz de pôr ordem na desordem que está o país.
Esta foi a escolha feita na Itália e na Grécia, não, como já foi dito, sob a pressão dos mercados, mas sim sob a pressão dos parceiros da União Europeia e dos países da zona do euro. Nós não pode imaginar a Chanceler Angela Merkel, a aceitar que a França não mantenha os seus compromissos em reduzir o défice orçamental de 2011 ou do primeiro semestre de 2012.
Naturalmente, é muito frustrante constatar a necessidade de recorrer a “técnicos”, e que a democracia é incapaz de segregar e de apoiar os dirigentes políticos que têm a coragem de tomar decisões impopulares, mas necessárias. Se a direita e a esquerda tivessem adormecido menos os nossos concidadãos com os seus discursos calmantes, não estaríamos agora nesta situação a descobrir que a necessidade faz a lei.
Este retrato de dirigente corajoso, competente e independente, era o de Raymond Barre, mas este já cá não está.
Isso pode ser o retrato actual de personalidades que, em França ou em funções internacionais, demonstraram a sua capacidade de decisão: Michel Camdessus, Jean-Claude Trichet, Pascal Lamy, Claude Bébéar, entre outros, têm esse perfil. Colocar um deles à barra, não é uma imagem de navegador, é uma referência de estilo à “Barre”.
Lionel Stoléru
Economista, antigo secretário de Estado.

