DEBATE – QUE RUMO PARA A DEMOCRACIA EM PORTUGAL? – Vasco Lourenço

 

Vasco Lourenço

 

 

 

 

 

 

O coronel Vasco Correia Lourenço nasceu em Lousa ( Castelo Branco ) em 19 de Junho de 1942. Ingressou na Academia Militar em 1960. Pertenceu à Arma de Infantaria e exerceu a especialidade de criptólogo. Combateu na Guerra Colonial, tendo comandado uma companhia de caçadores na Guiné de 1969 a 1971.Com o posto de capitão, foi membro fundador do Movimento dos Capitães, coordenou a organização da sua primeira reunião em 9 de Setembro de 1973 e viria a ser o único a pertencer as todas as estruturas de cúpula desse Movimento e também do Movimento das Forças Armadas ( MFA ), de 1973 a 1982 (Comissões coordenadoras, Conselho de Estado, Conselho dos 20, Conselho da Revolução ).

 

Em 25 de Abril de 1974 pertencia à Direcção do Movimento, juntamente com Vitor Alves e Otelo Saraiva de Carvalho, que o substituiu como responsável operacional, quando foi preso e transferido compulsivamente para Ponta Delgada, em 9 de Março desse ano, onde estava na madrugada libertadora , a dirigir as acções do MFA nos Açores. Graduado em brigadeiro e em general, foi comandante da Região Militar de Lisboa e Governador Militar de Lisboa, entre Novembro de 1975 e Abril de 1978. A seu pedido, passou à Reserva no posto de tenente coronel, a 20 de Abril de 1988, sendo posteriormente promovido a coronel, ao abrigo da lei que reconstituiu as carreiras aos militares prejudicados pela sua intervenção no processo do 25 de Abril.

 

É o sócio nº 1 da Associação 25 de Abril, sendo presidente da sua Direcção desde a fundação até aos dias de hoje. É co-autor dos livros “No regresso vinham todos”, “MFA – Rosto do Povo”, “Do Interior da Revolução”. Foi condecorado com as grã-cruzes da Ordem da Liberdade e da Ordem do Infante D. Henrique.

 

Desde 1998, é maçon do Grande Oriente Lusitano.

 

 

Eis o seu depoimento:

 

Que rumo para a democracia em Portugal?

 

Começo por uma declaração de interesses: considero-me democrata, sou avesso às ditaduras, considero a democracia o menos mau dos regimes conhecidos, mas se o que estamos a viver em Portugal é democracia, eu não quero esta democracia. Porque isto não é democracia! Por isso, estou disponível para ajudar a encontrar outra democracia.

 

Quando em 1974/76, e depois em 1976/82 os militares de Abril se bateram pelo aprofundamento da democracia, defendemos a conjugação da democracia representativa com a democracia participativa. Já então, era nossa opinião que a democracia não se pode resumir à escolha, por mais livre que pareça ser, dos representantes do povo para os órgãos do poder. Não chega, afirmávamos então.

 

Não chega, reafirmo hoje, certo de que a participação dos cidadãos se deve fazer a todo o tempo, em cada instante, e não apenas de x em x anos. Em minha opinião, para além do aperfeiçoamento das decisões e da execução da mesma, atingir-se-ia assim uma maior participação de todos, sem exclusão das minorias, sem o poder absoluto das maiorias. E, como cereja em cima do bolo, poder-se-ia manter um controlo apertado e permanente sobre os escolhidos, resultante da prática da democracia participativa.

 

Conseguir-se-ia, assim, acabar com a enorme separação, a enorme distância a que os eleitos se colocam dos eleitores.

 

E poderia, em cada instante, responsabilizar-se os eleitos, pelas promessas feitas que estiveram na base da sua escolha, não permitindo, como se passa hoje em Portugal, que continuassem a governar, perdida que fosse a legitimidade para o fazer.

 

É que, aqui mais que em qualquer situação, a legalidade não chega! É necessário, acima de tudo, ter legitimidade! A autoridade moral não pode continuar a ser um bem escasso…

 

 

Para que tudo isto seja possível, temos de intensificar a nossa participação cívica, não esperando que os outros nos tirem as castanhas do lume. Temos de aprender, todos, com as lições de 74/76, participando nas organizações de base.

 

Sem pretender invadir o espaço da democracia representativa, mas não permitindo também que essas organizações de base sejam usurpadas pelas organizações políticas que só justificam a sua existência no campo da democracia representativa.

 

Todos têm o seu espaço, devem conjugar esforços, seja nas decisões, seja na execução das mesmas, não podem tentar sobrepor-se uns aos outros.

 

A democracia também significa justiça e equidade. Assim como também significa, talvez acima de todos os outros valores, ainda que seja difícil hierarquizar importâncias, liberdade.

 

Por isso, para que a democracia seja plena, temos de conseguir uma enorme transformação do estado a que a justiça chegouem Portugal. E acabar com a corrupção.

 

Só assim, com liberdade plena, com justiça a sério e sem corrupção, conseguiremos alcançar os frutos próprios de uma verdadeira democracia, com igualdade de oportunidades, sem a exploração infame que o capital exerce sobre o trabalho. Isto é, uma democracia política, mas também económica, cultural e social.

 

Como sonhámos em 1974, quando arrancámos para o 25 de Abril.

 

Isso depende, acima de tudo, de todos nós, portuguesas e portugueses!

 

Lisboa, 17 de Janeiro de 2012

 

Vasco Lourenço

 

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