Eva Cruz A faca
(Arranjo de Adão Cruz)
A noite estava fria. A faina dos dias anteriores dava uma certa tranquilidade e certeza de que a ceia e a festa iam correr bem.
Cá fora brilhavam as luzinhas intermitentes do presépio feito de musgo das pedras do rego. Bonecos de todos os tempos tomavam os seus lugares habituais nos altos e baixos ao longo dos caminhos feitos de areia. Todos os anos se acrescenta uma ou outra novidade. Este ano, quatro anjos brancos se associaram à família e ao rebanho, cada um com o seu instrumento. As luzinhas com música tocavam por eles.
Na cozinha, descascava-se as batatas e escolhia-se as pencas. A mesa estava posta a rigor, uma para os adultos e outra para as crianças. A lareira, bem recheada de lenha, alimentava o calor e a beleza verde e vermelha de toda a sala. Ao lado, todas as delícias de Natal cobriam a mesa, desde as compradas às feitas em casa, com um viço especial para as rabanadas de vinho tinto ou de leite, para os bilharacos de abóbora menina a imitar os da avó, a aletria, tapioca e mexidos, únicos para o paladar da saudade.
Que fiz eu à faca? Não sei onde se meteu o raio da faca. Se acabei de a usar, onde se meteu ela?
Provavelmente meteste-a no lixo. Foi de certeza junto com as cascas.
Eu não saí daqui, como pode ser?
E os dois discutiam o paradeiro da faca e ambos a procuravam na banca, no balcão, sobre a mesa, no fogão, até se espreitou para dentro das panelas.
Eu não estou tola, acabei de a usar.
Provavelmente está na gaveta.
E as gavetas foram despejadas, e peça por peça foi vista por quatro olhos.
Estás confusa, de certeza. Não seria uma dessas facas?
Não, tenho a certeza, eu não estou tola.
Se calhar, estás mesmo, dizia ele a rir-se, mas também intrigado, tentando procurar tudo o que fosse sítio com os olhos e com as mãos.
Vê lá no lixo.
Com uma lanterna e uma colher foi o lixo vasculhado e nada de faca.
Realmente é estranho. E ele também concordava. É mistério, ironizava ele, mas irritado com a evidência.
No espírito dela, associava-se o barulho estranho que naquela tarde, sem mais nem menos, se ouviu, na saleta onde a avó, anos a fio contemplava através da janela o dia desde o nascer ao pôr-do-sol. E às três pessoas que ouviram o barulho, pareceu que vinha do sofá onde ela, placidamente, se sentava, com os seus olhos cor da flor do linho e o cabelo com réstias de sol. Todas entenderam que foi uma tábua a ranger, a madeira a dar de si. Nem uma ponta de medo se notou no rosto de nenhuma. Só quem não conhece o amor, podia ter reacção diferente.
Saíram os dois para o pátio.
A noite estava linda, com as estrelas a brilhar no céu húmido de alguma doce neblina e lá em cima a lua era igual à de uma infância tão longínqua como ela.
De certeza que na mente de ambos, adornada de saudade, por ali andavam, como estrelas em firmamento de Inverno, todos os que foram também Natal naquela casa.
E a faca foi esquecida por momentos.
O lixo foi despejado sobre um plástico no pátio, convencendo-se ambos que ela ia aparecer ali, e pronto. Mas nada.
Completamente derrotados, não conseguiam entender como desapareceu a faca.
Na cabeça dele não se sabe o que se passava, mas o silêncio e o semblante enigmático mostravam um certo desconforto na dúvida.
Pela cabeça dela, passou um filme a preto e branco feito de teias entrelaçadas de fantasias, de recordações, de sensações, onde o mistério era esbatido ou anulado mas onde a faca era uma realidade e tinha desaparecido. Só a incomodava a falta de domínio do pensamento. E constantemente à memória lhe vinham reminiscências de infância . Alguém te quer falar e não pode. E na mente a ideia das energias dos que partem e que ela gostaria, de uma forma simples, que não se perdessem.
Por momentos, aceitou o pensamento de que teria feito confusão. Só podia ser. Mas logo de seguida lhe veio a certeza de que não estava confundida.
Disfarçando a máxima naturalidade, ambos desistiram de procurar a faca.
Olá , boa noite , titi.
A Marta , acabada de chegar, abria a porta da cozinha sorridente.
Que frio está lá fora. Aqui dentro está uma maravilha.
E o seu sorriso iluminou a cozinha.
Olha Tatinha , tenta encontrar por aí uma puta de uma faca que desapareceu e estou eu o teu pai há que séculos à sua procura, completamente intrigados com o seu desaparecimento.
Deixa lá a faca. Acabou-se. Disse ele, aparentando descontracção. Foi o diabo.
Diabo, não, porque aqui só há anjos.
A Marta chegou à banca, pegou no escorredor da louça que já tinha sido visto e revisto por ambos e levantou a faca que estava entalada de lado entre a base e o bordo.
Dá cá um beijinho. Felizmente não estou tola ainda.
No fim da ceia, a propósito da faca, ambas tivemos uma conversa muito interessante sobre a matéria, a energia, a origem do Universo, a partícula de Deus, a ciência, a morte, que é afinal o que mais nos incomoda.


