Desindustrialização, Globalização, 3ª Série 5ª Parte- B. As Deslocalizações e os dogmas económicos destroem o dólar – II. Por Paul Craig Roberts

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

(Conclusão)

 

 

Há coisas importantes que devem ser creditadas ao livre-mercado e à livre-troca. No entanto, para muitos economistas, o livre-comércio tornou-se uma ideologia, sobre o que deixaram de ter qualquer espírito crítico.


Estes economistas tornaram-se indiferentes ao facto de que os lóbis favoráveis às deslocalizações que subsidiam as suas investigações e os seus institutos, defendem os interesses que estão intimamente relacionados com as empresas que operam no domínio das deslocalizações.


Os economistas da livre-troca cometeram três erros graves:

 (1) eles confundem a arbitragem dos custos do trabalho através das fronteiras com o livre-comércio, quando na verdade, não há nenhuma troca.

 (2) eles esquecem-se de que para que a teoria clássica da livre-troca permaneça válida, que se baseia no princípio das vantagens comparativas, então esta deve-se apoiar em duas condições necessárias.

(3) eles ignoram os últimos trabalhos teóricos em que se mostra que a teoria do livre‑ comércio nunca foi correcta mesmo quando se verificam as condições que ela pressupõe.


Quando uma empresa americana deslocaliza a produção para o exterior, ela procede a arbitragens entre os custos do trabalho (e impostos, regulamentos, etc.) através das fronteiras, procurando uma vantagem absoluta e não a procura de uma vantagem comparativa no país. Quando uma empresa americana coloca no mercado americano produtos e serviços das actividades deslocalizadas, esses produtos e serviços devem ser considerados como importações.


David Ricardo considerava que as vantagens comparativas se devem basear em duas condições: a primeira é que se deve procurar as vantagens comparativas no interior do país e não uma vantagem absoluta no exterior. A outra é que os países têm estruturas de custo diferentes para produzir um mesmo bem. As deslocalizações não respondem, portanto, às condições de Ricardo.


Hoje, o capital é tão móvel no espaço nacional como  no espaço internacional e tão móvel como as próprias mercadorias e as funções de produção baseadas no conhecimento têm estruturas de custos semelhantes país a país. As célebres condições de Ricardo para a livre-troca não são verificadas no mundo de hoje.


Para o avanço mais importante sobre a teoria do comércio desde há 200 anos, o grande matemático Ralph Gomory e o grande economista e antigo Presidente American Economics Association, William Baumol, mostraram que a argumentação para a livre‑troca no mundo não era válida mesmo quando estavam reunidas as condições de Ricardo. O seu livro, Global Trade and Conflicting National Interests, apresentado pela primeira vez numa conferência na London School of Economics, foi publicado em 2000 pela MIT Press.


Mas os economistas defensores da livre-troca fecham os olhos movidos por uma doutrina que se tornou uma ideologia e o dólar deixa-se assim morrer da mesma forma que a economia americana.


Uma das grandes mentiras do lobby pro-deslocalizações é que as fraquezas da indústria dos Estados Unidos se devem a  um défice na educação e devem-se também à  falta de cientistas e engenheiros. Especialistas como Thomas Friedman ajudaram a espalhar este erro até ao ponto em que este se tornou um dogma. Recentemente, Jeffrey Immelt, PDG da General Electric, também  ele, concordou em caucionar esta mentira. (Ver ” The US No Longer Drives Global Economic Growth,” Manufacturing & Technology News, Nov. 30, 2007.)


Na verdade, as deslocalizações ao nível da engenharia e de  I&D dos Estados Unidos assim como a imigração de engenheiros e cientistas estrangeiros combinaram-se  ou juntaram-se  aos subsídios para a educação para produzir um excedente de cientistas e engenheiros americanos, muitos dos quais não poderão encontrar emprego ao sair da sua Universidade e, assim, tornam-se eles próprios vítimas destas deslocalizações e dessa imigração.


Os lóbis continuam a exercer pressão sobre o Congresso para mais trabalhadores imigrantes, argumentando com a falta imaginária de americanos qualificados, enquanto a Comissão profissionais de ciência e tecnologia indica que o aumento real dos salários dos cientistas e engenheiros americanos era zero ou negativos nos últimos 10 anos. A previsão de uma “tendência a longo prazo de uma procura de especialistas científicos e técnicos nos Estados Unidos” terminou sem que nada se tenha verdadeiramente concretizado. (Consulte-se  ” Job and Income Growth for Scientists and Engineers Comes to an End,” Manufacturing & Technology News, November 30, 2007).


Que economista é que alguma vez pode ter ouvido falar de falta de trabalhadores devido ao facto de os salários estarem constantes ou a descer?


Já não há nenhuma falta de cientistas e engenheiros nos Estados Unidos como também não há armas de destruição maciça no Iraque. A imprensa americana., que não dispõe de capacidade de investigação retomou tais quais as mentiras que servem os interesses políticos a curto prazo de algumas empresas. Se não houvesse Internet para lhes fornecer o acesso a fontes de informação estrangeiras, os americanos iria viver num mundo de desinformação perfeito.


Os interesses específicos daqueles que fazem as deslocalizações e os dogmas económicos parecem estar combinados para criar uma imagem falsa da posição económica da América. Enquanto a mobilidade ascendente já foi desmantelada, continua a explicar-se aos americanos que esta nunca foi tão boa.


M. Paul Craig Roberts foi sub-Secretário de Estado americano do Tesouro, encarregado da  Politica económica sob a Administração Reagan. 

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