Confissão – António Sales

 

 

António Sales  Confissão

 

 

 

(Adão Cruz)

 

   Bem queria Ícaro libertar-se dos limites terrenos e voar ao encontro de outra dimensão. Não lho consentiu o sol, esse centurião do universo que defende dos estranhos as portas do paraíso.

 

Insatisfeito, procurou subir além da existência que é o labirinto das mil faces dos homens. Mas dela ninguém conhece o segredo da incestuosa relação entre o apelo da vida e a gestação da morte.

 

No simbolismo dos sonhos os alcatruzes das noras esmagam os artesãos de estrelas que são poetas renegados pela existência exacta.

 

Exausto dela, recolho-me à solidão da minha gruta onde construo a sela do corcel que cavalgarei numa noite de lua cheia.

 

Quero encontrar-me com as máscaras da minha alma, pois de mim sou e a mim pertenço, e sendo de mim rei e escravo me condeno em nome da existência exacta.

 

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