O espião – por Luís Carvalho

 

 

Quando li a Visão desta semana compreendi finalmente e com todo o rigor em que país estamos e que ajudámos a criar e que momentos vivemos. A minha infância foi passada no Barreiro, tive familiares presos, eu próprio, bem miúdo,  passei por Caxias, convivi desde bem cedo com as prisões, as perseguições, as humilhações a que sujeitavam aqueles que ousavam pensar diferente. Mas nesse tempo sabíamos quem eram os inimigos, a GNR, a PIDE, a Legião, os “bufos”, toda essa escumalha que apesar de tudo dava a cara e que montou uma encenação assente em pés de barro mas que durou quase cinquenta anos. Era o país mais triste, mais cinzento e atrasado do continente europeu. Era assim mas os campos estavam claramente definidos.

 

Hoje, comprando uma simples revista, vim a saber que um gordo seboso, com ar de artista de cinema saído de um filme indiano de terceira categoria,  com tiques de autoritário,  provavel sequela  de algum incidente  que  normalmente gente deste tipo tem na infância…, armado em espião de um pais falido, usando como segurança e defesa influências mafiosas e códigos próprios dos bufos do passado, tinha em seu poder informações respeitantes à vida de alguns milhares de pessoas, obtidas, segundo se diz na comunicação social, através dos serviços de segurança da república, presumo que das bananas. Sinceramente era preferível termos como inimigos os pides do passado do que gente deste calibre. O que mais me custa é ter contribuído, mesmo que modestamente, para ter criado estas figuras obsoletas e inimagináveis. Que vergonha!

 

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