(Continuação)
TENHO SEDE…
Sousa Mendes, diplomata português ora neste, ora naquele país.
Não consigo dormir, viro-me para a esquerda, viro-me para a direita, ora tenho frio, ora calor, ora me tapo, ora destapo. Vivo em Bordéus e de Lisboa acabo de receber más notícias, proibições. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.
Febre? Talvez acesso da malária que apanhámos em Zanzibar, tu, eu, os nossos filhos. Ou talvez as sezões que antes eu apanhara em Demerara, na Guiana Francesa. Estou em crer que o paludismo já mordeu a minha alma. Tenho pressa, tenho sede. Que horas são? Angelina dá-me água.
Estou sempre a zanzar de um lado para o outro, na cama e na vida. A diplomacia tem destas coisas, não dá tempo para um homem assentar e deitar raiz. Será por isso que eu torno sempre às mais profundas. Em 1908 tentaram cortá-las, no Terreiro do Paço mataram-me el-Rei D. Carlos, também o príncipe herdeiro. Lesa-majestade, lesa-vida… Dois anos depois o 5 de Outubro, bandeiras republicanas são içadas, já definha a História pátria. E agora, de Lisboa, acabo de receber más notícias, proibições. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.
Não gosto que me entalem o lençol no colchão, até parece que estou dentro de uma camisa de forças. De mãos dadas, livres corríamos… Em Cabanas de Viriato tenho um palácio mandado levantar pelos fidalgos meus ancestrais, é a Casa do Passal. Dela, de manhãzinha, de mãos dadas saíamos a correr, saltávamos de fraga em fraga. Tinhas 15 anos e eu 18. Lembras-te ó prima, ó namorada, ó prometida? Quanto mais prima, mais se lhe arrima, diz o povo e tem razão. A vila de Nelas fica ali além e o rio Dão corre lá mais em baixo. É só atravessá-lo para chegarmos a Viseu. No lado oposto, atrás de nós, a Serra da Estrela, a soberana, domina toda a paisagem. Inocência e liberdade, nós a correr, bem me lembro, quisera eu regressar aos tempos que já foram… Porém, de Lisboa, acabo de receber más notícias, proibições. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.
Insónia. Sinto o calor do teu corpo, vontade minha é outra vez fazer amor contigo. Porém temo engravidar-te, catorze vezes já pariste em sangue e sofrimento, expiação do pecado original, filha de Eva que tu és. E não devo refrear-me porque é pecado, devo ser tal como Deus me fez. Além do mais a nossa união foi consagrada pela Santa Madre Igreja, criai-vos e multiplicai-vos. Se, por causa de nossos pais Adão e Eva, fomos expulsos do Paraíso, cumpra-se então o destino que Deus nos traçou. Refrigério para o teu martírio será aleitares mais outra criança que virá para alegrar as nossas vidas. Contudo temo que toda esta inquietação esteja a perder sentido. Temo que já tenhas alcançado a menopausa embora, por vergonha, não o confesses. E se isso realmente aconteceu, o teu silêncio converte o nosso desejo em luxúria e pecadores nos tornamos, é a radical tentação da carne, penitência, penitência, mea culpa, tenho a casa cheia de imagens do Senhor e da Virgem que foi a sua Mãe. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.
Há por aqui um mosquito que não me deixa dormir. César é o meu irmão gémeo. Juntos, íamos tomar banho no rio Dão. Juntos, cursámos Direito na Universidade de Coimbra. O nosso pai é juiz. Mas César e eu optámos pela diplomacia, não pela magistratura ou advocacia. Até nas carreiras somos gémeos. Tomámos o caminho errado? Creio que sim, somos monárquicos e, com a implantação da República, passámos a ser descriminados. Fui Cônsul na Guiana Francesa, 1 ano; em Zanzibar, África britânica, 7 anos. Ali estou sempre doente, também a minha mulher e os meus filhos, paludismo. Peço para me transferirem. No Palácio das Necessidades de Lisboa, que é o Ministério dos Negócios Estrangeiros, finalmente atendem o meu pedido e mandam-me para o sul do Brasil, sou nomeado Cônsul em Curitiba. Estamos em 1919, tenho 34 anos. Só por causa das minhas convicções monárquicas o novo Governo de Sidónio Pais, sem mais nem menos, suspende-me de funções. Consequências: inactividade, redução brutal de vencimentos e família cada vez maior. É o limiar da miséria, é o desespero. Na Embaixada portuguesa no Rio de Janeiro, César é o Encarregado de Negócios, felizmente. Movimenta-se, consegue que 34 prestigiados cidadãos portugueses, residentes em Curitiba, subscrevam um “protesto contra uma campanha miserável movida contra o Cônsul português por criaturas sem vislumbre de senso moral”. A iniciativa de César dá resultado: no final do ano suspendem a suspensão. Mas continuo sob mira e alvo não quero ser. Tudo se agrava, de Lisboa acabo de receber más notícias, proibições. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.
Não quero travesseiro, já me basta a almofada. 4 anos mais novo do que eu, em Santa Comba Dão, no nosso distrito de Viseu, nasceu homem que vai dar muito que falar, estou em crer. Também ele cursou Direito na Universidade de Coimbra mas depois optou por Economia e Finanças, não pela Diplomacia. Em 1910, em Viseu, no Colégio do Cónego Barreiros, durante a sua conferência sobre a “Educação da Mocidade”, ele disse: “A vontade deve ser educada no amor a Deus e ao próximo, no amor à família, à honra e à dignidade, ao trabalho e à verdade”. Estou de acordo. Este moço pode vir a ser uma barreira contra a falta de escrúpulos que submerge a nação. O seu nome? António de Oliveira Salazar. Um dia será alçado a lugar cimeiro do país, prevejo. Mas quando é que ele vai assumir o poder para nos salvar? Tenho pressa, tenho sede, Angelina dá-me água.
Este cobertor felpudo é muito quente, trato de empurrá-lo para os pés da cama. Não me deixam ficar em Curitiba, não lhes convém, a colónia portuguesa está bem ciente da perseguição que me fizeram. Mandam-me para Cônsul temporário em S. Francisco da Califórnia. Temporário é equivalente a vencimento reduzido e, em dois anos, nascem mais dois filhos meus. Outra vez o limiar da miséria, o desespero. Depois mandam-me novamente para o Brasil. Em Agosto de 24 sou Cônsul em S. Luís do Maranhão, no norte. E em Dezembro estou a gerir interinamente o Consulado de Porto Alegre, no extremo sul. “Interinamente” é eufemismo de “corte nos vencimentos”… Cansam-me estas viagens, estas deslocações sucessivas, mas o pior de tudo é a falta de dinheiro. Além do mais, de Lisboa acabo de receber más notícias, proibições. Mas não cedo, não renego, a causa monárquica também é minha, antes quebrar que torcer. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.
Abafado, já a suar, vontade minha é desfazer-me do pijama, é ficar nu, mas isso não é distinto, não fica bem a um chefe de família. Em 1926 estou outra vez em Lisboa, presto serviço na Direcção-Geral dos Negócios Comerciais e Consulares. A 28 de Maio ocorre o golpe do General Gomes da Costa, é a Ditadura Militar. Para surpresa minha, em Março de 27 sou nomeado Cônsul em Vigo, na Galiza, cargo de muito prestígio. Um amigo meu, funcionário interno do Palácio das Necessidades, diz-me que fui escolhido “por motivo de confiança”, pois o regime militar vê em mim “o funcionário próprio para inutilizar os manejos conspiratórios dos emigrados políticos contra a Ditadura”. Os militares foram gentis, fizeram-me justiça mas estão equivocados a meu respeito: não sou um denunciante, pedras eu não atiro, nem a primeira, nem a segunda, nem qualquer outra. Que horas são? De Lisboa acabo de receber más notícias, proibições. Tenho sede, Angelina dá-me água.
Sonhar, às vezes é antecipar. Em 1928 Salazar sobe à ribalta, é ele o novo Ministro das Finanças da Ditadura Militar. Com o auxílio do exército impõe novas contribuições, veta despesas públicas, alcança o equilíbrio do orçamento, liquida a dívida flutuante e estabiliza a moeda. Já ninguém consegue arredá-lo, ou ele ou a bancarrota. Em 1930 acontece o óbvio: Salazar, de Ministro das Finanças galga a Presidente do Conselho de Ministros. Talvez possa agora restaurar a monarquia. Poderia, lá isso poderia… Poderia mas não quer pois, sem estirpe nem coroa, quem está a converter-se em soberano absoluto é o próprio Salazar, metamorfoses. Ilusão, triste ilusão a minha e agora, de Lisboa, acabo de receber más notícias, proibições. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.
Daqui a pouco vou precisar do robe, acho que o deixei aos pés da cama. Não correspondo às expectativas dos militares mas eles continuam a prestigiar-me, não sei porquê. Em 1929 nomeiam-me Cônsul em Antuérpia, na Bélgica. Ali permaneço durante 9 anos. Com apenas 50 anos já sou o decano do corpo diplomático. O rei belga, Leopoldo III, simpatiza muito comigo, por duas vezes me condecora. Mas em 38 sou nomeado Cônsul em Bordéus, França. Peço para ser mantido em Antuérpia, cidade onde fiz tantos amigos. Salazar, para minha consternação, recusa o pedido e sigo para Bordéus. De Lisboa acabo de receber más notícias, proibições. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.
De outras vezes o sonho converte-se em pesadelo, ânsias, ao acordar a minha apetência é gritar. Em 39 rebenta a II Guerra Mundial. Os alemães invadem a Polónia e os Países Baixos e a França, Paris é ocupada. Depois a horda ariana começa a descer para sul e sudoeste, vêm aí os assassinos! Milhares e milhares de refugiados de guerra acampam nos jardins do Consulado e nas ruas vizinhas. Franceses, belgas, holandeses, checos, austríacos e até alemães. Judeus mas também cristãos. Querem vistos para o meu país, querem vistos para a Vida. Mas de Lisboa acabo de receber más notícias, proibições: com a Presidência do Conselho, Salazar acumula agora a pasta de Ministro dos Negócios Estrangeiros e proíbe que se passem vistos a refugiados de guerra, principalmente a israelitas. Outra vez me desilude o moço de Santa Comba. Diz-se católico mas esqueceu-se do amor ao próximo que Jesus apregoava e praticava para exemplo de todos os fiéis. Que faço eu? Acato a ordem do Presidente do Conselho? Impassível, vou então ficar à janela a assistir à matança dos inocentes? Não, não e não! Não sou cúmplice da chacina, vou desobedecer a Salazar, vou passar os vistos e salvar os perseguidos. Prefiro estar com Deus contra um homem, do que estar com um homem contra Deus. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.
(Continua)

