Este trabalho é retirado de uma crónica mais ampla que António Gomes Marques está a escrever sobre esta viagem.
A excitação pressentia-se em alguns, era o dia do passeio de balão, razão por que tivemos de nos levantar às 4 horas da manhã.
O Luís não pôde acompanhar-nos devido às fortes dores que sentia numa das vistas a que recentemente tinha sido operado, facto que nos deu oportunidade para gozar um pouco da situação – o que não lhe aliviou as dores – dizendo que a desculpa apenas escondia o medo de experimentar o voo de balão, ele que adora viajar de barco, esteja o mar como estiver, e transpira quando o avião levanta voo.
Assistimos ao nascer do Sol, ao mesmo tempo que víamos os preparativos para pôr os balões no ar, como as fotografias seguintes mostram:
A Célia e a Fernanda ansiosas pelo voo
A ansiedade era de todos os que pela primeira vez iriam experimentar um passeio de balão e eu, apesar de ser o meu primeiro voo de balão, não me sentia ansioso e o dia apresentava-se calmo, não podendo pressentir-se qualquer motivo de preocupação para a aventura que iríamos iniciar. Lembrei-me então do livro que havia lido há cerca de dois meses, «O Olho de Hertzog», com que João Paulo Borges Coelho havia ganho o Prémio Leya 2009, quando se relata o voo do «novo dirigível, o L-59, cujo nome de baptismo, Navio Aéreo África, …» que levaria os seus tripulantes a uma longa viagem, trazendo para aqui esta preciosa passagem: «Sobrevoámos as montanhas da Anatólia sem outra novidade que não fosse a sensação de o mundo ser tão pequeno visto ali de cima, de a orografia não passar de areia da praia empurrada por mãos de criança, de a guerra não parecer mais que uma desavença de formigas!»
Bom, deixemos as minhas recordações literárias e atentemos nos preparativos para a nossa viagem, que tudo indicava vir a ser calma e sem quaisquer vislumbres de borrasca.
Olhando, logo verificamos que o balão é constituído por três elementos essenciais: o cesto de verga ou gôndola, o balão propriamente dito, de nylon, e, entre o cesto e o balão, o queimador de gás propano que vai aquecer o ar frio existente dentro do balão, graças a uma poderosa ventoinha, que naturalmente lhe dá a forma. Iríamos também poder experienciar o que teoricamente era do nosso conhecimento: com o ar mais quente o balão sobe e com o ar menos quente o balão desce.
A conduzir o nosso balão, o piloto de voo, chamemos-lhe assim, tivemos uma jovem, que nos pareceu eslava, bonita, evidentemente loura, fisicamente muito bem constituída, e que viria a revelar uma extraordinária perícia.
Para a Célia, o mais difícil foi subir para o cesto; perante as dificuldades, logo apareceu um outro atleta que, com a maior das facilidades, a tomou nos braços e a fez aterrar suavemente dentro do cesto, bem mais fácil do que quando teve de subir para o cavalo que, no Pantanal do Norte (Mato Grosso-Brasil), nos permitiria galopar por entre os simpáticos jacarés, tranquilos naturalmente por terem a barriga cheia de piranhas, das que, aos milhões, povoam o Rio Mutum, a pouco mais de 100 km de Cuiabá.
Algumas pessoas já a bordo
A perspectiva de viajar de balão levou-nos, numa provocação à nossa memória, para os quatro elementos materiais da filosofia pré-socrática: ar, terra, água, fogo. Iríamos estar em perfeita comunhão com a natureza, esta harmonia maravilhosa para que na Faculdade a filosofia me levou e que, em todo o curso, mais me encantou!
Outra reminiscência, esta da infância, levou-nos a Júlio Verne e à talvez mais conhecida das suas obras, «A Volta ao Mundo em 80 Dias», ao livro e, como não poderia deixar de ser, ao filme, com David Niven e Cantinflas.
(Continua)


