.. as estratégias de localização das empresas: os choques da globalização
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
(Continuação)
A internacionalização das empresas
As diferenças de níveis de desenvolvimento e a sua redução parcial determinam as estratégias de localização das empresas que consistem, não somente para ser exportado do seu território de origem, mas também a investir e a externalizar no exterior. Neste caso, elas enfrentam custos fixos médios mais elevados, mas economizam sobre os seus custos variáveis. No entanto, o limite de desencadear a produção no exterior em termos de nível inicial de produtividade para absorver os custos fixos adicionais é maior que o limite para começar a exportar. De sublinhar que são ainda as empresas mais produtivas que realizam no exterior os seus investimentos directos. São também as que em termos de dimensão são as maiores empresas.
As empresas devem escolher entre integrar as actividades a montante ou as que estão a jusante ou passar pelo mercado e simultaneamente escolher os locais de implantação das actividades integradas ou terceirizados. Várias formas de organização industrial são, portanto, possíveis. Obviamente, elas têm um impacto sobre os seus resultados. A organização que será escolhida irá variar de um sector para outro com características sectoriais em condições que podem ser expressas da seguinte forma (Helpman, 2006): os produtores de bens finais diferenciadas mercadorias que requerem componentes específicos. Os produtores de bens intermediários oferecem bens personalizados (adaptados aos clientes). Os custos variáveis diferem de um país para outro. E é a mesma coisa com os custos fixos relacionados com a integração ou com a externalização de actividades. Além disso, por causa da especificidade destes, não é possíveis concluir contratos executáveis especificando ex ante a natureza desses bens enquanto os parceiros (um ou o outro ou os dois) devem realizar investimento específicos. Finalmente, existem dois tipos de factores: os serviços de direcção, incluindo as actividades de R&D e as actividades, de marketing, necessariamente sob controlo do produtor bem final e dos bens intermediários, mercadorias controladas pelos fornecedores mais ou menos independentes. Nestas condições vários cenários são possíveis para diferentes configurações de localização das actividades. Uma empresa de país desenvolvido manterá os serviços da direcção no seu país de origem, mas externaliserá a sua produção de bens intermediários num país emergente, especialmente quando se torna menos dispendioso e menos arriscado para ela encontrar um fornecedor de bens intermediários neste país. O aumento da dimensão de mercado local e a melhoria do ambiente contratual fazem recuar o risco de comportamentos oportunistas e promove o investimento. À medida em que mais fornecedores entrarem no mercado de um país emergente, este país torna-se mais atraente para os produtores de bens finais, que serão capazes de encontrar mais facilmente o produtor que então realize os investimentos necessários no quadro da personalização requerida da produção em questão. Da mesma forma, quanto maior é o número de empresas à procura de fornecedores no mesmo país, quanto mais este país se torna atraente para novos produtores poderem aparecer (Grossman e Helpman, 2003). Em suma, existe uma dinâmica de fragmentação da actividade produtiva directamente relacionada com a diferença de potencial entre os países em causa.
Esses mesmos mecanismos de deslocalização e de externalização afectam as relações entre os países desenvolvidos. As empresas do sector de exportação dos países desenvolvidos podem, na verdade, deslocalizar ou externalizar a produção de componentes dos seus produtos onde os custos do trabalho sejam inferiores, ou seja, nos países emergentes mais ou menos desenvolvidos. Um diferencial de competitividade é então criado com os países tão avançados que compram esses produtos, mas cujas empresas não operar o mesmo tipo de fragmentação das suas actividades a nível internacional. As estratégias de localização das empresas interagem com a situação respectiva dos países envolvidos no comércio internacional. Eles podem conduzir a ganhos tanto a situações de ganhos equilibrados entre regiões ou países como podem levar a conflitos encarnados nas diferenças de competitividade. Se é provável que um país registe melhores resultados globais – mantenha uma melhor posição competitiva- quando as suas empresas estão projectadas para o exterior, o que acontecerá, irá depender do tipo de internacionalização escolhida em relação à posição relativa de outros países nas trocas internacionais. Num contexto de relativo equilíbrio em termos de níveis de vida, as empresas posicionadas em nichos tecnológicos irão manter o essencial da sua actividade no seu território de origem, ao mesmo tempo que aproveitam as oportunidades do mercado global. Pelo contrário, quando as disparidades salariais persistem entre os países, essas mesmas empresas são incentivadas a fragmentar espacialmente as suas actividades, possivelmente contra países desenvolvidos ou pelo menos contra alguns deles. Há aqui uma questão decisiva na aproximação significativa dos níveis de vida, que está, simultaneamente, na origem dos conflitos de localização durante o período de transição e na promessa de se alcançar uma situação de equilíbrio em que estes conflitos desapareceriam.
Esta leitura da relação entre a competitividade dos territórios e a localização das estratégias empresariais permite medir o duplo desafio que enfrentam as empresas francesas: o desafio da deslocalização para países emergentes e o desafio da perda de competitividade para os países desenvolvidos. Elas devem enfrentar o movimento de deslocação de indústrias ou de segmentos de indústrias para países os países emergentes, onde os custos do trabalho são mais baixos e que, por seu aldo, constituem os seus novos mercados. Ao mesmo tempo, elas devem lidar com o défice de competitividade dos seus produtos, principalmente, face a empresas alemãs que estão mais avançadas no processo de fragmentação internacional das suas actividades, mas também nos seus investimentos em pesquisa e desenvolvimento, num contexto de procura interna fraca.
(Continua)
