LIÇÕES DE ETNOPSICOLOGIA – 32 – por Raúl Iturra

 

(Continuação)

 

 

O caos é dos pais. Eis por que denominei este capítulo a ilusão de sermos pais. Não apenas por existir na vida social todo um ritual que pertence, desde muito cedo, aos pequenos, contos que nos dizem, canções que nos cantam, peças de teatro que devemos ver e comprar bilhete…pago em papel. O caos é dos pais que sabem manter uma disciplina de horário para comer, para tomar banho, para adormecer e para acordar. A parte mais complexa dos pais, é levantar as crianças de manhã cedo e levá-las ou à creche, ou à escola. Lembro-me de ter inventado uma brincadeira que consistia em entrar calado, ainda noite, na cama das pequenas e cantar uma canção de embalar, até lentamente acordarem com o barulho, sem jamais proferir as palavras: “já são horas, corre que é tarde…” e outras ideias do género. Como encher a casa de bolachas, chocolates e depois, sopa e mais comida. Esta contradição do adulto leva o mais novo a querer deixar de comer. Ou, ocultar o beijo na boca que um pai apaixonado pela mãe dos seus filhos quer dar na presença deles. Causa um alvoroço tão simpático, que seria impossível andar em procura dos vilaines petits canards.

 

É impossível deixar de referir que essa ilusão nasce também da quantidade de erudições que a vida social ensina aos pequenos que ficam a uma certa distância de nós, orgulhosos do seu saber. Um saber que, apesar de já estar connosco, nos deve sempre surpreender e agradecer, sem muito alarido, a lição recebida.

 

Era uma vez uma pequena que acordou da sua sesta durante um dos nossos trabalhos e entrou caladinha, para nos surpreender, no sítio da casa da aldeia onde nós, amantes além de pais, namorávamos. A idade era a de Freud e de Klein, esses duros três anos ou dois. Ao ver o seu adorado pai abraçar com paixão a mulher que a alimentava, teve um acesso de raiva imenso e começou a tirar tudo o que estava por perto: virar mesas, dar pontapés nas cadeiras, arrastar a toalha de mesa, partir loiça. Nós, já divertidos, não abrimos a boca nem proibimos nada; e fomos passando de quarto em quarto a partir o mundo e nós atrás dela, em silêncio a rir com os olhos nos olhos – esse rir calado e agradável, que acorda o brilho da pupila – e vigiar não fosse ficar ferida. Até que quis atirar com uma bilha de gás, foi-lhe impossível e, naturalmente, virou-se a nós para entornar esses 45 quilos, que…entornamos às gargalhadas. A seguir, o lanche e nunca mais falaram do assunto, como de nenhum outro que…causa punição. É a forma de sair do caos dos pais, ou, sem saber, colaborar a dar cabo do caos dos pais, parte natural da vida de casal.

 

É a ilusão de sermos pais. Há o próprio processo da criança, descoberto no Século XX, há o conjugal, há a economia, há as doenças. Há tanto problema a sarar, e, o mais difícil, o desejo de continuar a brincar aos noivos por parte dos pais. Como costumo dizer, ser pai é para toda a vida, mande-se no filho ou não, o afecto contínua, crescendo com a história e a criança. É o desenvolvimento que devemos aprender e acompanhar: eles são hoje os adultos que um dia nós fomos, e de pai a avô, há um mundo de mudança de comportamento. Nascemos sós, morremos sós. Apenas 5 anos são importantes: esses definidos antes neste texto, quando em casa, a criança desenvolve a sua epistemologia, que, para acontecer, nós devemos ver, ouvir e calar e responder apenas se lhe endereçam perguntas.

 

 

(Continua)


 

 

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