(Continuação)
Sétima Lição
O PEQUENO PECADOR…
Olhos felizes, sorrisos brilhantes. Silêncio no beijo. Respeito na carícia. Uma mão doce a percorrer o corpo. Suavidade, ternura, sedução. Silêncio: uma criança está a ser projectada. O imaginário de dois, transferido a um entre momentos de sedução, brinca e pensa: como é que será, os teus olhos, a minha boca, o teu andar? A felicidade prometida no Jardim do Éden, a felicidade que nasce nesse primeiro encontro? Quando um corpo chama o nosso, faz sentir a nossa pele rizada, a querer correr dentro da outra uma e outra, e outra vez, com doçura, com respeito, com a alma a brilhar[1]. A paixão. O amor. O presente dos novos, o futuro dos velhos. A lembrança dessa outra pessoa que nos faz sentir a alma quente e terna, a cabeça perdida, ideias que iluminam e aquecem a tarde de um Domingo de Inverno. O Jardim de Éden. O paraíso antes, durante e depois do tema que nos leva a estas ideias: a glória de sermos pais… um dia, em breve. Já: « À partir du moment où on est deux (couple), on est déjà trois, même si l’enfant n’est pas encore pensé consciemment. Il y a toujours dans le désir d’avoir un enfant un besoin personnel à assouvir»[2]. A paixão da afectividade faz-nos sentir a urgência de nos projectarmos e eternizarmos dentro de um outro ser humano, porque o nosso amor é tão grande, que dois não são suficientes para poderem guardá-lo. Eis o motivo desta frase e de todo o texto que citei no início da lição quarta.
A afectividade apaixonada, conceito pouco usado entre os analistas que procuram uma outra parte do texto citado, para podermos começar no Jardim do Éden, desencadeou o motivo do título desta lição. A realidade contextualiza o amor, trava a paixão e faz andar pela vida como se o cuidado de olhar nos olhos do outro pudesse perder-se ao entrar um terceiro na relação a dois. Um terceiro desejado pelo par, parte de si próprios, plenitude dos laços de ternura com espaço afectivo para o cobiçar para nós e guardá-lo dos outros, sentimentos mútuos de paixão materializados num novo ser, que passa a ser querido, mas dentro de uma grandiosidade que apenas García Márquez é capaz de descrever para um sentimento amoroso. Como o amor que descreve à Mama Grande, sem romance, sem a primeira sedução que muda para outras hierarquias: “Poco antes de las once, la muchedumbre delirante que se asfixiaba al sol, contenida por una elite imperturbable de guerreros uniformados de dormanes guarnecidos y espumosos morriones, lanzó un poderoso rugido de júbilo. Dignos, solemnes en sus sacovelas y chisteras, el presidente de la república y sus ministros; las comisiones del parlamento, la corte suprema de justicia, el consejo de estado, los partidos tradicionales y el clero, y los representantes de la banca, el comercio y la industria, hicieron su aparición por la esquina de la telegrafia. Calvo y rechoncho, el anciano y enfermo presidente de la república desfiló frente a los ojos atónitos de las muchedumbres que lo habian investido sin conocerlo y que solo ahora podian dar un testimonio verídico de su existencia. Entre los arzobispos extenuados por la gravedad de su ministerio y los militares de robusto tórax acorazado de insignias, el primer magistrado transpiraba el hálito inconfundible del poder…la mama Grande estaba entonces demasiado embebida en su eternidad de formaldehido para darse cuenta de la magnitud de su grandeza…estaban asistiendo al nacimiento de una nueva grandeza. Ahora podía el Sumo Pontífice subir al cielo en cuerpo y alma…”[3].
(Continua)
[1] « L’histoire de l’enfant commence dans l’imaginaire des parents. On l’imagine grand, beau, fort et plus tard riche. A partir du moment où on est deux (couple), on est déjà trois, même si l’enfant n’est pas encore pensé consciemment… » Psychiatrie Infirmière, Website http://psyciatrieinfirmiere.free.fr/infirmiere/formationInfirmiere/psychologie/cours.htm
[2] Ver nota anterior e as obras de Alice Miller referidas, especialmente o texto preparado por mim, tendo por base a minha participação no projecto The Natural Child Project: All children behave as well as they are treate em http://www.naturalchild.com/alice_miller ou Los funerales da la Mamá Grande de Gabriel García Márquez, 1974, Bruguera, Barcelona, website http://www.ciao.es/Los_funerales_de_mama_grande__144017 –
[3] García Márquez, nota 2, páginas154 a 157, intercaladas por mi.
[
