“A DROGA” vista por JOVENS DE CENTRO TUTELAR EDUCATIVO trazida por Clara Castilho

 

 

 

 

 

 

 

 

PUTO FECHADO

O puto andava metido na má vida

A vida que tinha entrada mas não saída

Roubar já era sua arte

Dividir e cada um com sua parte

Um puto atrevido

Que rapidamente tornou-se um verdadeiro bandido

Com o sonho de ser doutor

Mas na escola não escutava o professor

Nas ruas saía para roubar

O puto com a sua “gun” pronta para matar

Com um carro na estrada sempre a andar

Malas por fechar

Da polícia já não sabia como se safar

O puto até que não era mau

Até que um dia roubou um baú

E foi  para o colégio

Que não era esse o seu desejo

(…)

Quer queiras quer não somos putos fechados,

Putos fechados… que não aguentam mais…

Putos fechados… trancados…

Putos fechados… que não aguentam mais…

Putos fechados… que representam os canais

Putos fechados…

José – 16 anos; Mohamed – 16 anos; Hugo – 17 anos

Salvador Dali

A MERDA DA DROGA

A droga é a coisa que te traz entretenimento

Mas é só no momento

Porque depois só te traz tormentos

Aquela que te traz problemas amontoados

Que te faz rir de pequenos a grandes pecados

As primeiras doses são a cilada da morte

Esta é a crueldade da sorte.

 

Por ela começas a sentir prazer

Mas começas a perder a vontade de viver.

 

Com ela dizes que te sentes melhor

Sem saber que ela é um horror.

 

Apesar da dose começar a ser  pior

Tu começas a sentir pavor

Apesar de começar a ser necessária

Mas também começas a ir para a miséria

Começa a ser aquele aperto infernal

Que para o teu corpo cada vez é mais normal

Começas a sentir–te em desertos

Vais esquecendo os teus projectos

Ela deixa de ser sensível para viver pr’a terrível

…..

Mas também ficas oprimido

Pelos amigos és esquecido

Para além da infelicidade

Começas a perder a idade

Com ela podes ficar contente

Mas não é com o poder da tua mente

Droga – uma doença fatal

Que no teu corpo é geral

José – 16 anos; Mohamed – 16 anos; Hugo – 17 anos

NOTA: Textos retirados do livro “Estilhaços”, editado em 2002, pelo Instituto de Reinserção Social,  numa altura em que um equipa técnica (presto aqui homenagem aos que conheço, Pedro Strecht e Maria João Leote de Carvalho, com as devidas desculpas àqueles que não identifico) considerava que um trabalho de “reinserção” dos jovens passava por os ajudar a reflectir sobre as suas vidas, na procura de fontes de inspiração e de alternativas, em vez das punições, numa altura em que no Centro Educativo Padre António Oliveira se acreditou que os jovens podem ter outro percurso que não a continuidade da sua marginalidade.

  

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