PUTO FECHADO
O puto andava metido na má vida
A vida que tinha entrada mas não saída
Roubar já era sua arte
Dividir e cada um com sua parte
Um puto atrevido
Que rapidamente tornou-se um verdadeiro bandido
Com o sonho de ser doutor
Mas na escola não escutava o professor
Nas ruas saía para roubar
O puto com a sua “gun” pronta para matar
Com um carro na estrada sempre a andar
Malas por fechar
Da polícia já não sabia como se safar
O puto até que não era mau
Até que um dia roubou um baú
E foi para o colégio
Que não era esse o seu desejo
(…)
Quer queiras quer não somos putos fechados,
Putos fechados… que não aguentam mais…
Putos fechados… trancados…
Putos fechados… que não aguentam mais…
Putos fechados… que representam os canais
Putos fechados…
José – 16 anos; Mohamed – 16 anos; Hugo – 17 anos
A MERDA DA DROGA
A droga é a coisa que te traz entretenimento
Mas é só no momento
Porque depois só te traz tormentos
Aquela que te traz problemas amontoados
Que te faz rir de pequenos a grandes pecados
As primeiras doses são a cilada da morte
Esta é a crueldade da sorte.
Por ela começas a sentir prazer
Mas começas a perder a vontade de viver.
Com ela dizes que te sentes melhor
Sem saber que ela é um horror.
Apesar da dose começar a ser pior
Tu começas a sentir pavor
Apesar de começar a ser necessária
Mas também começas a ir para a miséria
Começa a ser aquele aperto infernal
Que para o teu corpo cada vez é mais normal
Começas a sentir–te em desertos
Vais esquecendo os teus projectos
Ela deixa de ser sensível para viver pr’a terrível
…..
Mas também ficas oprimido
Pelos amigos és esquecido
Para além da infelicidade
Começas a perder a idade
Com ela podes ficar contente
Mas não é com o poder da tua mente
Droga – uma doença fatal
Que no teu corpo é geral
José – 16 anos; Mohamed – 16 anos; Hugo – 17 anos
NOTA: Textos retirados do livro “Estilhaços”, editado em 2002, pelo Instituto de Reinserção Social, numa altura em que um equipa técnica (presto aqui homenagem aos que conheço, Pedro Strecht e Maria João Leote de Carvalho, com as devidas desculpas àqueles que não identifico) considerava que um trabalho de “reinserção” dos jovens passava por os ajudar a reflectir sobre as suas vidas, na procura de fontes de inspiração e de alternativas, em vez das punições, numa altura em que no Centro Educativo Padre António Oliveira se acreditou que os jovens podem ter outro percurso que não a continuidade da sua marginalidade.



