Com a devida vénia, transcrevemos da Revista Visão de dia 2 de Fevereiro de 2012
No âmbito das comemorações do primeiro aniversário do seu segundo mandato, o Presidente da República resolveu proferir declarações adequadamente festivas. Raras vezes terá Cavaco exercido as suas funções com tanta eficácia: um dos deveres do Presidente é unir o povo português, e Cavaco conseguiu-o. O povo está unido. Unido contra ele, mas unido. Portugueses do Norte e do Sul, do Litoral e do Interior, de esquerda e de direita, do Benfica e do Porto – todos dão as mãos e concluem que há um ponto no qual concordam: Cavaco está a brincar com eles.
Os presidentes costumam mudar de comportamento após a reeleição. Depois de um primeiro mandato discreto, aproveitam o segundo para adoptar uma atitude mais hostil ao Governo. No entanto, Cavaco é inovador, na medida em que prefere hostilizar o povo.
A culpa é do povo, que se deixa hostilizar por ninharias. Num país em que Américo Amorim não é rico, é natural que o Presidente da República não ganhe para as despesas. E Cavaco é apenas mais um daqueles reformados queixosos que lamenta o baixo valor da sua pensão. Onde está a novidade disto? Muita sorte temos nós. Este tipo de idoso costuma passar das queixas sobre a reforma para outro género de lamúrias. O admirável esforço de contenção de Cavaco, que limitou os lamentos à pensão, e não os estendeu às varizes e ao colesterol, não foi valorizado. Este povo, que se melindra por tudo e por nada, merecia uma conferência de imprensa em que o Presidente puxasse de uma receita médica e lastimasse o alto preço dos remédios contra a arteriosclerose. Ou um comunicado à Lusa, protestando contra a alteração de horários da novela. Ou uma intervenção, nos telejornais, acerca da falta de condições para o dominó, no Jardim da Estrela. Cavaco tem reduzido esta espécie de magistratura geriátrica à contemplação embevecida de vaquinhas e às queixas sobre a pensão. Ainda assim, o povo reclama.
A única coisa a fazer é mudar a lei que determina que são elegíveis para o cargo de Presidente os cidadãos portugueses com mais de 35 anos. É melhor restringir o leque: só devem poder candidatar-se a Presidente os portugueses maiores de 35 e menores de 40. Quem ainda não é reformado não pode queixar-se da reforma. E as características próprias da meia-idade fazem com que o cidadão eleito exerça a Presidência com mais estilo: um carro oficial descapotável e uma primeira-dama de 20 anos podem muito bem constituir a animação de que o povo precisa.
