Um Café na Internet
(Publicado no jornal Badaladas” – Torres Vedras – em 02.02.12)
O relógio de pêndulo que se encontra na minha sala parou. Não por falta de corda, mas decidiu parar cansado de contar o desassossegado tempo e bater as horas com sonoridade que percorria toda a casa.
O relógio de pêndulo que vive na minha sala não é daqueles altos, grandalhões, antes um modesto objeto de mesa, feito em madeira, com entalhes simplórios, terminando num frontão cortado e liso; uma portinha de vidro, delicadamente decorada por um por um círculo de flores pintadas à mão, deixa ver no interior o mecanismo dos ponteiros e os números das horas suas companheiras. Não é uma peça rara mas apenas um daqueles simpáticos relógios fabricados por uma antiga fábrica minhota
Comprei-o em Chaves, num dia de Outubro de 1975, depois de esperar, com minha mulher, vinte minutos que a loja abrisse após o almoço e pudéssemos observar de perto o relógio que nos cativava na montra. Nunca consegui explicar a mim mesmo a razão deste amor à primeira vista de uma peça adquirida com satisfação e carinho. Discutido o preço acabei por trazê-lo numa bela caixa de cartão onde haveria de fazer a viagem para o sul.
Bendita viagem! Logo chegado começou a cantar as horas acompanhando-as com o sussurrar dos minutos o que me aconchegava o tempo ao corpo de tal modo que em breve o modesto relógio de pêndulo deixou de ser um relógio para se tornar um amigo. Normalmente não cuidamos da importância dos objetos que convivem connosco e só lhes reconhecemos a importância da saudade quando nos faltam, Mesmo mudos, inertes incapazes de esboçar o mais pequeno sintoma de vida, sem o sabermos habitam no nosso coração afirmando-se com a sua presença. Aconteceu que ao longo de 36 anos o relógio de pêndulo participou em tudo, dentro desta minha casa, com as suas badaladas: risos, lágrimas, palavras, beijos, anseios, lutos, prazeres, doenças, até no silêncio é a ele que oiço, esteja onde estiver, alertando-me da sua companhia. Nesse espaço solitário em que reflicto sobre a verdade das coisas naquilo que representa a dor de se existir, cada badalada que emite + uma forma de me avisar que vivo – simboliza a presença de um companheiro de jornada ao pé de mim vigilante dos meus desassossegos de alma. Aproximamo-nos, ele quando toca, eu quando reforço a sua energia dando-lhe corda a fim de ouvir a sua voz.
Agora parou! Já procurei descobrir a causa do seu coma profundo coma sem resultado. Dei-lhe corda e nada; fiz oscilar o pêndulo e nada. Parou como se de morte fosse porque um relógio de mesa, bem tratado e acarinhado, não morre sem primeiro pedir licença ao tempo. Passo por ele e vejo-o moribundo sobre a mesa do seu habitat e sinto uma amargura no meu coração por saber que terá de esperar durante algum tempo para eu o poder levar às urgências do relojoeiro. Precisa de uma corda nova para bombear o sangue do tempo para os ponteiros, mas as taxas moderadoras aumentaram desmesuradamente e eu tenho de poupar o dinheiro para o tratamento. Ali quieto, observo-o, o pêndulo e os ponteiros inertes e sem vida. Os silêncios na casa ganharam volume deixando-me embrulhado no frio dos pensamentos que resulta da incapacidade política do país. É certo que o meu relógio de pêndulo não tem culpa da cabotinice alheia e menos ainda da tristeza de um povo acostumado à desgraça. Por isso badala talvez para levantar ainda a minha velha consciência solitária que vai perdendo em cada mês o barro da esperança.
Vou rapar dinheiro do fundo dos bolsos de modo a que volte a cantar em minha casa ajudando a florir alguns dos meus pensamentos.

