A Revolta de Fevereiro de 1927 – 1 – por Carlos Loures

Mostro uma fotografia em que se vê a
«trincheira». O oficial em pé e de capote é nem mais nem menos do que Emídio
Guerreiro.

Face ao caos em que a República mergulhara, alguns sectores democráticos haviam recebido com expectativa o movimento de 28 de Maio de 1926. Porém, pouco tempo foi necessário para comprovar que a intenção dos putschistas não era apenas a de «arrumar a casa». A Ditadura viera para ficar, começando a assumir, com o apoio da Igreja Católica e de algumas franjas sociais e intelectuais, um carácter protofascista. Em Lisboa, o Grupo da Biblioteca Nacional, onde pontificavam intelectuais como Raúl Proença e Jaime Cortesão, ambos ligados à «Seara Nova», conspirava activamente, organizando uma revolta que envolveria civis e militares.

 

Plano e ordem de operações

 

Foi o Porto escolhido para ali começar a rebelião. Por diversas razões – o comandante operacional era o general Sousa Dias, que estava internado no Hospital Militar do Porto e havia na cidade um forte núcleo de republicanos, incluindo comandantes e oficiais de unidades militares ali sediadas. Menos numeroso que o de Lisboa, era no entanto mais coeso. Se o levantamento fosse bem sucedido no Porto, as adesões da capital seriam mais fáceis, acreditava-se. E havia ainda uma razão simbólica – o 31 de Janeiro de 1891!. Mas a data foi adiada para 3 de Fevereiro. Começaria no Porto e 12 horas depois Lisboa sublevava-se também. Sarmento Pimentel, Jaime Cortesão, o comandante Jaime de Morais e José Domingues dos Santos assinaram a Proclamação Revolucionária que desencadeava o movimento. Elemento de ligação, Raúl Proença embarcou para o Porto.

 

A Revolta no Porto

 

De acordo com a ordem de operações, na madrugada de 3 de Fevereiro, o Regimento de Caçadores 9 começou a tomar posições em pontos estratégicos da cidade. Uma companhia da GNR aquartelada na Bela Vista em breve se lhe juntou. O Regimento de Cavalaria 6, de Penafiel, chegou, mas sem a totalidade dos efectivos. De unidades que não haviam aderido, foram chegando oficiais, sargentos e praças que se identificavam com os objectivos do levantamento. No dia 4, chegou o Regimento de Artilharia de Amarante.

 

Os revoltosos dirigiram-se para a zona da Batalha, onde estavam as sedes do Quartel-General e do Governo Civil e a mais importante estação do telégrafo. No topo da Rua de 31 de Janeiro, na esquina com a Rua de Santa Catarina, foi colocada uma metralhadora, cobrindo as duas vias e vedando o eventual avanço das forças lealistas. Chamaram-lhe a “trincheira da morte”.

 

Outra metralhadora foi colocada na barricada erguida na junção das ruas de Cima da Vila e da Madeira. A Rua do Cativo estava coberta também por uma arma pesada, colocada à esquina do Hospital da Ordem do Terço. Ao cimo da Rua do Corpo da Guarda, cobrindo o largo que época tinha o mesmo nome, foi montado um dispositivo idêntico. Duas peças de artilharia foram postas em prontidão na confluência da Alexandre Herculano (cujo pavimento foi levantado) com a Rua de Entreparedes. Efectivos de infantaria 6, de Penafiel, e da GNR, ocuparam a Rua Chã. Este era o dispositivo de defesa rapidamente montado no perímetro pré-definido.

 

Na vertente política, em nome do «Comité Revolucionário do Norte», foi enviado um ultimato ao presidente da República, general Carmona: «Forças revolucionárias de todo o Norte impõem demissão do Gabinete Militar que abusivamente quis governar em nome do Exército, desejando a sua substituição por um Governo Nacional republicano e o regresso à Constituição.» No Porto, permaneceram fiéis à Ditadura, elementos do Regimento de Infantaria 18, do Regimento de Cavalaria 9 e o Regimento de Artilharia 5 , instalado em Gaia, na Serra do Pilar. A GNR declarou-se neutral, declarando-se disposta a garantir o policiamento das ruas da cidade. Informadas do que se passava, as forças fiéis ao Governo, mais numerosas e dispondo de mais meios, iam, mesmo antes de receber reforços, preparando o cerco.

 

Logo às primeiras horas de sedição, houve esporádicas trocas de tiros nas Ruas de Barros Lima e Montebelo (actual Avenida de Fernão de Magalhães); no Marquês de Pombal; na Praça dos Poveiros e no Largo do Padrão. Porém, os 12 feridos do primeiro dia de revolta atestam a brandura dos primeiros confrontos. Na madrugada do dia 3, a artilharia da Serra do Pilar entrou em acção. Dois obuses atingiram, na Rua de Gonçalo Cristóvão o quartel de Sapadores Bombeiros. As forças governamentais, depois de algumas horas de desorganização, passaram a ser constituídas por uma parte reduzida de Infantaria 18, comandado pelo coronel Raul Peres, de Cavalaria 9, aquartelado na Serra do Pilar. Na tarde de 3 de Fevereiro, sob o comando do coronel João Carlos Craveiro Lopes, chefe do estado-maior da Região Militar e governador militar da cidade, concentraram-se no quartel da Serra do Pilar e abriram fogo de artilharia contra os revoltosos.

 

Nessa manhã de 3 de Fevereiro, o Ministro da Guerra, coronel Passos e Sousa, saiu de Lisboa num comboio com destino a Vila Nova e Gaia, onde chegou ao fim da tarde. Assumiu o comando das forças governamentais. Durante essa primeira manhã da sedição, chegaram aos revoltosos reforços vindos de Valença. Desembarcaram na estação da Boavista, na Avenida da França, e marchando pela Carvalhosa, Cedofeita, Clérigos, Praça da Liberdade, Rua d a Batalha, onde se juntaram às forças rebeldes. Na manhã de 4, juntaram-se aos revoltosos o Regimento de Artilharia de Amarante, cujas peças forçaram os lealistas a refugiar-se no Monte da Virgem. Ainda nessa manhã, chegou Cavalaria 8, de Aveiro leal ao Governo. Sob o fogo rebelde, atravessou a Ponte de D. Luís, mas não conseguiu passar as barricadas da Praça da Batalha e 31 de Janeiro.

 

(Continua)

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