Comentei aqui a existência da ILLUSTRARTE 2012 (13 Janeiro a 8 de Abril) no Museu de Electricidade, que teria um apontamento biográfico sobre o escritor português António Torrado.
Aproveitei o domingo solarengo para lá ir. Fiquei desapontada. Um balcão com todos os seus livros, um placard com texto de sua autoria. Magnífico, por sinal. Podendo consultar ou ler os seus livros, nada mais os visitantes ficavam a saber sobre o autor. Muito pobre, para o real valor deste autor, de literatura para a infância, mas não só.
Mas quero partilhar convosco o texto que lá pude ler:
“Era uma vez uma pequena pedra que se soltara do cimo de uma montanha, nem ela sabia quando, e rolara encosta abaixo, misturada a muitas outras.
A pequena pedra, filha de uma pedra grande, neta de um pedregulho, bisneta de um pedreira, estacionara com muitas irmãs, primas e família, numa cova de cascalho, à beira da estrada.
Delas não haveria história para contar, se um dia um garoto à cata de pedrinhas para pedrinhas para atirar com o estilingue, não a escolhesse, com mais umas tantas… Assim ela conheceu o calor de uma algibeira. Por pouco tempo, aliás.
De repente, viu-se a voar pelas alturas. Ia, talvez contra vontade, em direcção a um pardal, pousado num parapeito.
Felizmente, o pardal escapuliu, mas a pedra, que seguia um único sentido, foi bater numa vidraça, daquelas que se estilhaçam a qualquer sobressalto. Deveriam inventar vidro mais resistente !
Varrida com os cacos pela zangada dona de casa, onde estava a janela, a pedrinha caiu depois para trás de um muro derrubado. Agora, ela já tinha que contar.
Mas a história não ficou por aí. A vida de uma pedra é muito dura. Esta sofreu pontapés, andou aos tropeções, até que, ao fim de muitos anos, quando estava ela debruçada na margem de um rio, veio
outro garoto e atirou-a na água. Queria ver se ela dava um salto como um peixe.
A pedra, com o balanço, voou pelo ar, como se tivesse esquecido da lei da gravidade. Roçou a superfície plena da água, uma, duas, três vezes, até não conseguir mais. E afundou.Rolou na areia do fundo, ao sabor da corrente, que no inverno era muito forte. Quanto tempo? O tempo não era assunto da sua conta.
O que interessa saber é que a pedra, rolada pelo rio, foi para a uma praia. Estava menor, mas muito mais bonita. Muito polida e brilhante, não parecia a mesma.
As mãos de um menino pegaram-na e levaram-na com ele. Iria voar, outra vez, atrás de um pardal, saltar sobre as águas, a fingir de peixe? Nada disso.
A pedra já merecia descanso. Foi colocada num vaso, sobre uma mesa onde também repousavam conchas, bolas de gude, corais e outros “tesouros” semelhantes. Ainda deve estar lá…
O que ela nunca saberá é que o menino que a trouxe da praia, o menino que a lançou ao rio e o menino que a atirou com o estilingue são os três como se fosse o mesmo menino: neto, filho, avô, surpreendidos no mesmo momento da infância.
Acontece…
São estas coincidências que movem o destino das pedras.”
Chama-lhe o António “coincidências”. Poderão ser “continuidades”. Como outras coisas na vida.
Deixo-vos com uma obra de Sérgio Azevedo: “O Veado Florido” – music tale for children, versão virtual de Abril de 2011 que ainda não foi tocada. É baseada num conto de António Torrado.


