Hotel das termas – Carla Romualdo

 

 

 

Carla Romualdo  Hotel das termas

 

(Adão Cruz)

 

 

   Têm esse encanto, as aldeias e vilas termais, o de fazer-nos sentir que chegamos a elas demasiado tarde, quando o seu esplendor é passado, que seremos sempre visitantes tardios, chegados a meio de Setembro, quando tudo é já declínio e prenúncio do Outono.

 

Mas sentimo-lo sem lástima, gozamos essa melancolia amena, passeamos ao cair da noite sob a colunata, ocupamos os lugares vazios do palco que ainda está montado na praça (quando foi o espectáculo? como terá sido?), e quando principia a chuva miudinha que o dia de calor não fazia prever deixamos para trás a avenida das tílias em direcção à fachada serena do hotel das termas, onde as luzes dos quartos ainda não se acenderam e duas toalhas de praia pendem de uma varanda, duas manchas de cores garridas, marcas ruidosas do presente num edifício que é todo passado.

 

Eu chegara pela primeira vez ao hotel das termas com o vago propósito de curar um estado depressivo que não confessara a ninguém, e que não estava certo se era real ou mero capricho de homem só, que podia dar-se ao luxo da neurastenia. Encontrei tudo ao meu gosto, mas também não era muito o que pedia. Passava os dias nas termas, jantava sozinho, dava um passeio, regressava ao hotel, lia até adormecer. Um dos meus vícios de homem solitário era ler em voz alta, até me cansar, talvez porque o som da minha própria voz fosse um certo conforto nas noites silenciosas. Numa dessas noites, embrenhado na leitura do poema que principia com os versos “E tu esperas, aguardas a única coisa/ que aumentaria infinitamente a tua vida”, de súbito dei-me conta da sua presença.

 

– Como é que a senhora entrou aqui?!

 

De pé, à porta do quarto, olhava-me sorridente, mas alarmou-se com o meu sobressalto. Fora demasiado brusco. Era provável que eu tivesse deixado a porta aberta e aquela mulher jovem, de olhar doce e profundo, a que um ligeiríssimo estrabismo dava um encanto particular, não era, de nenhuma maneira, uma ameaça.

 

– Peço desculpa, não queria incomodá-lo… mas gostei tanto de ouvi-lo que me fui aproximando e não consegui afastar-me…

 

– E como é que entrou aqui, a porta estava aberta?

 

Fez um gesto vago com a mão, como se quisesse dizer-me que como entrara era um detalhe sem importância.

 

– Não tinha a intenção de importuná-lo, peço desculpa, não me demorarei mais.

 

– Não, fique. – Surpreendi-me a mim mesmo com este pedido. Estaria assim tão sozinho para rogar a companhia de uma desconhecida?

 

– De verdade que não o incomodo?

 

– Fique, vou apreciar a sua companhia, estou certo disso.

 

Ela sorriu e aproximou-se, assentiu ao gesto com que lhe indiquei o sofá. Sentou-se frente a mim, e ali ficou, a ouvir-me, até ao nascer do dia, ou pelo menos até eu cair adormecido, porque quando acordei, ainda no sofá, o livro que eu lera estava pousado sobre a mesa, uma manta piedosa aconchegava-me o corpo, e não havia sinal da minha convidada. Até ao final da minha estada no hotel, este encontro haveria de repetir-se de modo idêntico, a cada noite. Eu deixava a porta entreaberta, sentava-me a ler, e ela aparecia, sorridente, silenciosa. Lia durante horas, até começar a sentir um cansaço invulgar, uma pesadez que se assemelhava a uma anestesia, e que me deixava adormecido no sofá, sem nunca chegar a despedir-me da minha companhia. Quando parti do hotel, na manhã do último dia, estava já decidido a regressar no ano seguinte, com a esperança de poder retomar aquele ritual das noites. E assim foi, por muitos anos, embora eu nunca tenha deixado de maravilhar-me, a cada ano, com o retorno da minha companheira, de quem apenas sabia o nome – Madalena – e para quem me habituei a escolher os livros que contava que seriam do seu agrado, reunindo-os ao longo dos meses, antecipando o prazer de lê-los para ela.

 

Para os solitários, os anos deslizam sem que nos detenhamos neles, um e outro, sempre iguais, apenas o nosso reflexo vai mudando pouco a pouco, a espessura da pele, a profundidade das rugas, a tonalidade do cabelo, já sabem. Mas ela manteve-se igual ano após ano, nenhum vestígio da passagem desse tempo veio macular o seu rosto que me parecia a cada ano mais jovem, quase infantil. Se nos primeiros anos eu acreditava que era eu quem condescendia em partilhar as minhas leituras com ela, aos poucos comecei a perceber que era ela quem concedia o seu tempo, que era amplo, muito mais do que o meu, mas que ela podia ter concedido a outro.

 

E assim ficávamos, nas noites de Verão, com a janela aberta para a alameda de tílias por onde por vezes entrava alguma borboleta nocturna, ali estávamos, um leitor e a sua ouvinte, sem jamais trocar uma confidência, sem nunca ousar perguntar o que não desejávamos ouvir. Pergunto-me agora se aquelas escassas semanas de Verão no hotel das termas não foram, afinal, a mais intensa parte da minha vida, aquela que, por ironia, passei ao lado de quem já não vivia?

1 Comment

  1. O cerne, o coração, a alma do que é a beleza de um texto literário! Não me incomoda que não concordem comigo quando digo que a arte literária é a mais bela, a mais difícil e a menos acessível das expressões artísticas. É que aquilo que para aí se lê está longe, por vezes muito longe da arte de escrever. Mesmo no campo dos chamados consagrados.

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