OS MEUS MESTRES – 4 – por Dorindo Carvalho

 

 

Não vou falar da sua obra porque ela é sobejamente conhecida. Médico, «acorrentado» a todas artes, Fernando Namora autor de extensa obra literária que se desenvolve ao longo de cinco décadas e onde se deve ressaltar a sua precoce vocação poética.

 

No ano em que abri os olhos para ver este mundo (1937), Namora edita o seu primeiro volume, Relevos, livro de poesia. Talvez por esta coincidência escolhi o Poema da Utopia para ilustrar este pequeno texto.

 

Poema da Utopia

 

A noite
caiu sem manchas e sem culpa.
Os homens largaram as máscaras de bons actores.
Findou o espectáculo. Tudo o mais é arrabalde.

No alto, a utópica Lua vela comigo
E sonha coalhar de branco as sombras do mundo.
Um palhaço, a seu lado, sopra no ventre dos búzios.
Noite! Se o espectáculo findou
Deixa-nos também dormir.

 

 Se a obra de Fernando Namora em Poesia não é a mais conhecida, igualmente também não é tão divulgado o Namora pintor.

 

Sobre pintura falamos algumas vezes. A sua presença na exposição que realizei em 1972 na galeria do Diário de Notícias no Chiado, foi muito agradável e incentivadora.

 

 

 

Conheci o Namora na casa editora onde na altura ele publicava. Realizei algumas capas para os seus livros. Casualmente não foi sobre a capa de um livro seu que recordo constantemente estas suas palavras de estímulo: Esta capa é boa em qualquer lado do Mundo.

 

O nosso contacto foi maior quando, como desenhador gráfico, passei a executar trabalhos para o laboratório farmacêutico onde o Fernando Namora dirigia a área promocional.

 

Muito para além dos temas do trabalho, tanto conversamos, muito o ouvi, e com ele muito aprendi. É para mim um enorme agrado, e inteiramente justo, prestar-lhe esta homenagem de mencioná-lo como um dos Meus Mestres.

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