” A Política não se faz pelo em leilão da Bolsa “, afirmou o General de Gaulle em 28 de Outubro de 1966, quando o mercado de acções se afundava depois de ter subido exageradamente em 1962. O economista, André Orléan, Director de investigação do CNRS, recordou esta fórmula para mostrar, numa entrevista ao Le Monde, que o poder político está agora sujeito às decisões dos mercados financeiros. Da mesma forma, ele considera “desproporcional” o pânico que se seguiu à degradação da nota pela França pela agência de rating Standard andPoor’s. André Orléan, acaba de receber o prestigioso Paul Ricoeur Award pelo seu livro L’Empire de la valeur. Refonderl’économie (Seuil, 2011). Neste livro, ele desenvolve uma crítica de fundo sobre os economistas “neoclássicos”, que querem que acreditemos na “objectividade” dos valores financeiros, quando descreve um sistema subjectivo.
Para evitar falsas avaliações, as crises e as quedas cíclicas mas também as políticas de rigor impostas às populações, André Orléan afirma que é necessário repensar a noção de valor, compreender os seus limites, voltar a dar força ao poder político. É para enfrentar esta reflexão que André Orléan preside à Associação francesa de economia política (AFEP), que defende o pluralismo no ensino e na investigação em economia. É também um dos quatro signatários do manifesto dos economistas aterrados que põem em causa a política da União Europeia no tratamento da dívida soberana. O quarteto acaba também de publicar Changer d’économie! Nos propositionspour 2012 (éd.
Quem governa a Europa ?
Na zona euro, é o mercado. O poder político conforma-se com as prioridades que estes lhes estabelecem e temem também as suas avaliações. Viu-se ainda agora com a degradação da França por Standard andPoor’s. Ao mesmo tempo, o mercado financeiro é um soberano profundamente errático e incoerente. Ele nunca está satisfeito como pode ser visto com estas políticas rigorosas que são acompanhadas de baixo crescimento e esta baixa taxa de crescimento acarreta ela própria novas dificuldades nto, da própria fonte novas dificuldades. No final, temos a impressão de que, na zona euro, a confiança nunca mais voltará.
Historicamente, o primado do político, ou seja, da sua capacidade em enquadrar os interesses financeiros, teve como instrumento essencial o Banco Central. Não devemos perder de vista esta realidade: é através do poder monetário que foi possível prosseguir o interesse colectivo. Mas isso pressupõe que o Banco Central esteja colocado sob a autoridade do poder político. Isso é o que se verifica nas principais democracias. No entanto esta arquitectura, que já deu bem as suas provas, não foi adoptada pela zona euro. Um Banco Central Europeu (BCE) separado do político é uma coisa muito má. É, por si só, a expressão de uma crise muito profunda de democracia europeia, da sua impotência congénita. Com efeito, seria mais exacto dizer que a autonomia radical do Banco Central, mais do que ser o resultado de uma doutrina, é que a consequência do facto de que não existe nenhuma soberania europeia de facto. Porque a história mostra que um verdadeiro soberano sabe captar para seu benefício o Instituto emissor, independentemente do seu estatuto jurídico. Por outras palavras, o primeiro passo de um poder político real europeu seria colocar o Banco Central sob a sua autoridade.
Quando ouve falar de que os ” mercados impõem os seus ponto de vista “, de que mercados é que se está falar?
Quando dizemos “mercados”, não se está a falar da economia de mercado ou dos mercados de bens. Está-se a falar dos mercados financeiros. Fala-se deles como se eles resumissem toda a economia, e que eles eram racionais e estáveis. Se eles fossem aptos a produzir estimativas correctas dos valores e dos preços, o seu papel seria útil. O problema vem do facto de que não é nada assim. Eles são, deste ponto de vista, muito diferentes dos mercados de bens. Estes últimos tratam com bens reais, tendo uma utilidade que os consumidores podem julgar, enquanto os mercados financeiros assentam em apostas subjectivas, especulativas. Estes são então mercados de promessas. Eles vendem e compram antecipações. A sua lógica é de natureza mimética: cada investidor se posiciona neste mercado com base no que os outros fazem. Eles assemelham-se fortemente a este tipo de medias que procuram descobrir não as informações importantes, mas aquelas que são susceptíveis de serem apreciadas pelo público.
Por esta razão, um mercado financeiro é por definição móvel, instável, cheio de derrapagens descontroladas. Inevitavelmente aí ocorreram bolhas, que explodem quando o fosso face à realidade se torna demasiado grande para ser negado. Mas a teoria neoliberal quer-nos fazer crer que os mercados financeiros dão valores relevantes, preços objectivos e que no final é a auto-regulação que vai prevalecer. É assim que a financeira acção é vendida às populações.
Esta construção foi desmentida pelas crises que se sucedem desde 1987 ao tsunami financeiro de 2007 e à crise actual. Não nos podemos fiar nos preços financeiros, quer se trate das taxas de juros, quer seja da taxa de câmbio quer ainda do preço de uma acção.
Porque é que é sempre a sua estratégia que acaba por vencer?
Nem sempre foi assim. Nós estamos a viver hoje uma situação completamente original. Nos capitalismos que procederam a situação actual quer se fale do fordismo do modelo renano, do management ou outro, o controle das empresas estava ou nas mãos dos sues proprietários ou então, quando o capital estava muito diluído estava nas mãos das direcções da empresa. Daí se segue que havia uma grande diversidade de opiniões e de avaliações. Nestes capitalismos, apenas o “flutuante” era i deixado para o mercado, o resto era gerido por instituições específicas, quer sejam famílias, bancos, à maneira do capitalismo tipo renano, ou o Estado, como no caso francês.
Desde a década de 80, liquidaram-se gradualmente os blocos de controlo, julgados demasiado caros, e porque os jogos no mercado mostravam fortes oportunidades de lucro. Com esta evolução surgiu uma nova forma de capitalismo, financeirizado, onde a diversidade de pontos de vista é muito menos marcada porque o mercado aí constitui ele mesmo o centro das avaliações económicas…
O capital financeiro acabará por globalizar e dominar todas as actividades?
Que seja o mercado das acções, que define a norma de rentabilidade exigida, o mercado de câmbio, que determina o valor do euro, ou o mercado da dívida, que impõe um rigor orçamental, a esfera financeira domina todas as escolhas. No entanto, ao contrário dos mercados de bens, a finança tem uma dimensão directamente colectiva. Ela compreende a economia na sua totalidade a partir de uma análise da sua macroeconomia, das suas instituições e da sua política. Por conseguinte, o primado do político no domínio da avaliação global é ultrapassado pela finança. Esta é uma situação sem precedentes, que põe em perigo a vida democrática.
Assim, a Standard &Poors justifica a sua degradação da notação atribuída à França estimando que o acordo europeu de 9 de Dezembro de 2011, sobre a “regra de ouro” orçamental não constitui um “progresso suficiente” para fazer sair a zona euro da crise. Não há que ficar ofuscado com um tal juízo, com uma tal opinião: a democracia pressupõe a liberdade de opinião, e Standard andPoor’s pode estimar que a política seguida põe em perigo a dívida pública.
O que levanta problema é o peso desproporcionado que é dado a esta opinião. Toda a gente já se esqueceu de que estas agências se enganaram várias vezes – aquando da crise no Sudeste Asiático em 1997, no caso Enron ou na avaliação de produtos titularizados na actual crise? Este peso desproporcionado é um reflexo da impotência das autoridades políticas para afirmar uma outra visão do mundo que não seja a dos interesses financeiros.
Se lhe pedissem para dar um exemplo do poder dos mercados, que exemplo daria?
No final de Dezembro de 2011, o Banco Central Europeu (BCE) decidiu emprestar 489 mil milhões de euros para os bancos a preço muito baixo, 1%. Ao mesmo tempo, um país como a Itália devia ter contrair empréstimos junto dos bancos nesse momento à taxa de 5% ou 6%. Muitas pessoas ficam surpreendidas com esta diferença de tratamento a favor dos bancos. O BCE é na verdade o poder financeiro na Europa. Perto de 500 mil milhões de euros, é considerável, e concedidos como empréstimos à taxa de 1%, com maturidade de três anos, é coisa nunca vista! No entanto, os bancos já não se emprestam mais entre eles, uma vez que as suas notas têm sido degradadas, os seus balanços continuam ainda a serem opacos, a desconfiança reina. E, não viram chegar a crise de sub-primes, e nisso demonstraram uma incompetência altamente significativa e tiveram que ser salvos pelo dinheiro público… Estamos bem longe do dogma da auto-regulação dos mercados financeiros! Além disso, por uma parte significativa do financiamento atribuído aos bancos europeus não vai para a economia real, mas permanece nas contas dos mesmos bancos junto do BCE!…
Porque é que estes 489 mil milhões de euros do BCE vão para os bancos e não directamente para os Estados? O BCE tem os meios para intervir e para comprar dívida. Mas desde que se trata de apoiar os Estados ficam logo a protestar: “isto fará com que a inflação dispare, nós vamos fazer descer o valor dos activos do BCE “.
Quando se trata de bancos, não se fala mais de riscos inflacionistas ou de solvabilidade. Colocam-se os países em dificuldade com a sua dívida nas mãos dos mercados financeiros, que irão definir à sua vontade o preço de sua assistência a seu gosto: actualmente, a dez anos, 6,5% para a Itália e 5% para a Espanha. Os países da Europa do Sul estão condenados a consagrar uma parte considerável das suas receitas orçamentais para o reembolso de sua dívida, obrigando-os assim a uma redução drástica nas despesas públicas o que é dramático para a sua população.
O BCE não tem o direito de emprestar aos Estados. Devemos lamentá-lo?
Sim. É uma escolha discutível. Há um dogma da independência do BCE para com os Estados, o que, na verdade, é imposto pela Alemanha. No entanto, seria racional apoiar os países solventes com dificuldades por causa da instabilidade nos mercados. Na verdade, é assim que agem todos os principais países, Estados Unidos, Grã-Bretanha, Japão, mas não a Europa. Resgatar a dívida não resolveria todos os problemas. Mas isso mudar profundamente o clima actual. A Alemanha impõe a independência do BCE porque ela receia a insolvabilidade dos países do Sul. Será que ela se engana? Confunde-se crise de solvabilidade e crise de liquidez. A Itália tem dívidas significativas, mas continua solvável. É estúpido e perigoso permitir que este país pague juros tão elevados Se o BCE comprasse a dívida pública, as taxas de juros imediatamente desceriam. Poder-se-ia então abordar as questões fundamentais, sociais, ecológicas, sem esquecer o crescimento. Mas nós estamos paralisados pela intransigência alemã. Estamos numa situação próxima da de entre as duas guerras, quando os países europeus aplicavam políticas deflacionistas o que levou ao desemprego em massa. É assim porque a Europa continua a estar muito marcada pela sua adesão ao capitalismo financeirizado.
Como é que se pode voltar a dar toda a sua força à governança politica?
Os historiadores dizem-nos que a democracia não se identifica a regras formais. Se o sufrágio universal é um elemento importante da vida democrática, não é suficiente convocar todos os anos o Parlamento Europeu para se ter uma verdadeira democracia. Esta ainda será puramente formal se não conseguir produzir uma verdadeira comunidade. No entanto, nada disto existe na Europa – é a justaposição de 27 órgãos políticos que nunca se misturam. A política europeia é reduzida a reuniões de peritos dominados por questões técnicas – veja-se a “regra de ouro” – sem que ninguém levante a questão do consentimento europeu. O único modelo verdadeiramente europeu é o que é proposto no debate é o modelo que propõem os mercados financeiros! Deve ser dito que a Europa está intoxicada pela financeirização, o que reflecte a omnipresença dos homens das finanças nos locais do poder. Hoje, a Goldman Sachs ultrapassou a ENA no que diz respeito à colocação de altos quadros na Administração Europeia.
O isolamento nacionalista será uma solução?
Eu penso que a crise europeia pode levar alguns a ter uma certa nostalgia do que existia “antes” e que até mesmo deseje aí regressar : “Deixemos o euro, seremos capazes de fazer mexer as taxas de câmbio, gerir a dívida, decidir uma política industrial nacional, etc.”. Mas a indústria é agora global. As alavancas que teríamos ao voltar às comunidades nacionais também não estariam mais à altura dos problemas. Tenho medo de que não tenhamos outra alternativa que não seja a de fazer aparecer uma política europeia. Ao mesmo tempo, tudo mostra que se trata de um projecto problemático. Supondo mesmo que os governos nacionais abandonam o seu comportamento actual a favor de uma Europa financeirizada, será muito difícil garantir que a justaposição dos povos em destinos distintos seja capaz de produzir um projecto novo. É uma questão de história comum, não de gestão.
Esta ausência de solidariedade não será o resultado de uma profunda crise social que os povos estão a atravessar?
Há seguramente um grave mal-estar na Europa, a ideia de que o ascensor social deixou de funcionar, que as políticas já não protegem mais as populações e de que se deixam os serviços públicos a degradarem-se. A precariedade aumenta fortemente, a pauperização igualmente, e tem-se estado também a assistir a uma desintegração sindical e muitas pessoas têm já a impressão de que nada pode ser mudado. Um sentimento do irremediável estende-se assustadoramente pelas populações. E tudo isto actua na crise da representação política europeia, que aparece cada vez mais como estando desligada da realidade das populações.
Porquê, ter fundado, com outros, os Economistas aterrados e publicado o livro ” Mudar de Economia- Changerd’économie !” ?
Apesar do impacto global da crise de subprimes, o diagnóstico dominante nunca questionou a validade do papel central atribuído aos mercados. Nos diferentes G-20, é verdade que se criticou a opacidade das operações financeiras, os bónus dos traders, os erros de agências de notação, os paraísos fiscais, mas a financeirização nunca foi colocada em questão. A palavra de ordem é a de uma finança tornada transparente porque só assim é eficaz. Nos Economistas Aterrados, não estamos nada de acordo. Pelo lado da transparência, as reformas avançam muito lentamente. Não se tem visto grande coisa, a não ser a obrigação dos bancos aumentarem o valor dos seus fundos próprios. O que se tem-se visto, isso sim, é principalmente os lombies bancários que resistem tanto quanto lhes é possível. O nosso diagnóstico é que a finança ganhou demasiado peso na macroeconomia. Para mudar a economia, eu quero aqui sublinhar a promulgação de uma nova lei Glass-Steagall. Esta reforma, que foi aprovada nos Estados Unidos em 1933 e, depois, abandonada em 1999, estabelece uma incompatibilidade radical entre a profissão de banco do depósito e de banco de investimento. Trata-se de dar a conhecer publicamente a perigosidade da especulação e de querer proteger o circuito dos créditos e dos depósitos. Em suma, trata-se também de querer proteger o sistema de crédito.
Uma das propostas dos economistas aterrados é a que os países da zona euro devem poder praticar políticas orçamentais autónomas – isto implicaria que o BCE garantiria as dívidas. Propomo-nos também reduzir os nichos fiscais e de tributar mais fortemente os rendimentos mais elevados. Gostaria de acrescentar que os bancos devem ser incentivados a fazerem o que é da sua profissão, a saberem investir na economia real, criadora de bens e de empregos. É também necessário reorganizar a actividade bancária, e afastá-los das actividades especulativas. E, cada vez que seja proposta ima a uma inovação financeira, questionar se esta é boa ou não para a economia real. Isto seria uma completa mudança de direcção.
André Orléan, “Dans la zone euro, c’est le marché qui gouverne” LE MONDE, CULTURE ET IDEES | 22.01.12





