Novas Viagens na Minha Terra Série II Capítulo 49 – por Manuela Degerine

Um Café na Internet

 

 

 

 

 

 

De Santarém à Golegã (continuação)

 

O comboio deixa-me na estação às oito e cinquenta e seis. Dirijo-me para a Ribeira de Santarém e logo encontro as setas amarelas. Respiro aliviada… Durante toda a noite andei em sonhos à procura delas.

 

Atravesso a bonita ponte de Alcorce, avanço pela beira da estrada, viro à esquerda, sigo por um caminho branco, um pouco arenoso, entre milheirais, vinhas que tiveram uvas, campos que tiveram tomate, perdendo mais de uma vez a sinalização, por ser invisível ou inexistente, mau começo, oriento-me pela direcção, bastante inquieta, acabando mais adiante por reencontrar as setas amarelas. A princípio passa por mim um corredor, mais tarde sou cruzada por jipes com homens que parecem vigiar os campos, pois roubam-lhes cobre e outros materiais, li no jornal, no resto do tempo não vejo ninguém, talvez por ser feriado e as colheitas estarem feitas. Apesar de entrarmos no Outono, não descubro uma folha amarela. E esta temperatura matinal… Parece um mês de Agosto.

 

Por ora mochila não me pesa, o calor não me faz sofrer, caminho portanto com gosto, por caminhos onde nunca passei, na descoberta da minha terra, enquanto como uma maçã, saboreio chocolate preto…

 

Passo pela quinta Cruz da Légua, que me parece abandonada, quase em ruínas, sic transit gloria mundi, um mundo que desampara a agricultura, entro em Vale de Figueira às dez e meia, entretanto já litro e meio transitou das garrafas para a minha roupa, sic transit aqua corporis: transpiro abundantemente. Atravessei a campina com verbos latinos, textos, regras, exemplos, sunt qui sciant, est quem omnes admirentur, versões e retroversões aos trambolhões… A nossa memória funciona bizarramente.

 

Muitas vezes me perguntam… Durante oito, dez horas, tanto tempo, enquanto caminhas, pensas em quê? Ora bem… O espaço parece-me longo mas nunca o tempo. Atento na sinalização, dou uma olhadela ao roteiro, se levo algum, vejo a paisagem, tiro fotografias, converso, se vou acompanhada, pode acontecer que faça um haiku, que prepare uma página de diário… Porém, alguns dias, sofro uma avaria cerebral que se manifesta na repetição de um verso, à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo, de um refrão ou dois, a vida é feita de pequenos nadas, mas por que é que a gente não se encontra, cuja música me ritma a caminhada, sem eu lutar contra esta forma de loucura, preferindo compará-la com as frases que, em algumas formas de ioga, servem de suporte à meditação. Muitos peregrinos dizem que, enquanto caminham, rezam; o que eu compreendo. Portanto esta manhã o latim escolar ritma-me a caminhada… Podia ser pior.

 

(Continua)

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