O desastre total que é política da austeridade – por Paul Krugman

Nota de Apresentação do texto de Paul Krugman: 

 

Vi hoje Passos Coelho na televisão e ouvi-o. É claro que ao nível da mistificação muito bem aprendeu a lição e veja-se a sobranceria com que mente ao povo português, veja-se a facilidade com que manda para as urtigas os anseios de uma juventude que não tem emprego e que garantidamente não o terá se continuarem a serem aplicadas, custe o que custar, as medidas de austeridade por Passos Coelho preconizadas, veja-se a sobranceria com que se diz disponível para ouvir as queixas das pessoas face à sua política, que custe o que custar é para ser aplicada e não contestada. O mínimo de decência seria explicar a quem o entendesse ou a quem o lesse ou a quem o ouvisse quais são os estudos económicos em que exactamente se baseia para poder afirmar que temos que “ acreditar que está a ser feito o que é necessário para que o país volte e crescer e a ter emprego” ou ainda: . “Termos um programa de assistência económico-financeira que vai durar até 2014 e nos termos desse programa está previsto que, para o final deste ano, comece já a haver uma inversão do ciclo”. Bom, não explica, não o faz e, pela parte que me toca, não o faz porque o não pode fazer. Esta a mistificação que avassala toda a Europa com um conjunto de governos que mais parecem funcionários médios dos grandes mercados, sem que eles saibam bem o que isto significa, a defender a austeridade como suposto mecanismo para a expansão económica, sem que nos digam uma única referência, um único estudo científico em que se apoiam para as afirmam que proferem. O texto que abaixo se segue é uma montagem de diversos artigos de Paul Krugman e vale a pena pelo menos olhar para os gráficos e comparar o que se passou em várias crises e com várias retomas com o que agora se está passar para percebermos bem que a quase totalidade, senão mesmo a totalidade dos nossos governantes, das Instituições Europeias e Internacionais, ou são ignorantes ou são claramente mentirosos ou pior ainda são puros oportunistas. Esta parece ser a lição que se pode tirar do texto de Paul Krugman e dos gráficos produzidos pelo NationalInstituteofEconomicand Social Research, da Inglaterra.

 

Quem fala como Passos Coelho das duas, uma: ou mente ou nem um manual destinado a alunos do primeiro ano de uma qualquer Faculdade de Economia como o de Paul Samuelson alguma vez na vida terá lido. Como o afirmaKrugman: “Desde há meio século atrás, qualquer economista – ou mesmo todo qualquer estudante que tenha lido o manual universitário “Economia” de Paul Samuelson – nos teria dito que a austeridade em tempos de depressão é sempre uma ideia muito má. No entanto, os políticos, os peritos e, lamento dizê-lo, um grande número de economistas decidiram, em grande medida para fins políticos, esquecer tudo o que sabiam. E milhões de trabalhadores agora pagam o preço da sua amnésia intencional.”

 

E boa leitura do texto de Krugman.

 

Júlio Marques Mota

 

O desastre total que é política da austeridade

 

 Na semana passada, o NationalInstituteofEconomicand Social Research, um grupo de reflexão britânico, publicou um gráfico espantoso que compara a actual crise com as recessões e as retomas passadas . Com um detalhe importante – as mudanças quanto ao PIB real desde que a recessão começou – parece que a situação na Grã-Bretanha é pior do que quando se deu a Grande Depressão.

 

Quatro anos depois do início da Depressão, o PIB britânico tinha de novo alcançado o seu ponto mais alto; agora, quatro anos depois de iniciada a grande Recessão, a Grã-Bretanha está muito longe de uma retoma. Graficamente:

 

 

 

 

Não é que a Grã-Bretanha já o único país nestas circunstâncias. A Itália também está em tão grandes dificuldades hoje como estava na década de 1930 – Para já não falar da Espanha queestá claramente a caminho de uma dupla recessão , isto faz três das cinco maiores economias Europeia a fazerem parte do grupo em que “isto está pior do que antes”. Sim, existem algumas reservas e complicações. Mas isso ainda soa sobretudo como sendo o insucesso espantoso de uma determinada política. E é o caso bem particular da doutrina da austeridade que domina desde há dois anos as discussões das elites políticas quer na Europa quer , em larga medida também, nos Estados Unidos .- Graficamente:

 

 

 

 

Vejamos agora a questão das reservas a que nos referimos: o desemprego britânico foi muito mais alto na década de 1930 do que o que é hoje, porque a economia britânica estava já em recessão antes de iniciada a depressão – e isto por culpa de um errado regresso ao padrão-ouro . Por outro lado, a Grã-Bretanha sofreu uma moderada Depressão em comparação com a dos Estados Unidos.

 

Graficamente:

 

 

 

 

Quando mesmo assim, fazer melhor que o que se viveu em 1930 não deveria ser um desafio difícil de enfrentar . Não apreendemos nós muito em termos de gestão económica nos últimos 80 anos? Assim é, na verdade, mas na Grã-Bretanha e como noutros países aliás, a elite governante decidiu lançar pela janela estes mesmos conhecimentos tãoduramente adquiridos para se basear agora e em vez disso, na ideologia bem prática dos pensamentos piedosos. A Grã-Bretanha, em particular, era suposto ser a montra da “austeridade expansionista”, esta noção que, para combater a recessão, se deve cortar nas despesas públicas em vez de as aumentar e que com isso seríamos pois levados à retoma económica mais rapidamente

 

Aqueles que nos dizem que gerir os nossos défices e promover o crescimento são coisas contraditórias estão enganados,” disse David Cameron, primeiro-ministro britânico. “Ele não é possível deixar de resolver a primeira, a questão dos défices, para procurar promover a segunda, a questão do crescimento económico.”

 

Graficamente

 

 

 

 

Como é que a economia se poderia desenvolver quando o desemprego era já tão elevado e que as medidas dos governos reduziam directamente ainda mais o emprego? A confiança! “É assim que eu penso, realmente”, disse Jean-Claude Trichet, então Presidente do Banco Central Europeu e fervoroso defensor da doutrina da austeridade expansionista, “que nas actuais circunstâncias, as medidas que inspiram confiança irão gerar a recuperação económica, em vez de a impedirem porque a confiança é hoje o factor-chave.

 

Tais alegações sobre a Fada da Confiança nunca foram plausíveis; os investigadores no Fundo Monetário Internacional e em outros lugares desacreditaram rapidamente as chamadas provas mostrando em que é suposto provar que a redução dos gastos públicos cria postos de trabalho. No entanto, algumas pessoas influentes de ambos os lados do Atlântico têm elevado até às nuvens os elogios aos profetas de austeridade, incluindo nestes Cameron, uma vez que a doutrina da austeridade expansionista era consistente com as suas próprias necessidades ideológicas.

 

E é por isso que em Outubro de 2010 David Broder, que encarnava a sabedoria popular fez uma homenagem à coragem de Cameron, em particular para ter “ignorado as advertências dos economistas sobre estas medidas súbitas e severas que iriam curto-circuitar a retoma britânica e iriam assim lançar o país numa recessão”. Ele tinha em seguida apelado ao presidente Barack Obama para ” actuar como Cameron” e, assim, prosseguir “uma radical e imediata revisão do Estado-Providência”.

 

No entanto, é surpreendente que todos esses avisos dos economistas eram de facto relevantes. E nós somos uns afortunados por termos a sorte de que Obama não tenha finalmente decidido ” actuar como Cameron”. Isso não significa que tudo está bem na política americana. É verdade que o Governo Federal tem evitado a austeridade total. Mas os Governos locais e estaduais que devem ter as contas equilibradas, cortaram nas despesas públicas e no emprego à medida que a ajuda federal está em declínio – e isto tem pesado muito sobre a economia como um todo. Sem estes cortes na despesa, já poderíamos estar no caminho para a recuperação económica; no estado actual das coisas, esta retoma ainda não está estabelecida.

 

E bem poderíamos ter caminhado na direcção errada como se faz também na Europa continental, onde as medidas de austeridade tem o mesmo efeito que na Grã-Bretanha, com um grande número de sinais que indicam uma recessão este ano. O que é irritante nesta tragédia, é que esta era completamente desnecessária. Desde há meio século atrás, qualquer economista – ou mesmo todo qualquer estudante que tenha lido o manual universitário “Economia” de Paul Samuelson – nos teria dito que a austeridade em tempos de depressão é sempre uma ideia muito má. No entanto, os políticos, os peritos e, lamento dizê-lo, um grande número de economistas decidiram, em grande medida para fins políticos, esquecer tudo o que sabiam. E milhões de trabalhadores agora pagam o preço da sua amnésia intencional.

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