A PEDAGOGIA DO OPRIMIDO – AS MINHAS RECORDAÇÕES DE PAULO FREIRE – 2 – por Raúl Iturra

 3. Os conceitos.

 

Era o que o Paulo costumava insistir que deviam ser usados. Os conceitos das pessoas. Não os das teorias das ciências. Mal entendíamos nós, os seus etnocêntricos discípulos, de que o camponês, ou o membro de um bairro de lata, ou um membro do Sindicato de alguma indústria, fossem capazes de terem teoria. A teoria era fruto da experiência. Qual, a dos inquilinos? A vida, diz Paulo, a vida é a experiência. E é na vida que são retirados os conceitos, no convívio com as pessoas: no ver, ouvir e calar, até saberem bem o que se fala e o conteúdo da conversa. Esse conteúdo da conversa é o que é para debater.

 

A literacia de hoje, a antiga alfabetização na qual tantos trabalhamos no mundo todo, está em fornecerem às pessoas os textos que manipulam no seu quotidiano. A literacia não é o ler e o escrever do alfabeto. Alfabetizar é deixar esclarecido – consciente – na mente popular, o que a mente popular fala todos os dias, sem dar por isso. A oralidade debatida, é a melhor aprendizagem para a ação. De todas até agora invocadas no texto, esta foi a melhor frase do Paulo. A mais pedagógica para nos, para os alfabetizados do mundo, a seguir. Ação que é entender o funcionamento da terra, que é vista e trabalhada pelo costume, mais que pelo hábito de fazer a seguir o debater. Porque o hábito era, por séculos, de fazer sem debater, de fazer por ver: o que não se explica, não fica consciente. E o debate faz consciência.

 

Consciente está em vós, acrescentava o Paulo, o método teórico, esse com o qual, os vossos pais e os seus amigos, vos refreiam a espontaneidade e as iniciativas. Isso é que é preciso aprender para depois relativizar. E o relativismo para vós, é ouvir, ver e calar. Nunca ver, ouvir, calar, sentir, pensar, agir. Mas, os vossos vos travam. Porque o que é sabido na ciência, não mobiliza ninguém, não é bandeira de luta, mas sim do vosso luto pela perda dos afeitos, do luto rural e popular, pela perda do saber reprodutivo.

 

E assim foi que fomos separando o nosso ideário social, e o popular. O popular não era social, nem podia ter esse luxo de partilhar, capaz de desestabilizar o trabalho caridosamente permitido pelo patrão. Era altamente individual, para poder estrategizar comportamentos com novos recursos, a serem usados em silêncio, ou no silêncio doméstico. Para ganhar, com a ventagem da produção melhorada, o favor do senhor. Era altamente genealógico, da memória do que os pais e os avós faziam, para fazer outra vez. Em grande silêncio, aprendíamos a viver com eles, e a fazer uma lista dos temas conscientes nas palavras, e dos não conscientes no agir, para depois debater. Primeiro, com o Paulo e nós; depois, com os grupos que estudávamos. Quando eu aprendi que estudá-los, era ouvi-los sem comandar. E debater depois de observar, ouvir, calar, sentir, pensar, debater, agir.

 

4. O debate.

 

 Resultava sempre da correlação entre a genealogia dos indivíduos do grupo, e que no tempo dos seus, tinha acontecido. Não era suficiente traçar o genograma; ao pé de cada geração de pessoas, escrever os acontecimentos históricos relevantes que tinham sido o contexto da vida da pessoa ou pessoas conhecidas. E genogramas dos proprietários das indústrias ou latifúndios, para comparar.

 

Comparação de genealogias em genogramas contextualizados, sem comentar. Porque o comentário do alfabetizador, investigador o professor das escolas ou grupos de debates organizados pelo País fora – Paulo no Brasil, na Tanzânia, no Chile – Eu, no Chile, na Escócia, na França, na Espanha, na Galiza e no Portugal especialmente, na Inglaterra. Metodologia não destinada a fomentar raiva nem ódio, nem desrespeito de si e dos outros: isso, era impossível de gerar em pessoas que tinham uma hierarquia vincada de emoções e de estratos sociais. Amor aos progenitores e amor aos descendentes, emoção que era a metáfora do pão, do vestido, da proteção. Pão, vestido e segurança que estavam adstritos ao proprietário dos bens pelas próprias pessoas, cuja memória individual reproduzia a História ouvida aos avós, que contavam o que os seus avós já tinham referido: dezenas de anos de factos reproduzidos iguais, semelhantes, sempre com um senhor à cabeça. Senhor que sabia que isolar a sua hierarquia de visão e ouvidos do povo.

 

Senhor que era temido, e por isso amado, para que a sua mão não fosse bater nos pobres, que ficavam sem vestido. Dos senhores só era bom falar para desmistificá-los, na medida em que o debate comparativo mostrava de quem a vantagem, de quem a perda, e no quê. Ensinar raiva não só não era possível. Não era também preciso. Havia já raiva histórica nas pessoas contra histórias sabidas de si próprias, contra os mais próximos que não queriam entender. Uma ausência de identidade entre o motivo da raiva, e a relação ou interação que a causava. Aprendi que só as crianças eram capazes de dizer quem era o culpado da miséria, quando brincavam. Aprendi que a festa, o carnaval, a procissão, o ritual interativo, permitia as pessoas desabafarem e definir o perfil de quem faz dono, e no que é que faz. O aprendi do Paulo, que sempre o comentara. 5. As mulheres. Eram as mais espontâneas. Falavam sem medir as palavras. Ou seu estatuto de seres inferiores, assumido cedo na vida. De seres do pecado, do demónio, do mundo e da carne, o facto de serem bruxas, precisadas de serem batidas e mantidas á distancia – exceição para procriar sem desejo com a mulher sacramental e para apagar o desejo com amante e a prostituta, conforme a Concilio de Trento do Século XVI tinha escarafunchado nas mentes católicas colonizadoras e colonizadas – Mulheres situadas conjunturalmente em uma situação privilegiada para falar mal, para falar dos outros, mal. Para os mexericos, para as conversas de análise do perfil dos donos, para transferir a informação. É o que cedo aprendemos, de que eram pessoas a saber menti ou verdade parcial, mas a saber por entender contextos observados sempres, desde fora.

 

Mais de mil senhoras, andaram nos cursos que, com a metodologia criada, organizámos durante a época em que estive no Chile, quando Allende Presidia a República. Lá iam elas, às sessões da nossa Escola Camponesa, organizada no campus rural da nossa Universidade Católica do Chile; orgulhosas de serem universitárias, colocavam a tiara académica como uma algema. Algema que as fazia falar. Debatíamos o conceito trabalho. E o conceito igualdade perante o sexo masculino. De trabalho, nem queriam dizer um ai, porque era muito pesado. Quanto aos seres masculinos, eram tontos porque nem reparavam que elas mandavam e eles calavam: a comida era com elas; as crianças, criadas por elas; o trabalho a fazer, aceite por elas. A vertigem que em 1973 me levou outra vez fora do Chile, queimou os meus registos e os quilómetros de fita que, com Blanca Iturra e Nilsa Tapia, as minhas assistentes, tínhamos gravado desses debates. Apagadas ao longo de uma noite e um dia pela minha mulher, caso fossem requisitadas pelos novos aos da Nação. Mas, ficou a memória que me permite escrever estas linhas. Essa memória sintetiza-se no dito; e na lembrança das mulheres a dizer: “Oiça lá, Don Raul, não fale mais, que já nem quero voltar a casa! Haja Deus, para que as paredes explodam e tudo venha ao chão!”.Dois maridos abordam-me um dia e dizem: “então, o senhor é o professor da minha mulher? Mal raio o parta! Antes, era eu a mandar, agora tenho que consultá-lo todo”. Enquanto o outro acrescenta “Ainda bem, Don Raul, já não sou só eu a ter que pensar em tudo”.

 

O Paulo tinha-me ensinado a base; a pesquisa, materializou-me as ideias. O terramoto social que o neoliberalismo lançou no Chile a 11 de Setembro de 1973, acabou com a experiência de dois anos. Quer Paulo Freire, quer eu, a sair. A sermos deitados fora: ele, por ser estrangeiro. Eu, por ser chileno estrangeirado, conhecedor de ideias, muito graduado, traidor de classe, da minha classe. Deitado fora pelo Pai, pela junta ditatorial, pelas espingardas que iam fuzilar as ideias que mudam o mundo, ao fuzilarem á pessoa. Conseguimos fugir: Paulo, pela Embaixada Sueca; eu, pelo grande Pai que tive, Jack Goody e o meu hoje reformado Bispo, esse que ia de preto as populações, Carlos González Cruchaga. Uma filha nasceu-me, a filha do símbolo da vida renovada. Companheira deste continuado exílio. Mulheres nossas, que tomaram conta de nos.

 

(Continua)

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