SANDOKAN, O TIGRE DA MALÁSIA, NASCEU EM VERONA HÁ QUASE 150 ANOS- por Manuel Simões

 

Publicado no Estrolabio o ano passado 

Um Café na Internet 

 

 

 

 

 

Sandokan, o tigre da Malásia, extraordinário personagem que animou a fantasia de algumas gerações, completa no próximo ano 150 anos. E Verona, cidade que viu nascer Emilio Salgari em 1862, recordou-se dele pela primeira vez ao dedicar-lhe uma grande mostra, por altura do centenário do seu nascimento, mostra que tive a sorte de visitar no já longínquo ano de 1984. Além disso, pude frequentar outras iniciativas, entre as quais um congresso de estudos sobre a sua obra, que a cultura oficial sempre menosprezou. Mas, como frequentemente acontece, estes eventos constituiram uma ocasião perdida para reler um escritor tiranizado pelos editores, que exploraram com eficácia as suas dificuldades económicas ao ponto de o transformarem numa máquina de produção de aventuras em folhetins, que os leitores de Verona seguiam com paixão através das páginas do jornal local “La Nuova Arena”, precisamente a partir de 1884. A mostra de Salgari – a propósito, deve ler-se Salgári, mas quase todos os italianos pronunciaram sempre Sálgari, seguindo a tendência acentual da língua – abria com as fotografias que constituem o álbum de família e que restituem a conhecida imagem onde sobressai o bigode exuberante e risonho à maneira do rei Umberto I. Por vezes chegam a confundir-se personagem e autor, como se podia ver na legenda duma ilustração da época em que aparece Sandokan, na ponte da embarcação, abraçado a uma “princesa” da Malásia. Gostava que o retratassem assim, assumindo a posição dos seus heróis preferidos, ou a de lobo do mar percorrendo exóticas paragens e vivendo aventuras marítimas, levando a fantasia ao ponto de se autodefinir capitão da marinha de longo curso. Tudo isto não passava de ficção, de fingimento, embora tivesse frequentado uma escola náutica, sem concluir o curso, e defendesse acerrimamente o seu grau de “capitão” até ao limite de se bater em duelo com um cronista que tinha ousado duvidar desse estatuto. Da exposição faziam ainda parte os seus primeiros desenhos, os jornais que dirigiu, documentos, cartas e a fotografia da sua mesa de trabalho onde arquitectava as viagens pelo mundo desconhecido, imaginando as fabulosas aventuras sem sair de casa, ele que parece ter efectuado apenas uma viagem por mar, descendo o mar Adriático, de Veneza até Bríndisi. Mas esta circunstância não o impediu de criar uma atmosfera convincente, desde a integração dos seus heróis na paisagem exótica até ao pormenor dos instrumentos de defesa e ornamento, verdadeira colecção de objectos kitsch: das pistolas aos arcabuzes, das cimitarras aos punhais malaios. De resto, não poucos autores de narrativas de viagem construíram as suas obras através dum universo elaborado à mesa de trabalho, a partir, portanto, duma base fictícia. Bastaria lembrar, entre muitos casos, as “Viagens ou Tratado das coisas mais maravilhosas e mais notáveis que se encontram no mundo”, de John Mandeville, que se apresenta como relato da viagem à Palestina e ao Extremo Oriente na primeira metade do século XIV, com bem maiores responsabilidades de aparato “científico”, sem que o inglês tivesse saído da sua ilha. Tal como as narrativas de Salgari, são obras que se impuseram por terem sabido colher os aspectos excepcionais ou até grotescos de mundos impensavelmente longínquos (o realismo grotesco de que fala Bachtin) para os pôr em confronto com a nossa dita normalidade e racionalidade. O percurso salgariano pode dividir-se em três ciclos: o dos corsários, o da Malásia e o do Far-West (os mais frequentados), embora se possa falar igualmente dos ciclos menores, como o de África, o da Ásia ou do Polo. Um conjunto de 82 livros mais uma centena de contos, tendo como pano de fundo (e não raro como protagonista) o mar imaginário da sua fantasia e sonho, elemento privilegiado por um autor que, como vimos, se identificava como capitão da marinha. Decerto que é um corpo textual demasiado vasto para ser avaliado uniformemente em termos de qualidade; mas não deixa de ter razão um crítico como Piero Sanotto, num convite à releitura do criador de Sandokan: “Nas suas obras há também o desejo de justiça contra a prepotência , há a defesa das minorias, sem qualquer justificação para o colonialismo. E, neste aspecto, são muito mais educativas do que muitos textos escolares”. Com a sua linguagem colorida, por vezes feita de palavras inventadas, com os seus animais e lugares fabulosos e imaginários, a obra de Emilio Salgari apresenta-se ainda hoje com a frescura e o encanto capazes de interessar os jovens (e os menos jovens) leitores de livros de aventuras, como válida alternativa à violência gratuita de tantos subprodutos impostos pelos meios de comunicação.Deste modo, creio que se justificaria plenamente, mesmo em termos de estratégia editorial, a reedição da tradução portuguesa dos livros do criador da fascinante figura, como continua a ser Sandokan.

 

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