Adão Cruz Mas a Senhora quem é?
(Adão Cruz)
Passei frente à loja onde se deu o crime e lembrei-me…
Mataram o meu filho, Sr. dr., e ele está aí.
Isto dizia a voz rouca do outro lado da linha.
Pousei o telefone e desci imediatamente à urgência que ficava no rés-do-chão. A primeira maca que vi no corredor tinha um corpo coberto com um lençol. Levantei a ponta do lençol e vi logo que era ele, o filho do Sr. José. Tinha um botão de sangue coalhado acima da clavícula, na parte esquerda da base do pescoço.
O Sr. José foi porteiro do prédio onde vivo, no tempo em que os meus filhos eram crianças. Ainda hoje lá permanece a sua mesa onde ele sentava, muitas vezes, o mais novo.
Viviam, ele e a D. Amélia, numa casinha rasteira escondida numa das ilhas da Rua do Bonjardim.
Muitas vezes os encontrei na rua, tristes, abatidos, mas muito amigos, sempre de braço dado.
A última vez que os vi, o Sr. José não me reconheceu. A doença começara há muito a comer-lhe a mente até ficar vazia. A D. Amélia tomou as minhas mãos entre as suas e disse-me com as lágrimas nos olhos:
Sofremos muito com a morte do nosso filhinho, Sr. dr., sofro muito com a doença do meu marido e com a minha, mas há uma coisa pior que tudo, que me atravessa a alma e quase me arranca o coração do peito. É quando ele, coitadinho, sentadinho na beira da cama, e eu lhe digo, Zézinho queres um chazinho quentinho, com umas bolachinhas, e ele me responde:
Mas a Senhora quem é?


