Triplo A ao Norte, tripla ruina ao Sul: no reino dos “Troikados” – por Sylvie Kauffmann

 

Coordenado por Júlio Marques Mota

 

Jerez de la Frontera, na Andaluzia, é uma cidade de 212 000 habitantes, famosa pelos seus vinhedos e pelo seucircuito de fórmula 1, onde Ayrton Senna venceu um dia um Grande Prémio de Fórmula 1 por14 milissegundos de avanço. Jerez tem agora uma especialidade bem diferente: é uma cidade em processo de falência.

 

Nenhum dos 2.400 funcionários municipais ou do sector público local tem recebido o seu salário desde Dezembro.Os autocarros estão em greve e, por falta decombustível, os que servem as zonas rurais circunvizinhas só assegurammetade do serviço. As instalaçõesdesportivas da cidade já não abrem desde há um ano porque lhes cortaram aelectricidade. Um terço dos candeeiros da via pública já não se acende. O imóvel dos Assuntos Sociais, inauguradohá um ano atrás, também não tem electricidade; os funcionários trabalham com um gerador a gasolina e sem aquecimento. Todos os dias se vêemmuitas manifestações, ocupações dos locais públicos, reclamações: um dia, são os agentes de polícia municipais, outro dia são os funcionários do cemitério, no dia seguinte, as senhoras da associação dos cuidados prestados à pessoaincapazesde ospagar porque a Prefeitura não lhes pagou os subsídios.

 

Jerez começou o ano com zero euros nos seus cofres. Com um orçamento de 222 milhões, ela atingiu, no final de 2010, uma dívida global de 958 milhões. A corrida desenfreada ao endividamento parou aí.”Estrangulada, Jerez agoniza”, resumiu El Pais no domingo, 19 de Fevereiro. Em Espanha, as cidades arruinadas como Jerezcontam-se por dezenas.

 

O leitor do jornal espanhol sente-semenos só ao virar as páginas do jornal. Os seus vizinhosportugueses, fica ele a saber, conhecem”um inferno bem particular”,o de “viverem (troikados)” e troikados ao quadrado diremos nós, por um lado pela Troika e, por outro lado, por um executivo, o de Passos Coelho, que quer correr mais rapidamente que a própria Troika .Troikados,neologismo que designa aqueles que vivem sob o regime da “Troika”- troikados ao quadrado aqueles que vivem no reino podre de Passos Coelho – e esta é missão composta por representantes do Banco Central Europeu, do Fundo Monetário Internacional e da Comissão Europeia – desde que a zona euro obrigou Portugal, como a Grécia,a colocar as suas finanças públicas em ordem.

 

Viver “troïkado”, isto é um pouco como viverem Jerez, mas com um dado adicional, um prémio, terema visita de funcionários estrangeiros que vêm para dispensar os seus conhecimentos técnicos aogoverno. “Eles estão aqui, na foto do “Diário de Noticias”, a atravessarema Praça doComércio, jovens,sorridentes, em fato e gravata, com os seus óculos de sole os seus computadores portáteisnos seus pequenossacos pretos, escreveu a jornalista doEl Pais. E esta imagem contrasta terrivelmente com um país que se está a desgastar, onde as ambulâncias permanecem guardadasnosparques deestacionamento, ondese fechamsalas de aula porqueo número de professores foi reduzidode 10%, onde as auto-estradasestãodesertas. Como resignadosface a”esta vida que recua dia a dia”. Os portugueses, no entanto, são menos agitados do que oshabitantes de Jerez.

 

 Isto não é, sabe-se,o caso dos gregos. Ninguémsegue mais as notícias da Gréciado que os espanhóis, com a curiosidade de quem também está sujeito a destino esgotante e com a ideia um pouco mais reconfortante que o mal de lá é mesmo assim bem pior que o mal de cá. EmAtenas, quando a noite cai, lê o leitor do El Pais, quando os turistas se retiraram, “os sem-abrigo começam a afluir pelos passeios, com uma espécie de telhado de cartão às costas e em forma de V invertido, refugiados em pequenas construções de papelão e coberturas.” “Algumas praças tornam-se dormitórios e na ruaSofokleous Street, distribui-secomida”.

 

Esta é a realidade de 2012, ao sul da zonaeuro. A Itália de Mario Monti está também elaposta em tempo de rigor, mas esta vê-o de formadiferente. A evasão fiscal tornou-se inimigo público número um, dando origem a um delito com um aspecto de género novo:mais vale ter a suadeclaração de rendimentos no porta-luvas do seu Maserati, os controlos são frequentes. É uma das razões pelas quaisas medidas de austeridade são melhor aceites em Itália, ou mesmo emEspanha, do quena Grécia: os dirigentes têm a preocupação de mostrar queo ónus não está sóa cair sobre os ombros das classes média e populares.

Mario Monti renunciou às suas remunerações dePresidente do Conselho e de ministro da economia e colocou a Igreja Católica a contribuir. Na Espanha, Mariano Rajoy, o chefe do governo, limitou o seu salário anual para 78 185 euros (porcomparação, por exemplo,como Presidente Sarkozy que ganha 240.000 euros). Os apresentadores de televisão pública, os directores de empresas públicas aceitaram uma redução nassuas remunerações de 25% a 30% menos.Os salários do conjunto de todos os funcionáriosespanhóis foram diminuídos de 5% em 2011,congeladosem 2012. Por outro lado, a Grécia, diz o economista Jean Pisany-Ferry, reduziuo salário mínimo mensal para483 euros mas ignora “o facto dessa evasão fiscal dos10%mais ricos que se traduz em uma perda de um quarto das receitas provenientes dosimpostos sobre o rendimento”. Política e socialmente, essa desigualdadeface aosacrifício não é sustentável.

 

Outrora cortada em duas, entre o Oriente e o Ocidente, a Europa está sujeita agora a uma nova fractura, uma fractura Norte-Sul:a norte da zona euro é a Europa do triplo A, do crescimento mesmo que modesto, dos serviços públicos eficazes, das taxas de desemprego toleráveis. Esta Europa-lá é uma terra de acolhimento para imigrantes qualificados. Ao sul da zona euro encontra-se a Europa da ruína tripla, a da recessão e do desemprego, onde o endividamento levou às situações acima descritas. Os jovens e os investigadores fogem desta Europa “troïkada”para encontrar trabalho, no norte da Europa ou na América Latina “.

 

Esta desigualdade entre as duas áreas, é ela politicamente defensável? A questão é particularmente relevante para a França, que está tanto a norte como a Sul, mas que, em termos de disciplina orçamental e de dívida, está mais próxima do Sul que do Norte. Não é por acaso se, de acordo com uma sondagem IFOP, a metade dos franceses e 62% dos trabalhadores temem um cenário grego para o seu próprio país.

 

 kauffmann@lemonde.frSylvie Kauffmann (L’air du monde)

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