Novas Viagens na Minha Terra. Série II. Capítulo 54 . Por Manuela Degerine

Um Café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Da Golegã a Tomar

 

 

          Levanto-me às seis e meia porém, entre arrumações e conversa com José Arocena, este nada apressado, pois apanha o comboio para Tomar, saio dos bombeiros às sete e um quarto. Como a meteorologia prevê outra pequena baixa de temperatura amanhã, José Arocena arriscar-se-á a caminhar até Alvaiázere, por conseguinte marcamos encontro em Tomar às sete horas para prosseguirmos juntos; a escuridão não nos incomodará, por eu conhecer bem o percurso inicial e, quanto mais avançarmos antes do calor, melhor nos sentiremos sem dúvida à chegada.

 

 

            A etapa da Golegã a Tomar tem cerca de trinta quilómetros. Após o longo sofrimento de ontem, aproveito com redobrado prazer as primeiras duas horas de marcha: por enquanto não me dói nada. A minha amiga Maryvonne, com quem tenho caminhado centenas de quilómetros, costuma designar estes princípios de dia “as manhãs gloriosas”. Já fora da Golegã, vejo o sol subir à direita, por detrás das árvores e arbustos. Sucedem-se os campos de milho, de couves, de grelos, de pimentos. Passo em S. Caetano, chego à Quinta da Cardiga.

 

 

          Não vejo ninguém. A aldeia dos empregados com paredes lazarentas e ervas a crescer na rua, o palácio, suas torres, azulejos, lápides, portal renascentista, portal manuelino, fachada com colunas; esta com as janelas todas cerradas e ervas secas à frente. A hera – muito aparada, é verdade – cobre as paredes laterais do palácio disfarçando a necessidade de restauro. A imponência do conjunto arquitetónico, a vastidão do palácio e aldeia dos criados, contrastam com esta solidão e esta decrepitude. Cruzo-me com uma camioneta carregada de nabos e, mais adiante, num campo que deve pertencer à Quinta, deparo com a dezena de mulheres que os arranca. A Cardiga foi um potentado agrícola desde a época dos Templários; eu gostaria de perguntar para quem trabalha o rancho e por que não vemos ninguém à volta do palácio. Todavia, habituada à desconfiança com que, tantas vezes, sou olhada, não me atrevo a fazer perguntas. Digo bom dia. Respondem-me com ar sorridente: já não é pouco. (A insegurança deformou o modo de vida dos portugueses de maneira absurda.) Sigo portanto em frente e, pouco depois, passo por outro belo e vasto edifício degradado, não um palácio mas uma grande casa rural: a Quinta da Lameira. De Santarém para cá várias são as quintas que tenho visto em ruínas… Haverá um contexto comum que explique esta decadência? A incapacidade de se adaptarem à agricultura moderna? Um sistema de distribuição que não deixa margem de sobrevivência ao produtor? Uma falta de união, cooperação e organização dos proprietários?

 

 

 

           Estas interrogações acompanham-me até Vila Nova da Barquinha.

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