GABELA.
Na madrugada do dia nove, por terminado o efémero idílio, a CCav 297 retomou a sua rota para o concelho do Amboim, com a capital sedeada na cidade da Gabela, onde estacionou o grosso, com o comando.
Às quatro da manhã seguiu-se até ao destino, a cidade da Gabela.
Das tropas estacionadas na Gabela, faziam parte núcleos militares, nas vilas de Quibala e Porto Amboim, daí que surgissem também viagens de serviço, normalmente transporte de informações, necessárias a todas as redes de operação dos exércitos.
Em vinte de Abril um jipão com pequeno grupo de militares foi designado para se deslocar a um desses destacamentos, em Porto Amboim. A operação acabou por se gorar, devido a uma tempestade que passara pela zona, fragilizando ainda mais, uma velha ponte de madeira do caminho, que não aguentou a passagem da viatura.
A tropa, com o seu próprio esforço, conseguiu retirar o veículo.
Depois o comandante, um sargento, devido ao dilúvio que por ali tinha passado, verificou não haver condições de prosseguir a viagem e optou pelo regresso à base.
Anotou-se posteriormente, que as missões seguintes, da CCav 297 à vila da beira-mar, foram feitas no comboio do Amboim.
Ouvir descrever as peripécias de quem efectuava a viagem era, como que, ouvir um conto de aventuras.
Cabe descrever o elevado tempo gasto, para andar, naquele comboio, cerca de cento e vinte e quilómetros de linha, ida e volta. Tinha de andar em volta de uma montanha, por onde passava, ainda próximo dos laranjais.
Dava o tempo necessário, aproveitado nas calmas, para encher o bornal de frutos daquelas árvores e depois de devidamente abastecidos, voltar a tomar o lugar na viatura do caminho-de-ferro.
Estava-se perante parte do folhetim da vida que se oferecia a quem estacionava em serviço militar na Gabela.
Os componentes oriundos da Gabela, da CCav 297, passaram a ter em mãos o controlo do movimento interno, do novo agrupamento eventual 350, que se formara do Batalhão com o mesmo número, para servir na Lunda Norte.
Depois da reestruturação, a vinte e um de Agosto de 1963, juntara-se nas instalações, que iam servir de quartel na vila da Portugália um grupo a deslocar-se a Henrique de Carvalho (Saurimo), com uma camioneta GMC, composto por um sargento, responsável pelo rancho de uma companhia de Infantaria, um cabo com as mesmas funções, num pelotão de Artilharia, equivalente, da CCav 297 eventual além do condutor.
A viagem vai ser contada, porque se tratou do que pode ser vista como odisseia, daquelas que as guerras podem proporcionar, em inóspitas regiões, como foi o caso.
Saiu-se às cinco horas da manhã. Tudo a correr bem, até que às onze e trinta, hora a que se deu uma avaria, na única viatura que seguia, cuja foi remediada no meio de uma tórrida temperatura.
A seguir foi retomado o caminho com o atravessamento, pela ponte de madeira, que servia de passagem sobre um estreito rio, seguiu-se de imediato uma ravina, onde a viatura voltou a avariar.
Uma questão, e os meios para a resolver? Ali estavam os quatro elementos, que compunham a expedição de braços cruzados!…
O chefe da expedição, que naturalmente tinha de ser o sargento, como era chegada a hora do almoço e em virtude de se estar à beira de um rio, água portanto, um bem essencial, a primeira reacção foi a de se tratar da alimentação. Uma fogueira, panela com bom bacalhau, batatas, couves e os necessários acompanhamentos, com que todos esses saiu uma lauta refeição, verdadeiramente campestre.
Só depois se equacionou, profundamente, a precária situação!
Falou o sargento, mostrando-se muito calmo e ponderado, mostrava experiência vivencial, além do posto mais elevado, a sua naturalidade era visível, também porque mais velho e por ser um dos que tinham sido novamente chamados às fileiras, em razão do problema de África. Pelo exposto, as suas palavras e resoluções foram bem aceites, mesmo depois de ter dado a palavra a todos.
Sentenciou que o grupo podia estar ali, como média, três dias até que passasse alguém, em viatura que se deslocasse em busca de socorro.
O assunto ficou por ali, havendo a certificação de que para o espaço de tempo havia alimentos suficientes, ou não se tratasse de uma embaixada constituída por responsáveis pelos ranchos de agrupamentos militares.
Passou uma manhã e chegada a hora, preparou-se o almoço. A panela, a fogueira, na margem do rio. De novo os providenciais, mantimentos como bacalhau, batatas, couves, cenouras, nabos, azeite, vinagre e alhos.
Depois da cozedura estava a passar o que se esperava. Um chefe de posto, um mulato, no Jipe que lhe estava distribuído, já que ocupava um lugar na estrutura colonial, controlando toda a população nativa da zona de Xá-Cassau, onde estava instalado.
– Distava cerca de trinta quilómetros do ponto em que ficara imobilizado o núcleo militar em deslocação de serviço.
Aquele elemento estatal prontificou-se a prestar a assistência necessária, até que, por volta das dez horas da noite já se tinha atingido as instalações do seu posto.
