OS DIAS DA RÁDIO – por Carlos Loures – 6

O papel das rádios clandestinas na luta contra a ditadura do Estado Novo

 

6. Conclusão.

 

Num pequeno poema dedicado ao receptor de rádio, Bertolt Brecht deseja que as válvulas não se danifiquem e permitam que os inimigos possam continuar junto da sua cama a dar-lhe conta das suas vitórias e, diz ele – “as vitórias dos inimigos são as nossas preocupações”. Porém, deseja que essa voz “ a última coisa que ouve à noite e a primeira que escuta de manhã” não fique de repente em silêncio…

 

A Ditadura Nacional, que depois deu lugar ao chamado Estado Novo, instalou-se no poder um ano depois de a rádio iniciar as primeiras emissões regulares. As ondas radiofónicas foram amplamente usadas como mais um instrumento de repressão – a Emissora Nacional, o Rádio Clube Português, a Rádio Renascença, eram vozes que, usando a expressão de Brecht, multiplicavam as vitórias do salazarismo e aumentavam as nossas preocupações – a ditadura parecia não ter fim.

 

Até os aspectos aparentemente inócuos eram aproveitados – as canções, por exemplo. Mário Castrim designou por “nacional-cançonetismo” uma vaga de artistas que disputavam entre si os favores de um público maioritariamente pouco politizado e que o regime contrapunha aos cantores de intervenção que desde o princípio dos anos 60 começavam a aparecer (alguns deles, após a queda da ditadura, quiseram reciclar-se e aparecer com “antifascistas”…). O êxito de José Afonso era imparável – no concurso Rei da Rádio, organizado para as vedetas do “nacional cançonetismo” – para ser disputado entre António Calvário e Artur Garcia – José Afonso saiu vencedor.

 

A Guerra Colonial punha laivos de drama na tragicomédia salazarista, enlutando e dividindo famílias – mortos em África e emigrados. A politização dos portugueses fazia-se da forma mais difícil – envolta em tristeza. E foi então que as rádios clandestinas apareceram. Vozes que vinham de longe e falavam das derrotas do fascismo e das nossas vitórias – às vezes exagerando. Mas até nos exageros se acreditava. Nas “verdades” do regime já nem os salazaristas acreditavam. E uma noite… No Rádio Clube Português aquele de onde, bêbedo e obsceno, Queipo de Llano insultara a democracia; naquele RCP e que fora o alvo da «Operação papagaio», uma noite de Primavera vieram palavras que todos esperávamos há muito tempo…

 

Na Ordem de Operações do MFA o RCP tinha o nome de código de MÉXICO.

 

Diz, Otelo em Alvorada em Abril:

 

 «Toca o telefone civil no posto de comando. – Fala ÓSCAR – atendo.

 

– Aqui Grupo Dez. Informo MÉXICO conquistado, sem incidentes – diz Santos Coelho do outro lado do fio.

– Okay. Mantenham emissão normal. Preparem leitura primeiro comunicado hora prevista.

Coloquei o telefone no descanso.

– Já temos emissor – disse aos camaradas – O Rádio Clube é nosso.

 

São três horas e vinte minutos da manhã» 

 

E o primeiro comunicado foi lido:

 

 

 

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