Disse Bernard Shaw que “A democracia é apenas a substituição de alguns corruptos por muitos incompetentes.” O humor corrosivo do grande escritor irlandês pecou nesta frase por benevolência (que não era a sua maior qualidade). Esqueceu-se de que muitos incompetentes são também corruptos. E a chamada democracia liberal ou representativa é o sistema de governação mais aberto, mais vulnerável à corrupção. Os políticos prometem tudo durante as campanhas, mas logo que são eleitos as promessas são esquecidas – e começam a governar de mentira em mentira (ou de lapso em lapso).
Com a subida de impostos, aumento dos preços e, ao mesmo tempo, o corte de dois ordenados anuais a uma ampla franja da população, é evidente que o já de si frágil tecido económico nacional vai entrar em colapso, em ruptura – esta agressão a rendimentos modestos vai provocar quebras em multiplos sectores – no turismo e na indústria hoteleira em geral, na venda de automóveis, na transacção de imobiliário… uma depressão profunda nos negócios de pequenas, médias e grandes empresas. O que resultará em falências, no aumento exponencial do desemprego… – tudo coisas que já estão a acontecer – uma espiral descendente.
Medidas de austeridade, fosse qual fosse o partido do governo, teriam de ser tomadas. E até podiam ser benéficas se contribuíssem para impedir a progressão do espírito consumista – as famílias reduzirem as suas compras ao estritamente indispensável, utilizando bens e equipamentos até ao limite. Porém, desde há décadas que as pessoas têm vindo a ser educadas para o consumo – os telemóveis, por exemplo, são postos de parte porque há uma nova geração… Ou seja, a maioria das pessoas vive num regime de compra por impulso e de consumo compulsivo – o não poder comprar vai resultar numa onda de infelicidade.
E a publicidade continuará a mostrar as “novas gerações” de produtos e a incentivar um consumo que para a maioria das famílias não será possível. É uma situação de frugalidade em que assistiremos à terceira mundialização da nossa sociedade – pois vamos ter um país socialmente mais assimétrico – ricos e miseráveis. A classe média reduzida à pobreza, à expressão mais simples.
Entre os ricos estarão os mafiosos, os que conseguirem montar negócios ilícitos, mas rendíveis. A economia paralela que já existe, vai crescer, a par de todas as deformidades que se podem adivinhar – prostituição, roubo e extorsão. Passos Coelho, Vítor Gaspar e toda essa gente que os votos da maioria colocaram no poder, vão provavelmente ser massacrados eleitoralmente – mas serão substituídos por gente igualmente incapaz.
Oxalá este qudro que aqui traçamos peque por pessimismo.

