Novas Viagens na Minha Terra, Série II, Capítulo 76. Por Manuela Degerine.

Um Café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Num Jardim da China: um olhar anacrónico

 

 

        É o ziguezague deste muro através das dez folhas que estrutura o jardim numa sucessão de pátios, multiplicando as possibilidades de circulação e fechamento, consoante o estatuto de cada um, através de portas com telheiro simples ou duplo. A entrada na propriedade dá acesso a um local onde circulam homens e cavalos, a segunda e terceira portas, com duplo telheiro, conduzem ao adro do Senhor e, a quarta, com telheiro simples, ao espaço feminino, controlado pela Primeira Esposa. A seguir não há um quarto pátio mas um lago, à volta do qual se dispõem edifícios, terraços e uma ponte. Mas não vemos tudo… O pintor mostra apenas os pontos de articulação na hierarquia do poder e o enquadramento da imagem deixa assim de fora uma diversidade de outros pátios e edifícios, sugerindo todavia uma propriedade muito vasta. Por exemplo, entre o pátio da Primeira Esposa e o espetador, há o duplo telheiro da porta, uma árvore e um rochedo: fica a imagem de um prolongamento. Também no extremo esquerdo da propriedade vemos um terraço e, aquém dele, uma porta circular que abre para este lado.


        O muro não serve apenas de proteção (do mundo exterior) e de contenção (do mundo feminino), concilia a robustez com o luxo, metamorfoseando-se em elemento decorativo através da base de pedra cor-de-rosa e da parede pintada com duas cores principais, para além de outras nos pormenores: a moldura rosada e a parte central azul, por exemplo. No prolongamento dos telheiros por cima das portas, este muro é rematado com duas águas de telhas azuis vidradas as quais, para além do incontestável efeito estético, contribuem para dificultar a escalada…


        Das portas, janelas, colunas, paredes, corrimãos até aos telhados, toda a superfície visível dos edifícios, pátios e beira do lago é profusamente pintada, colorida, esculpida; os objetos porém são raros. No pátio de entrada há uma bandeira, pedras, arbustos e a escultura de um leão. Ao lado do Senhor aparecem, em cima de uma mesa de laca, uma caixa dourada e uma jarra com flores. Por detrás de um miúdo, no interior de um edifício, vemos um banco de laca. Mais adiante surgem dois vasos com pedras e plantas. Uma criada traz uma taça, outras transportam oferendas. Duas grandes pinturas murais servem de cenário aos donos da casa, o fragmento de uma terceira aparece no interior de um edifício, junto dos rapazes que brincam com o caranguejo. Tudo isto compõe um espaço refinado e luxuoso.


      A elipse e a sinédoque são figuras recorrentes na arte chinesa. O enquadramento do pintor não privilegia a representação das plantas, vemos contudo quatro grandes árvores, entre as quais um elegante pinheiro, diversos conjuntos de flores ou arbustos com pedras esculturais, sugerindo outros, tal como o complemento que são os insetos e os pássaros. No lago flutuam folhas de lótus, nadam patos visíveis e invisíveis peixes; carpas, talvez.


        O conceito de jardim varia consoante as épocas e as culturas. Habituados à profusão ocidental no nosso tempo, parecer-nos-á que faltam aqui flores; o jardim chinês desta época não assentava na quantidade mas em cores, valores e funções codificados.


        O mais singular nesta propriedade é uma arquitetura paradoxal que permite o fechamento das mulheres num espaço aberto ao ar, ao luar e ao canto dos rouxinóis; e, tal como os pássaros que poisam nas mãos dos rapazes, elas foram educadas para não fugirem deste jardim dourado. Mesmo lembrando que no século XVII as mulheres na Europa não beneficiavam de estatutos invejáveis, a visão de tantas portas e muralhas não deixa de produzir algum mal-estar no espetador. Somos ocidentais, somos europeus, somos do século XXI. O artista – anónimo – desta crónica de uma família ideal num espaço perfeito decorou um objecto de mobiliário exprimindo a ideologia da sociedade chinesa da época, à qual não nos sentimos na obrigação de aderir, não obstante a virtuosidade técnica a isso nos convidar…

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