por Rui Oliveira
Cordas sobresselentes (2ª parte)
Nesta Sexta-feira 20 de Abril, os eventos são diminutos. No Teatro Maria Matos, às 21h30, Miguel Pereira efectua uma performance (que se prolonga até Segunda, 23) onde se “aproxima” do mundo do teatro amador e daqueles que dedicam os seus tempos livres à prática artística e que por não terem a obrigação de construir um estatuto que os legitime na esfera do trabalho se deixam apenas levar pelo prazer que sentem naquilo que fazem. Diz : “E é nesse tempo “livre” que me coloco, que o espectáculo, o acontecimento que eu faça, possa acontecer nesse limbo “entre” o acabado e o inacabado, o possível e o impossível, o controlado e o libertador”.
Neste espectáculo do díptico (o outro é a 27/4) o seu encontro é com Nicola Carter em Nottingham, uma anotadora de 47 anos que transcreve o conteúdo de diferentes disciplinas para alunos universitários com incapacidades físicas e motoras mas que tem uma forte relação com a dança (fruto da sua paixão pelo clubbing nos anos 80 em Manchester) criando, nos seus tempos livres, as suas próprias performances.
No Museu do Oriente, às 18h30, antecipa-se nesta Sexta 20 de Abril a celebração do Dia Mundial do Livro (oficialmente o 23 de Abril) com uma conferência de Eduardo Pires Coelho, vencedor do Prémio Literário “Esfera das Letras, 2010” (destinado a galardoar uma obra original de carácter romanesco, novelístico, ou poético, redigida em língua portuguesa, no universo da lusofonia) pelo seu livro “O Segredo da Flor do Mar”.
“A Flor do Mar” naufragou em Dezembro de 1511 no estreito de Malaca e tem fascinado historiadores e caçadores de tesouros de todo o mundo pois o navio nunca foi encontrado… até hoje. O livro leva-nos, no presente, a Singapura, à Malásia, ao Peru, ao Brasil e aos Estados Unidos, mas também nos transporta para a Malaca Portuguesa, no final do século XVI e início do século XVII. Nessa altura, um misterioso nobre português combateu os piratas dos mares do Sul, viveu os encontros e desencontros com os sultanatos islâmicos de Johor e do Achém, para depois assistir à chegada avassaladora das armadas holandesas ao Oriente.
No Pequeno Auditório da Culturgest, às 21h30 deste 20 de Abril, terminam os (seus) espectáculos do Festival RESCALDO com a actuação de João Alegria Pécurto que desenvolve habitualmente na guitarra acústica “peças de uma beleza transparente, de rendilhados ternos e hipnóticos que se vão sobrepondo em sucessivas camadas” (como é descrito o conteúdo do seu disco, gravado em casa com aquela calma que só o lar pode proporcionar, “Um lugar de silêncio, para que tudo cante na tua ausência”).
Segue-se-lhe o encontro de Norberto Lobo guitarra acústica com Carlos Bica contrabaixo que, com background distinto mas com ligação significativa às suas raizes nacionais, antecipam (como diz o programa) “um daqueles acontecimentos a deixar marcas profundas em todos os que estiverem presentes”.
Por último, às 22h30 de 20 de Abril, no Ondajazz e em Couleur Café , em homenagem a Serge Gainsborough, “à sua música, à sua provocação e à sua sensibilidade, às suas palavras duras, às suas palavras ternas, às suas diferenças e indiferenças”, Luanda Cozetti (voz) e Norton Daiello (contrabaixo) de Couple coffe entram na dansa com Thierry Riou no piano, Guto Lucena nos saxofones e Alexandre Alves na bateria para uma noite nascida sob o signo da côr…
No Sábado 21 de Abril e no Teatro Nacional de São Carlos, o Concerto Sinfónico do Ciclo Rakhmaninov e a Música Russa tem lugar às 21h com a Orquestra Sinfónica Portuguesa sob a direcção musical de Julia Jones e o pianista checo Lukas Vondracek.
Do programa constam :
Mikhail Glinka Uma noite de Verão em Madrid (Abertura Espanhola n.º 2)
Serguei Rakhmaninov Concerto n.º 4 para piano e orquestra, em Sol menor, op. 40
Dmitri Kabalevski Dança Lírica (de Romeu e Julieta), op. 56
Dmitri Chostakovitch Sinfonia n.º 9, em Mi bemol Maior, op. 7
Vejamos como Vondracek interpreta outro compositor russo ao tocar a Sonata para Piano nº 7 em Si bemol Maior, op. 83 de Sergei Prokofiev :
A 21 de Abril, às 22h, o Teatro Aberto acolhe na sua Sala Azul o espectáculo do ensemble de tangos OrAnGoTaNgo, composto por Daniel Schvetz piano, composição, arranjos e direcção musical, Luís Cunha 1º violino, Anne Victorino D´Almeida 2º violino, Isabel Pimentel viola, Catherine Strynckx violoncelo, Pedro Santos acordeão e Miguel Menezes contrabaixo.
Recém regressados da Rússia onde ganharam um Prémio Especial no Festival Internacional Terem Crossover em São Petersburgo, irão certamente interpretar temas originais do pianista Daniel Schvetz e de compositores tais como Astor Piazzolla, Gardel, Anibal Troilo, Sebastián Piana e Mariano Moraes, entre outros. Serão ainda apresentadas três obras preparadas especialmente para o Festival Terem Crossover: «Trilogia, 5», que se apresenta como um misto de foclore do nordeste Argentino, milonga, tango e recolhas de Michel Giacometti; «Tchaikovskiana», composição baseada no “Quebra-Nozes” de Tchaikovsky e «Pian Dabliu», inspirada em “Pedro e o Lobo”, de Prokifiev.
Eis como se apresenta musicalmente o conteúdo “argentino” de OrAnGoTaNgO :
Ainda a 21 de Abril encerra às 22h no Trem Azul Jazz Store (rua do Alecrim, nº 21 A) o Festival RESCALDO com a intervenção de dois grupos musicais, antes do DJ Set gerido por Bobby Brown & Quincy, pseudónimos de Sérgio Hydalgo e Filipe Felizardo.
Abre Cangarra, formado pela gitarra eléctrica de Cláudio Fernandes e pela bateria de Ricardo Martins, onde “o limite do solo de guitarra é projectado para uma dimensão psicadélica que se vai enredando continuamente na ferocidade do mais hiperactivo baterista do país”.
Segue-se Canhão / Sousa / Nogueira / Ferrandini onde (como prevê o programa) “a bateria de recursos infinitos de Ferrandini e o sopro viral de Sousa encontram as cascatas de riffs e solos das cordas de Guilherme Canhão (guitarra elétrica) e Rui Nogueira (baixo)”.
Também a 21 de Abril no Jardim de Inverno do São Luiz Teatro Municipal, há mais um concerto Nuno Vieira de Almeida & Convidados, às 18h30, sobre o tema “A Mulher e o Homem no Romantismo através da voz de Schumann”, com Vieira de Almeida ao piano e a soprano Inês Calazans.
Ainda a 21 de Abril, às 22h30 no bar Ondajazz, ressurge o projecto Ficções, fundado em 1988 pelo guitarrista Rui Luís Pereira (Dudas), que agora agrega Guto Lucena saxofone, Ruben Alves piano, Miguel Amado contrabaixo e Carlos Miguel bateria. Nos seus três discos editados até 2001 mantêm uma “música com um sabor mediterrânico feito de mestiçagens − ecos ibéricos, africanos, árabo-andaluzes e um olhar atlântico, povoando um “folclore imaginário”.
Era este o seu som original em Tágide do disco Acqua de 1992 :
No Hot Club de Portugal, às 23h deste Sábado 21 de Abril, actua para sócios (grátis) e não sócios o Paulo Bandeira Trio, formação que junta Paulo Bandeira (bateria), João Paulo Esteves da Silva (piano) e Bernardo Moreira (contrabaixo).
Por fim, a 21 de Abril, tem lugar no Pequeno Auditório da Culturgest, às 18h30, a última conferência do cíclo que o professor da Faculdade de Belas Artes e crítico de design Mário Moura organizou para, a partir dum objecto, dum livro, apontar para filosofias, políticas, exposições, etc de modo a analisar como p.ex. num livro a maneira de hierarquizar conteúdos, de ocupar as páginas ou como as imagens se relacionam com o texto, implica não apenas uma autoria, mas também uma forma de se relacionar com a realidade, com a sociedade, com a política ou com a história.
O tema desta derradeira que intitulou Dot Dot Dot, Dexter Sinister ou “God is in the Foot-Notes” é a análise de como uma imagem discreta de uma firma de design num artigo científico da revista Dot Dot pode “abalar a sua gravidade académica, fazendo-o oscilar…entre a ciência e a fraude, a seriedade e o humor…”.
No Domingo 22 de Abril, há no Museu do Oriente, às 17h, um espectáculo da Escola de Música do Conservatório Nacional onde, numa primeira parte, o Coro do Ensino Integrado, dirigido por Teresa Cordeiro com Cândido Fernandes ao piano, entoará O Alentejo e, numa segunda, se apresentarão os Novos Solistas da Orquestra do Ensino Integrado, com Iris Santos, no violino, Thomas Childs, no trompete, e Adriana Rolão, na guitarra, sob a direcção de Ricardo Mateus.
Quanto ao panorama cinematográfico, neste final de semana pobre, a quem já viu todo o lote de filmes portugueses que aqui também elogiámos nas semanas anteriores sugerimos o filme de Cameron Crowe (autor de Vida de Solteiro, Jerry Maguire, Quase Famosos) com o nome “desastrado” de ”Comprámos um Zoo!”, com actores como Matt Damon, Scarlett Johansson e Thomas Haden Church.
Baseado numa história verídica e assente (como é central em Crowe) na necessidade de reinvenção crucial à sociedade americana, concordaria com um crítico (J.M. ,Ípsilon) que o realizador “ao imbuir o seu cinema com uma essência emocional feita de experiências universais transporta o…filme para uma dimensão de vulnerabilidade e humanidade que equilibra os lugares-comuns do drama familiar e da comédia romântica com uma delicadeza quase diáfana”. Ou, mais cruamente, “filme de um classicismo quase artesanal como hoje começa a ser difícil encontrar no meio das patacoadas que Hollywood nos quer vender”.
Avaliem vendo-o (o que pode ser brevemente antecipado neste trailer) :
Concluem-se neste Domingo 22 de Abril, no Edifício Sede da Fundação Calouste Gulbenkian, das 14h30 às 18h, as “Leituras Encenadas” associadas à exposição Fernando Pessoa – plural como o Universo.
Nesta 4ª sessão, cujo tema é «Pessoa “em pessoa”: família, relações amorosas, sexualidade, morte. Ironia, desespero. A experiência de “Orpheu” – amizades e cumplicidades » os intervenientes serão : como Professor Gonçalo M. Tavares, como Encenador Marco Martins, sendo Actor Vítor Roriz (e designer de Som – PZ Pimenta).
E, se não viu ainda a exposição que encerra dentro de quinze dias (a 30 de Abril), aguce a sua curiosidade vendo o seu vídeo promocional :
Caros leitores : Esperemos que as chuvas recentes façam florir mais e melhores acontecimentos nos diversos campos da cultura …



