Poema – Maria do Rosário Pedreira

 

 

 

Maria do Rosário Pedreira  Poema

 

 

 

 

(Adão Cruz)

 

 

 

O meu amor não cabe num poema – há coisas assim,

que não se rendem à geometria deste mundo;

são como corpos desencontrados da sua arquitectura

ou quartos que os gestos não preenchem.

 

O meu amor é maior que as palavras; e daí inútil

a agitação dos dedos na intimidade do texto –

a página não ilustra o zelo do farol que agasalha as baías

nem a candura da mão que protege a chama que estremece.

 

O meu amor não se deixa dizer – é um formigueiro

que acode aos lábios como a urgência de um beijo

ou a matéria efervescente dos segredos; a combustão

laboriosa que evoca, à flor da pele, vestígios

de uma explosão exemplar: a cratera que um corpo,

ao levantar-se, deixa para sempre na vizinhança de outro corpo.

 

O meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras

com a nudez do teu nome – é um fantasma que estrebucha

no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas.

Um verso que o vestisse definharia sob a roupa

como o esqueleto de uma palavra morta. Nenhum poema

podia ser o chão da sua casa.

 

(in Maria do Rosário Pedreira, O Canto do Vento nos Ciprestes, Gótica)

 

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