GIRO DO HORIZONTE – GUINÉ-BISSAU – por Pedro de Pezarat Correia

          

 

Lamentavelmente da Guiné-Bissau não cessam de chegar más e preocupantes notícias. O país em que a luta pela independência, liderada por um dos mais lúcidos dirigentes africanos das lutas de libertação da segunda metade do século XX, Amílcar Cabral, augurava mais rápida estabilização no imediato pós-independência, apesar da exiguidade de recursos, transformou-se, afinal, na única das antigas colónias portuguesas de África que ameaça cair no pouco recomendável grupo dos Estados falhados. O assassinato de Amílcar Cabral, objectivo perseguido e conseguido pelas mais sinistras estruturas da ditadura colonial portuguesa, contou com a colaboração traiçoeira de guineenses o que, para além da privação do concurso da personalidade que teria sido decisiva na consolidação da independência nacional e na construção do Estado, com as consequências funestas que hoje se conhecem, constituiu um prelúdio da tragédia que tem caracterizado a luta interna pelo poder, violência, traições, interesses obscuros, influências externas, fragilidade estrutural.

 

Em Novembro de 1980, Luís Cabral, presidente da República, foi derrubado pelo golpe militar liderado por João Bernardo Vieira, “Nino”, primeiro-ministro desde Setembro de 1978 e que fora o mais prestigiado chefe militar da guerrilha durante a guerra de libertação mas viria a revelar-se um político medíocre. Seria a primeira de uma série de intervenções militares, pronunciamentos, levantamentos, golpes, que se sucederam até hoje, sempre com marcas de extrema violência, nomeadamente a que viria a vitimar o próprio Nino e que se têm caracterizado, na maioria, pela sua inconsequência e indefinição de objectivos políticos.

 

O drama da Guiné-Bissau é, exactamente, essa indefinição, a paradoxal situação política em que não se vislumbra o verdadeiro sentido das lutas pelo poder, dos projectos pessoais ou partidários, das próprias tentativas golpistas. Os militares, que aparecem sempre na primeira linha, parecem marionetas manipuladas da sombra, que depois se mostram ansiosos por se descartarem de um poder que lhes caiu nas mãos mas que não sabem o que fazer dele.

 

A Guiné-Bissau inscreve-se geograficamente na África Ocidental, numa zona islamizada do continente africano a sul do Sahara, mas a sua instabilidade e as lutas pelo poder, ao contrário de muitos países do arco islâmico, não tem raízes em disputas religiosas ou em fundamentalismos sectários. As etnias islamizadas, fulas e mandingas, constituem uma percentagem importante no país (estima-se que representem entre35 a40%) mas não têm, enquanto tal, participado nas lutas pelo poder, o que poderá ter a ver com o passado histórico recente, pois durante a luta de libertação não se distinguiram por uma militância significativa no PAIGC e até tiveram alguma cumplicidade, se bem que muitas vezes ambígua, com o poder colonial português.

 

Mas o espaço geopolítico em que a Guiné-Bissau se insere tem conhecido, nos últimos anos, um clima de conflitualidade endémica e de causas múltiplas, a cujas nefastas influências este país não tem podido furtar-se. Os principais e maiores Estados da região, Nigéria, Costa do Marfim, o próprio Senegal, mas também a Guiné-Conakry e a Mauritânia, têm conhecido lutas pelo poder e fracturas internas e no Mali está ainda em curso uma situação muito complexa resultante de um golpe de estado militar e de uma dissidência tuaregue. Noutros Estados mais pequenos, Libéria e Serra Leoa, verificaram-se confrontos muito violentos, prolongados e anárquicos, opondo grupos criminosos, senhores da guerra, visando o controlo de riquezas naturais para benefício próprio. À Guiné-Bissau chegavam as ondas deste tsunami social. A fragilidade do vazio político, resultante da incapacidade de os governos saídos de eleições controlarem as forças armadas, tem criado condições para a proliferação de poderes clandestinos da malha da criminalidade transnacional organizada, que penetram a estrutura militar. Destes, aquele que tem sido apontado como o mais activo e estruturado é o do narcotráfico, que encontrou em áreas da Guiné-Bissau condições favoráveis à instalação de plataformas no circuito da droga vinda da América Latina com destino à Europa. A criminalidade transnacional organizada precisa de Estados falhados e fomenta-os para se instalar. A Guiné-Bissau é uma vítima desta rede que tem cada vez mais influência na política e na conflitualidade mundial.

 

O golpe militar em curso na Guiné-Bissau, quando estava em desenvolvimento um processo eleitoral, tem de ser lido a esta luz e não vai ter solução pontual. Aparece assumido por um comando militar revolucionário, mas não é claro o que é que este comando tem a ver com a hierarquia militar institucional. Os partidos da oposição e os líderes derrotados nas eleições presidenciais (mas derrotados como se o processo eleitoral ainda está em curso?) aparecem a demarcar-se timidamente, mas sem o condenarem sem margem para dúvidas. Se os responsáveis pela cena política internacional, que já apareceram com a retórica habitual, quiserem ir ao fundo da questão, terão de atacar o problema na sua globalidade, conscientes de que a criminalidade transnacional organizada envolve interesses muito poderosos e muito influentes. De outra maneira apenas remediarão este golpe à espera de que rebente o próximo.

1 Comment

  1. Pezarat Correia, venho levantar uma questão, para além daquelas que já levantou no seu texto. Parece que está confirmada a influência da criminalidade transnacional no país, mas até que ponto também não se sentirá a influência das estruturas tradicionais do país, dos vários povos balanta , mandinga , fula, papel) que desejam contrariar o PAIGC, que consideram estrangeiro, pelo menos em parte? Não terá contribuído também para esta situação, a presença de uma força angolana no terreno?

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