O modelo alemão, esta hipocrisia económica! – por Mathieu Mucherie*

Nos mercados também há quem fala verdade. Um texto cuidadoso que vale a pena ler com atenção  e perguntar face ao que é aí é demonstrado, o que anda muita gente a fazer, a começar pelos jornalistas que  trabalham sobre matérias de economia e a acabar no ensino universitário que é hoje praticado.

Júlio Marques Mota

 

 

 

Primeira economia da zona euro e pouco abalada, pelo menos na aparência, pela crise, as virtudes económicas da Alemanha são reconhecidas por unanimidade. Uma imagem que está a fazer esquecerque o país arrasta consigo muita coisa socialmente negativa, até de relativo atraso económico e social.

 

 

As virtudes económicas da Alemanha são unanimemente reconhecidas

 

O que éadmirável, com os fanáticos do modelo alemão,que abundam por estes últimos tempos,é a sua desenvoltura quando falam sobre o crescimento. Enquanto um economista consagra 90% do seu tempo a reflectir sobre o crescimento económico (estudos sobre a “sustentabilidade” do referidocrescimento, sobre as comparações no tempo e no espaço), osembasbacados  sobrea RFA e os germanófilos primáriosnão parecem ficar envergonhados sobre os resultados desastrososregistadosalém-Renodesde a reunificação: crescimento médio anualde 1,2%, comparado com 1,1% no Japão. Naturalmente, a Alemanha é uma terra de milagres económicos, de felicidade, e o Japão é o homem doente da economia global, e em face destes números isto éevidente!

 

E será queeste fraco crescimentoalemão será virtuoso eperene, ou seja dinamizado pelainovação tecnológica? Olhemos para ocrescimento médio anual da produtividade per capita de 1999 a 2011 (dados de Daatastream): Alemanha (0,76%), é melhor do que a França (0,68%) ou que aItália (0,37%), mas isso é menos do que a Suécia (1,49%) e significativamente menos bem do que os EUA (2,32%). Com algumas poucas excepções(SAP, BASF…), a Alemanha está muito poucopresente nos sectores da alta tecnologia, e os seus ganhos de produtividade no sector dos serviços são deploráveis.

 

Acrescentemos que, desde há 22 anos, 18 milhões de atrasadosque andavam ainda há pouco tempo de Trabant teriam de sustentaro crescimento alemão por um efeitode convergência, catch-up (quando se parte de muito baixo é bem maisfácil de progredir). Não tem sido nada assim, e até se vêem oscomentadores desatentos a fazerem disso um argumento dereabilitação do crescimento alemãocom o motivo deque as transferências para a antiga RDA têm custado muito dinheiro, mas passemos por cima disto. Com 1,3 filhos por mulher e uma convergência agora a dois terços realizadaentre a RFA e a RDA em termos de produtividade, a Alemanha não terá muito provavelmentenos próximos anos um resultado muito superior aospobres resultados que teve nos anos de 1990 e 2000.

 

Dizem que na falta de crescimento naAlemanha este país está a criar empregos. É falso. Em primeiro lugar,a duração do trabalho semanal per capita diminuiu 7% desde 1999 (enquanto que cresceu de2% na Suécia e nos Estados Unidos e diminuiu apenas3% com a passagem para as 35 horas; dados do bancofrancêsNatixis). Em segundo lugar, a baixarecente da taxa de desemprego na Alemanha escondeuma baixa taxa de participação (um aumento de 2 pontos entre 2002 e 2006, devido àsreformas Schroeder, mas inferior ainda a 60%, contra67% na Suécia e contra 65% nos Estados Unidos, dados doBanco Mundial): não é difícil registar uma taxa de desemprego ao nível dos 7% quando se está a pagar às pessoas para ficaremem suas casas ou quando estas deixam mesmo de fazer mais esforço para fingir que andam àprocura de encontrartrabalho.

 

Dizem-nos que, mesmo semse sermuito produtivo e inovador e vector de criação de empregos, a Alemanha conquistaquotas de mercado (“competitividade”). É este o drama mercantilista, esta redução do debate exclusivamente à capacidade exportadora, uma redução perfeitamente aflitiva numa economia global cada vez mais imaterial e perfeitamente absurda quando seconhece a realidade da fragmentação das cadeias de valor global. No fundo, o problema com a Alemanha é, basicamente, o de que não respeita o imperativo categórico kantiano: se o seu modelo mercantilista fosseaplicado por todos os países, seriam então necessários vários planetas ou então numerosos extra-terrestrescom quem fazer comércio internacional porque, por definição, não é possível que todos os países do mundo tenham entre si, e todos eles, balanças comerciais excedentárias. Deste modo, eu próprio mudarei de opinião sobre o modelo alemãonodia em que osnossos amigos de Krypton, Vega e Coruscantse manifestarem.

 

Uma das explicações da boa saúde das exportações de produtos manufacturados alemãestambém sistematicamente esquecida no debate público é a de que os alemães ganham, e bem, com o euro. Esta moeda foi concebida para facilitar uma especialização à escala detodo o continente, sobre o modelo das economias de aglomeração que se observamnos EUA (de passagem, esteprojecto do euro é fundamentalmente inconsistente com a ideia muito francesade dispersãoindustrial, mas avancemos); os alemães especializaram-se nos produtos em que tinham uma vantagem comparativa, muito classicamente. Além disso, eles têm sido protegidos das”desvalorizações competitivas” (entre 1949 e 1989, o franco francês, por exemplo, perdeu cerca de 30% do seu valor todos os anos 10anos), ou, por outras palavras os alemães beneficiam agora de uma espécie de flexibilização da política monetária relativa, que não diz o seu nome a de 50% dos seus parceiros comerciais. Simpático!

 

Acrescentemos a tudo isto que o equilíbrio financeiro alemão não é tão saudável como nós pensamos, o seu saldo fora do balançoreserva muitas surpresas enão háquase provisões para as consequências(nem a saída da energia nuclear nem o envelhecimento). A Alemanha tem,de facto, multiplicado a seu belo prazeras bombas de tempoorçamentaisde rebentamento ao retardador. Muitas pessoas não têm sequer ouvido falar das estruturas de acantonamento de créditos de difícil cobrançaede EDH (Hypo Real Estate): é pena,esses ficheiroscorrespondem a 20 vezes o CréditLyonnais e escapam aos radares orçamentais para melhor permitir todas as hipocrisias.

 

Se a Alemanha parece estar a portar-se bem (a fábula dos zarolhos numpaís de cegos, na verdade), é devido a factores temporários e pouco louváveis: um efeito de tesoura positivo sobre as taxas de juro no período recente (como resultado da fugapara a qualidade que está sempre associado a uma crise europeia que a Alemanha gere com mestria, as taxas longassão enfimmuito inferioresà sua taxa de crescimento nominal) depois deum longo período em queas taxas eram demasiado elevadas na Alemanha para permitirem, como em todo o lado, a loucura doimobiliário) e a hipocrisia orçamental amais desavergonhada (fazer o que eu digo, a austeridade, não faças sobretudo o que eu faço, subsidiar o tempo de trabalho parcial e subsidiar os bancos).

Mas o pior, não é tanto atraição a Kant como é a traição face a Clausewitz (a recusa de qualquer expansão Schwerpunkt monetária), é esta calamitosa influência germânica sobre a política monetária na zona euro, é esta falsa ortodoxia, é esta versãopervertida do monetarismo que leva sempre a agir muito pouco e muito tarde. Milton Friedmaniria certamente saltar do seu túmulo se ele ouvisse os dislates verbais deAxel Weber e de JürgenStark desde o início da crise (em caricaturando com muita dificuldade: “uma inflação pelos custosou pelopetróleo, isto existe”, “a política monetária é acomodatíciauma vez que as taxas baixam”, “pode-se aceitar uma taxa de câmbio de um euro a1,50dólares”, “expandir o balanço do BCE”é necessariamente inflacionário”,”a deflação é um fantasma”, “os agregados monetários não têm mais nada aensinar-nos”, “o banqueiro central pode dar lições aos governos democraticamente eleitos e discipliná-los”, etc.). Nóssomos todas vítimas de uma seita (o Bundesbank)a quem se terá dado as chaves do Vaticanoe os códigos para a  utilização da força de destruição maciça,  da força de destruição nuclear, [ da força política capaz de  destruir a Europa.]. E finge-se entretanto ficarmos espantados com a japonização docontinente.

 

E será isto dizer que não há nada neste “modelo” que nós, franceses, possamos tomar como exemplo?Efectivamente:os únicospontos positivos do modelo alemão (um velho fundo capitalista familiar que faz com que se trateseriamente a questão da rendibilidade das PME em não as sobrecarregar comimpostos como o ISF ou as regulamentações, como o salário mínimo interprofissional de crescimento, (SMIC), um federalismo acompanhado deum número muito baixo de funcionários do governo central) não são características especificamente alemãs efariam sobretudopensar um pouco nospaíses anglo-saxões. Desde que os alemães germanizem no seu quadro de referência (co-gestão, regresso ao carvão, mercantilismo), eles não evoluem e fazem-nos recuar.

 

Mathieu Mucherie,“Le modèle allemand, cette tartufferie économique!”,disponível em

 

 http://www.atlantico.fr

 

*Mathieu Mucherie é economista de mercados, responsável da estratégia macroeconómica noBNP-ParibasAssurances. Anteriormente, trabalhou como consultor em Chicago e como professor numa escola de gestão. Paralelamente, participou no desenvolvimento do site Melchior entre 2002 e 2007 e te colaborado comvários jornais (societal, Commentaire, etc.).

 

Aos estudantes da Faculdade de Economia que saibam francês aconselha-se vivamente o site Melchior, todo ele virado para o ensino. Se bem que direccionado para o ensino secundário, uma visita de vez em quando, sabe sempre bem.

 

Página electrónica de Melchior: http://www.melchior.fr

Leave a Reply