Embarquei no “Vera Cruz” com o DFE 13 em 15 de Outubro, rumo a Luanda, onde chegámos dez ou quinze dias depois. Durante a viagem o comandante do destacamento, 1TEN Pestana dos Santos, já tinha desistido de me ensinar a jogar bridge, no qual ele próprio se aplicava regularmente com colegas do Exército que também tinham iniciado a sua comissão.
A viagem foi pacata, aprendemos todos a conhecermo-nos melhor – o Pestana, o Lupi e eu próprio – e comecei a conhecer também os homens com quem iria conviver directamente nos próximos dois anos. Chegados a Luanda ficámos instalados na Base Naval, situada na ilha de Luanda e de certo modo entregues aos cuidados do 1º TEN Melo e Cunha, comandante do destacamento que iríamos render e que, durante cerca de um mês, foi o homem responsável por um treino “in loco” da nossa unidade.
Nas primeiras impressões, o 1º tenente Melo e Cunha pareceu-me, um homem saído dos livros que o Jean Larteguy escreveu sobre as guerras da Indochina e da Argélia e que eu tinha lido todos: “Os Mercenários”, “Os Centuriões”, “Os Pretorianos”, etc. Alto, seco, atlético, voz rouca, treino de mato, enfim um especialista da guerra de guerrilha, com experiência adquirida e histórias já vividas.
Com ele aprendemos umas quantas coisas que nos vieram a ser muito úteis na nossa comissão. O sistema que o Comando Naval tinha adoptado para utilizar os fuzileiros especiais em Angola era, a meu ver, inteligente. Baseavase no princípio da rotação permanente dos 3 grupos de combate, de 25 homens cada, em que os DFE’S, para efeitos operacionais, eram divididos.
Em 1965, estava atribuída aos Fuzileiros Especiais a defesa da fronteira fluvial do rio Zaire e parte da fronteira de Cabinda com o ex-Congo-Braza, além da participação em operações especiais, conjuntamente com o exército e os “Páras” na região dos Dembos.
No Zaire havia 5 postos na margem angolana a partir de Santo António do Zaire para montante: Quissanga, Pedra do Feitiço, Puelo, Macala e Tridente, este último a uma distância de 15 minutos de bote de Nóqui. Em Cabinda havia um posto numa das extremidades da lagoa do Massabi, instalado numa antiga fazenda da CUF que estava ainda a cargo do Sr. Páscoa que tinha um chimpanzé simpático que dava pelo nome de Benfica.
Já em 1966, com a abertura da frente no leste de Angola, os fuzileiros passaram a estar em regime de permanência também no rio Lunqué Bungo, situado 200 quilómetros a sueste de Vila Luso, e na Lumbala, na zona sul do Saliente do Cazombo, junto à fronteira com a Zâmbia.
Mas, como dizia, o princípio da rotação estava em vigor, quer isto dizer que após um período de cerca de dois meses em que cada grupo de combate do destacamento ocupava um dos postos do Zaire, o destacamento voltava todo a Luanda onde passava a integrar as forças de intervenção que actuavam em operações especiais no norte de Angola, conjuntamente com os comandos dos outros ramos da FFA’s.
Depois de um período de seis a oito semanas voltávamos aos postos do Zaire e de Cabinda mas ocupando normalmente postos diferentes daqueles em que já tínhamos estado anteriormente. Mais dois meses e dava-se nova rendição na zona de Dembos.
Os tempos passados no leste de Angola eram maiores que os períodos do Zaire ou Cabinda mas o princípio da rotação mantinha-se.
Este regime de permanente mobilidade, além de permitir a minimização das neuras que afectavam muitíssimo os camaradas do exército, que chegavam a estar dezoito a vinte e quatro meses no mesmo local, permitia uma actuação diferente, em zonas novas. Introduzia uma parte de novidade e de desconhecido em situações alternadas de dificuldade e perigo com outras de tranquilidade e descontracção, com os evidentes efeitos positivos no clima psicológico de todos os homens do destacamento. Além disso esta situação permitiu também que viéssemos a conhecer regiões muito diferentes de Angola.

