por Rui de Oliveira
Cordas sobresselentes (1ª parte)
Na Segunda 23 de Abril, dito Dia Mundial do Livro, são poucas as manifestações com ele relacionadas; nem os pretextos que o motivaram – lembramos aos mais esquecidos que é o aniversário da morte de Cervantes, do nascimento e morte de Shakespeare (e ainda do nascimento de Nabokov e morte de Garcilaso de la Vega) − estimularam iniciativas visíveis.
Apenas no plano nacional a DGLB, cruzando o Dia Mundial do Livro com o Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações, apresenta duas propostas de campanhas/passatempos para assinalar esta data, “realçando a importância do livro e da leitura na integração dos idosos na sociedade”.
No plano internacional, a Unesco optou por agregar às comemorações do Dia do Livro e dos Direitos de Autor o 80.º aniversário do “Index Translationum” que constitui um instrumento excepcional, contendo mais de 2.000.000 de resumos bibliográficos em todas as disciplinas, para observar e avaliar os fluxos de tradução em todos os países membros, além de ser uma base indispensável para a elaboração de políticas culturais no âmbito do livro.
Ainda na Segunda 23 de Abril, conclui-se no Teatro Maria Matos, às 18h30, o ciclo de “Palestras para o Dia de Amanhã” (uma coorganização da UniPop com o Instituto de História Contemporânea da FCSH-UNL) com uma palestra do sociólogo e professor na Universidade de Bolonha Sandro Mezzadra intitulada “Direito de fuga” (o título dum seu livro de 2004) onde abordará, na essência, a seguinte tese : “… a mobilidade dos migrantes tem, (embora) reprimida, conseguido, ainda assim, traçar movimentos subjectivos de fuga à rigidez da divisão internacional do trabalho, movimentos que constituem mesmo um dos motores fundamentais das transformações profundas que se vêm operando nas sociedades actuais, reconfigurando a democracia e as noções de cidadania e de trabalho”.
Também na Segunda 23 de Abril, o Ciclo de Cinema Claude Chabrol apresenta no Institut Français de Portugal, às 19h, La Cérémonie (A Cerimónia), 1955, França/Alemanha, com Sandrine Bonnaire, Isabelle Huppert, Jacqueline Bisset, Jean-Pierre Cassel, Virginie Ledoyen, Valentin Merlet, entre outros.
Tema: O casal Lelièvre mora numa casa burguesa perto de uma aldeia da bretã. Sophie, a nova empregada doméstica, é expedita mas um pouco estranha. Ela torna-se amiga de Jeanne, a carteira da aldeia, e um dia as duas raparigas entram sem permissão na casa dos Lelièvre. A sua união torna-se numa revolta selvagem, algo que vai para lá do bem e do mal…
Vejamos o filme-anúncio :
Por último, lembramos neste início de semana (porque, por lapso, não o fizémos antes) que termina a 28 de Abril (Sábado) o espectáculo da Comuna –Teatro de Pesquisa que celebra o seu 40º aniversário, intitulado «Chico em Pessoa “afasta de mim esse cálice…”» e feito de textos de Chico Buarque e Fernando Pessoa. Encenado por Carlos Paulo, o monólogo ousado e irreverente é interpretado pela actriz brasileira Valéria Carvalho e exibido às 21h45.
Sinopse : “ Valéria Carvalho corajosamente dá vida às muitas mulheres de Chico Buarque, num universo real e suburbano. A adúltera, a dona de casa, a viúva, até às mulheres “da vida”, todas desvendadas por Fernando Pessoa que pontua e dá consciência a estes personagens ricos e controversos”. É o que espelha este vídeo promocional :
Na Terça 24 de Abril, há um Concerto Antena 2 no ISEG (ao Quelhas), às 19h (com entrada livre) do “T(H)ree Project” em que o contrabaixista e compositor italiano Massimo Cavalli cria um Trio com os seus parceiros Guto Lucena (saxofone) e João Cunha (bateria) com uma cumplicidade musical que se consolidou no curso de colaborações em vários projectos.
De entre os muitos temas de Massimo Cavalli ouvir-se-ão Varandas do Chiado, Harbopyshysm, Sogno Nº37, Sabrina, Blues For Davide, Il Lungo Viaggio, Free Four Three, Os Três Fariseus, Marce Blues, La Danza del Biondino.
Há dias, no Ondajazz, era este o seu som em All or nothing at all, o tema de Arthur Altman celebrizado por Frank Sinatra :
Também na Terça 24 de Abril, virá ao espaço do Santiago Alquimista (rua de Santiago, 19B, à Sé) a mítica banda britânica de rythm & blues (melhor dizendo pub rock) Dr. Feelgood na sua actual constituição (Robert Kane voz, Steve Walwyn guitarra, Kevin Morris bateria, Phil Mitchell contrabaixo) que recentemente lançou o CD “Repeat Prescription”, tema necessário do concerto.
Neste 24 de Abril abre ao público a 82ª Feira do Livro, organização da APEL, onde, entre várias outras iniciativas, como forma de atrair mais público, segundo o seu director, se “apostou na melhoria da restauração (?) mais variada e saudável” e, em homenagem à lusofonia, se “poderá dançar forró, ver uma demontração de kuduro ou experimentar capoeira”. Sem comentários.
Por último, lembramos ainda (porque, por lapso, não o fizémos antes) que termina a 29 de Abril (Domingo) na Sala Estúdio do Teatro da Trindade (ao Chiado) a exibição de “Diário Metafísico”, uma concepção e criação de Pedro Ramos que a interpreta, e é responsável também por som, câmara e cenários, com a assistência de Catarina Morato. Os espectáculos decorrem apenas de Quarta a Domingo (às 21h45, sendo às 17h no Domingo).
Da natureza desta performance dá bem ideia este fragmento de ensaio :
Na Quarta-feira 25 de Abril, o Teatro do Bairro homenageia a data libertadora com duas sessões. Às 24h de Terça, os Bandex , “qual na madrugada das gentes sem sono”, abordam a actualidade política com música de intervenção, com Nuno Gelpi (guitarra e sampler), Miguel Gelpi (contrabaixo), Mário Moral (guitarra e sampler) e Manuel Meliço (bateria).
Às 23h30 de Quarta, José Duarte organiza uma sessão de jazz onde se recorda a Dixieland, tendo para tal convidado o Dixie Gang, o mais antigo agrupamento de jazz tradicional português com mais de 20 anos de actividade, constituido hoje por João Viana cornetim/voz, Claus Nymark trombone, Paulo Gaspar clarinete, Jacinto Santos tuba, David Rodrigues piano/voz, Silas Oliveira banjo e Rui Alves bateria.
Do passado deste agrupamento é testemunho este vídeo :
Também a Orquestra do Hot Clube, às 22h30 desta Quarta 25 de Abril (como aliás em todas as últimas Quartas do mês), efectua o seu concerto, dirigida por Luis Cunha, com entrada livre.
Estreia na Quarta-feira 25 de Abril pelas 21:30 na Sala Vermelha do Teatro Aberto o espectáculo “Pelo Prazer de a Voltar a Ver” de Michel Tremblay numa versão, dramaturgia e encenação de Marta Dias, com interpretação de Luís Barros e Sílvia Filipe.
Sinopse: Um dramaturgo sobe ao palco para nos falar da mulher que desinquietou o seu espírito de jovem sonhador, para nos contar como se tornou quem é. A história que conta não é muito diferente das nossas histórias mas nós queremos ouvi-la outra vez – tal como ele deseja voltar a ver essa mulher, mais uma vez …
Registamos ainda a 25 de Abril e em sua homenagem, o espectáculo de Música Portuguesa do grupo Boémia no Auditório Carlos Paredes (em Benfica), às 21h30. Compõem o agrupamento, que recentemente editou o CD “Os Peregrinos do Mar” (com colaboração de Fausto Bordalo Dias e Amélia Muge), Rogério Oliveira voz , Marco Ferreira piano, Vasco Ribeiro contrabaixo, Patrick Simeão bateria, Hélia Silva acordeão e Isa Peixinho flauta.
Conheça-se então este novo grupo muito “faustiano” :
Assinalamos, por último, que a Assembleia da República promove a iniciativa Parlamento de Porta Aberta que inclui, para lá da Sessão Solene Comemorativa, um espectáculo “Celebrar Abril” onde actuará às 18h na Sala do Senado o Grupo de Violinos “Os Paganinus” do Conservatório Regional de Setúbal (entrada livre limitada à capacidade da sala).
No dia seguinte, 26 de Abril, nos Passos Perdidos da Assembleia da República, às 21h45, haverá uma sessão evocativa de José Afonso com CantAR Zeca Afonso (entrada livre).
Na Quinta 26 de Abril, no subpalco do São Luiz Teatro Municipal, a horas diferentes (das 15h às 0h30) e até 29 de Abril, pode ver-se o trabalho colectivo “Sub-Reptício (corpo clandestino)”, uma concepção, co-criação e interpretação de Ana Borralho & João Galante, Joclécio Azevedo, Rita Natálio e Vera Mantero, numa co-produção O Rumo do Fumo/SLTM que no São Luiz assinala conjuntamente o Dia Mundial da Dança e o Dia da Liberdade.
Há ainda a co-criação e interpretação de António Júlio, António Pedro Lopes, Catarina Gonçalves, Cátia Leitão, Elizabete Francisca, Francisco Camacho, Gustavo Ciríaco e Tiago Gandra.
Explica o programa: “O trabalho colectivo Sub-Reptício (corpo clandestino) leva os seus criadores-intérpretes … a expor uma ideia de dança: uma dança do corpo todo e de tudo o que o rodeia, que tudo absorve para existir, que tudo cruza e entrecruza, que não separa o corpo do espírito … Estas premissas levararam à conclusão de que este deve ser um trabalho onde todos possam viver de igual forma a liberdade do seu próprio corpo. Assim, Sub-Reptício (corpo clandestino) é um convite ao corpo nu, onde usar roupa é opcional para o espectador. Os criadores propõem-se, e propõem aos espectadores, praticar a nudez e experimentar algo que raramente temos oportunidade de experimentar na nossa sociedade: a nudez sem corar, a nudez sem vergonha, a nudez sem constrangimento. ‘Vergonhas’ não são o nosso sexo ou qualquer outra parte do nosso corpo. As verdadeiras vergonhas são: a especulação financeira; a destruição do planeta pela ganância global desenfreada; as empresas e a finança globalizadas governando o mundo”.
Também na Quinta 26 de Abril, na Sala dos Espelho do Palácio Foz e com o apoio da Juventude Musical Portuguesa, há às 18h30 um Recital de Violino e Piano que reunirá, para executar um programa ainda não divulgado, o violinista português Luís Pacheco Cunha (fundador do Quarteto Lopes Graça) e a pianista norueguesa Anne Kaasa, radicada em Portugal e recém autora dum CD com obras de Debussy (ed. Saphir) largamente premiado.
Ouça-mo-la em Grieg e Chopin na Casa da Ínsua há 2 anos (Maio 2010) :
Ainda na Quinta 26 de Abril, representa-se no Auditório do Institut Français de Portugal, às 21h, e ainda a 27 e 28 de Abril, a peça “Faz escuro nos olhos”, uma montagem e selecção colectiva com encenação de Rogério de Carvalho e interpretação de Ana Rosa Mendes, Daniel Martinho, Giovanni Lourenço, Margarida Bento, Matamba Joaquim e Zia Soares, numa produção do Grupo de Teatro Griot, valência duma associação cultural nascida a partir do encontro profissional e afectivo de actores de origem africana cujo objectivo principal se centra na realização artística e cultural nas suas mais variadas manifestações.
Aqui, diz a sinopse, “a voz parece a coisa mais comum do mundo… Toda a nossa vida social é mediada pela voz. Habitamos de forma constante um universo de vozes. Somos bombardeados por contínuas vozes. Temos que abrir passagens, a cada dia, através de uma floresta de vozes. … Mas as palavras falam quando as enfrentamos, nas tonalidades infinitas da voz, ao veicularmos significados. Todas essas vozes se elevam para além da multidão de sons, de ruídos.
Uma outra selva ainda mais selvagem e mais vasta: os sons da natureza, os sons das máquinas e da tecnologia. A civilização anuncia o seu progresso – muito ruído – e quanto mais progride mais ruidosa se torna. A linha divisória entre a voz e o ruído; a Natureza e a Cultura, é incerta.
Outra linha divisória separa a voz do silêncio. Custa suportar a ausência de vozes e de sons. O silêncio absoluto é sinistro, é como a morte, enquanto que a voz é o primeiro sinal de vida… Pode ser que no silêncio apareça outro tipo de voz mais premente, a voz interna, uma voz que não se pode fazer calar.”
Também na Quinta 26 de Abril, às 23h, o saxofonista Rodrigo Amado apresenta o espectáculo “Motion Trio + Jeb Bishop” no Hot Clube de Portugal, onde com ele tocam Miguel Mira violoncelo, Gabriel Ferrandini bateria e Jeb Bishop trombone, num concerto de entrada gratuita para sócios.
A 26 de Abril (Quinta-feira) prossegue a representação no Teatro Ibérico (rua de Xabregas, 54), às 21h e às 23h30, de Quinta a Sábado, do «auto poético fadista» intitulado «O Julgamento do Chico do Cachené» escrito em 1945 por Linhares Barbosa.
Esquecido durante largo tempo, será agora recriado com as vozes de Maria Emília, Nuno de Aguiar e Daniel Gouveia, e Sidónio Pereira na guitarra e José Clemente na viola.
Na Quinta 26 de Abril tem início, das 18 às 20h30 no Auditório B103 do ISCTE-IUL (na Av. das Forças Armadas, à Cidade Universitária) um seminário “Pensamento Crítico Contemporâneo”, organizado pela Unipop e pela Associação de Estudantes do ISCTE que pretende promover o debate sobre um conjunto de propostas teóricas que, posicionando-se criticamente face ao estado do mundo, têm procurado pensar as circunstâncias presentes e as alternativas que têm sido desenvolvidas no quadro da actual crise económica, mas também do ciclo de revoltas que, do Cairo a Wall Street, passando por Madrid, têm vindo a marcar o ritmo dos tempos que correm.
O seminário destina-se a todas as pessoas interessadas em participar, independentemente da sua especialização profissional ou da sua situação académica. (cada sessão avulsa 5 €)
Na primeira sessão ouvir-se-á “Gayatri Spivak: a subalternidade sexuada” por Adriana Bebiano e “Lila Abu-Lughod e o movimento feminista” por Shahd Wadi , com comentário de Manuela Ribeiro Sanches. Para mais pormenor : http://unipop.webnode.pt/news/seminario%20%7C%20pensamento%20critico%20contempor%C3%A2neo/
A 26 de Abril, às 18h no Museu da Electricidade, tem lugar a 1ª encontro-debate que a revista “Visão” promove e que designou “Conversas às Quintas”. Serão interventores Viriato Soromenho Marques e Mário Soares, ambos cronistas daquela revista. A participação do público requer uma inscrição prévia no respectivo site.
Nas Quintas seguintes estarão Pedro Camacho/José Carlos de Vasconcelos, Gonçalo M. Tavares/José Gil e António Lobo Antunes/Eduardo Lourenço.
Por último, no “INDIE Lisboa’12”, nesta Quinta 26 de Abril, os cinéfilos não deverão perder na Culturgest, às 21h30, o filme de Werner Herzog de 2011 “Into the Abyss” onde o realizador alemão embarca num diálogo pelos corredores da morte com um condenado à execução capital e um seu cúmplice, fazendo-lhes perguntas sobre aquilo que viveram (tudo filmado em unidades prisionais do Texas, o estado americano com maior taxa de execuções). O filme não coloca o foco na culpa ou inocência, lançando apenas um olhar sobre os acontecimentos, numa viagem “ao abismo” da alma humana.
O filme-anúncio retrata bem a forma de abordagem desta temática sensível :
Caros leitores: Concluiremos o restante até Domingo na hora seguinte. Tende paciência.






